Planejamento urbano de qualidade poderia evitar até 20% das mortes prematuras

(Jardim de Luxemburgo, em Paris / Foto: Kirua/Wikicommons)

(Jardim de Luxemburgo, em Paris / Foto: Kirua/Wikicommons)

Alguns aspectos da vida urbana como poluição do ar, sedentarismo, barulho, calor e falta de espaço verde podem ter efeitos sobre a saúde e aumentar o número de mortes prematuras. A projeção é preocupante se pensarmos que até 2050 quase 70% da população global estará vivendo nas cidades.

Uma pesquisa publicada no Environmental Health Perspectives (EHP) comparou os níveis de exposição recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com os atuais da cidade de Barcelona. A partir disso, os cientistas desenvolveram uma ferramenta de análise que quantificou e associou as relações entre exposição e mortalidade para que se estimasse o número de mortes prematuras que poderiam ser evitadas caso fossem cumpridas recomendações internacionais de desempenho de atividades físicas, qualidade do ar, níveis de ruído, calor e acesso a espaço verde. Cerca de 20% das mortes poderiam ser prevenidas se esses aspectos fossem melhor desenvolvidos.

O resultado reitera a importância de uma mudança de paradigma no planejamento urbano e de transportes. Afinal, a qualidade ambiental urbana traz benefícios para a saúde pública: aumentar o transporte público e ativo pode ser benéfico para evitar mortes.

As recomendações da Organização Mundial da Saúde

A OMS recomenda que adultos maiores de 18 anos realizem 150 minutos semanais de atividade aeróbica de intensidade moderada ou 75 minutos de alta intensidade. Na cidade analisada, mais de 70% dos adultos não eram suficientemente ativos.

Sobre a contaminação do ar, a OMS recomenda que as concentrações de exposição estejam em PM 2.5 anuais e não devem exceder 10 mg/m³. O que não acontece em muitas cidades do mundo. Também segundo a organização, os níveis de ruído entre 7h e 23h não devem exceder os 55 decibéis.

Ainda não existem estudos aprofundados sobre a quantidade recomendada de exposição ao calor no microclima das cidades, mas alguns estudos mostram como as áreas verdes nos centros urbanos podem proporcionar um alívio nesse sentido. O que a OMS recomenda sobre os espaços verdes é que cada cidadão viva a pelo menos trezentos metros de uma área verde.

Na cidade de Barcelona, além de 70% dos adultos serem insuficientemente ativos, os níveis de poluição e ruído de transito excederam os valores recomendados. E apenas dois terços da população vive a menos de 300 metros de uma área verde. Os fatores mais preocupantes para os cientistas foram a falta de atividade física e a poluição do ar que, somados, causam a morte de mais de cinco milhões pessoas ao ano no mundo.

O planejamento urbano e de transportes poderia contribuir para que os níveis de poluição, ruído e atividade física da cidade fossem readequados. Assim, diz o estudo, 20% de óbitos poderiam ser evitados – o que, em Barcelona, equivale a três mil mortes ao ano. As evidências são simples e lógicas. A redução do tráfego motorizado e a substituição pelo transporte ativo e de baixa emissão geram um ganho na qualidade de vida das pessoas, que se exercitam mais e respiram um ar menos contaminado.