Nossa Cidade: projeto de redesenho urbano transformará as ruas de São Miguel Paulista

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O projeto Nossa Cidade, do TheCityFix Brasil, explora questões importantes para a construção de cidades sustentáveis.

A cada mês um tema diferente.

Com a colaboração e a expertise dos especialistas do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, os posts trazem artigos especiais sobre planejamento urbano, mobilidade sustentável, resiliência, segurança viária, entre outros. A cada mês, uma nova temática explora por ângulos diferentes o desenvolvimento sustentável de nossas cidades.

 

Projeto de redesenho urbano transformará as ruas de São Miguel Paulista

O trânsito mata: todos os anos, mais de um milhão de pessoas perdem a vida em acidentes e, dentro de apenas 15 anos, esse número pode mais do que duplicar, chegando a 3,6 milhões de mortes anuais. Nas ruas brasileiras, as quartas mais letais do mundo, quase 47 mil pessoas morreram em 2013. A prova de que o país não está dando a devida atenção a tantas vidas perdidas é que o número se mantém em curva ascendente.

O preço da insegurança viária é alto – 16 bilhões de reais por ano, de acordo com o Observatório Nacional de Segurança Viária –, mas reduzir esses números não necessariamente exige muitos gastos. Julho foi o mês em que lançamos a publicação O Desenho de Cidades Seguras, um guia que orienta planejadores e gestores públicos na implementação de medidas e intervenções viárias que salvam vidas no trânsito. Nas últimas semanas, apresentamos aqui os princípios de desenho urbano que tornam as vias mais seguras, falamos sobre como acidentes podem ser evitados com mudanças de infraestrutura e discutimos as ações do Brasil na Década de Ação pela Segurança no Trânsito. Hoje, encerramos a temática mostrando algumas das intervenções de desenho urbano que serão aplicadas em São Paulo a fim de reduzir acidentes e salvar vidas.

 

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São Miguel Paulista é a primeira Área 40 implementada em São Paulo a receber alterações (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

O desenho urbano tem poder sobre a cidade. Ao projetar as cidades com foco nos deslocamentos realizados a pé e de bicicleta, inevitavelmente incorremos em um movimento contrário ao ainda tradicional em muitas cidades – e, por conta da prioridade agora dada às pessoas e não mais os carros, tem-se um ambiente urbano seguro e acessível. Ampliação de calçadas, redução dos limites de velocidade, travessias em nível, ilhas de refúgio, construção de espaços públicos de qualidade e qualificação do acesso ao transporte coletivo são algumas das medidas que podem ser implementadas com esse objetivo.

Intervenções como essas são vistas nas Áreas 40. São espaços urbanos delimitados por sinalização ou intervenções físicas como estreitamentos, geralmente marcados pela intensa circulação de pessoas, em que o limite de velocidade é reduzido visando ao aumento da segurança dos usuários da via. Em São Paulo, onze dessas áreas já foram estabelecidas, e a localizada em São Miguel Paulista será a primeira a receber mudanças no seu desenho viário, com obras que devem começar ainda este ano.

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Área de São Miguel que receberá alterações (Mapa: Prefeitura de São Paulo / Arte: WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Localizado na região leste de São Paulo, a 24 quilômetros do centro da cidade, São Miguel é lar para uma população aproximada de 370 mil pessoas. A alta concentração de lojas de departamento faz de São Miguel um dos principais centros de comércio de São Paulo, o que gera um intenso fluxo de pedestres na região. Grande parte das ruas do bairro, porém, não comporta essa demanda – as calçadas são estreitas e, muitas vezes, obstruídas, os tempos de travessia para as pessoas são curtos e há poucas faixas de segurança disponíveis. É em São Miguel, também, que está a Avenida Marechal Tito, considerada em 2015 a via mais letal para pedestres em São Paulo.

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

O bairro precisa de mudanças. Disso depende um ambiente mais seguro para todos os moradores, em especial os usuários mais vulneráveis das vias: pedestres e ciclistas. A fim de contribuir para que elas aconteçam, o WRI Brasil Cidades Sustentáveis, em parceria com a Prefeitura de São Paulo, a Iniciativa para a Segurança Viária Global da Bloomberg Philanthropies, o ITDP Brasil e a Nacto, trabalha em um projeto de requalificação urbana para a área central de São Miguel.

Intitulado “São Miguel Mais Humana”, o projeto prevê intervenções em diferentes espaços do bairro, incluindo travessias ao nível da calçada, revitalização de praças, ampliação de calçadas e a construção de ciclovias, entre outras medidas. Trata-se de um empreendimento pioneiro na América Latina – nenhuma outra cidade latino-americana desenvolveu proposta semelhante em um espaço tão amplo como o que receberá alterações em São Miguel, que possui uma área contígua de 500 mil metros quadrados.

O Prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, acredita que as intervenções contribuirão para o equilíbrio no uso dos diferentes modos de transporte, algo vital para a segurança viária. Outro aspecto substancial destacado pelo prefeito é o potencial de revigorar a área, oferecendo mais conforto para as pessoas e, assim, trazendo mais gente para os espaços públicos da cidade: “Os centros de bairros são áreas ativas, vibrantes, onde circulam muitas pessoas. Por isso é tão importante focar esforços nesses locais. Ao qualificar urbanisticamente os centros de bairro, qualificamos também a vida dessas pessoas. Esse processo melhora os deslocamentos a pé e, ao priorizar as pessoas, devolve a elas o espaço das ruas, seu direito de circular e se sentir bem em sua cidade”, avalia.

As mudanças são uma oportunidade de mostrar à comunidade que o lugar onde vivem pode ser melhor. É no que acredita Adalberto Dias de Souza, subprefeito de São Miguel, conhecido entre os moradores como Tim Maia. “Além disso, esse é o primeiro projeto do tipo a ser implementado na periferia. E pra São Miguel isso é muito importante. O acesso ao transporte, a requalificação dos espaços, a redução dos acidentes e mortes – essas são mudanças fundamentais para a comunidade”, destaca.

O projeto de requalificação de São Miguel nasceu com duas frentes principais: salvar vidas e deslocar esse tipo de revitalização das áreas centrais, onde normalmente são implementadas, para a região periférica, tão ou mais carente desse tipo infraestrutura. “São Miguel é a região de São Paulo com um dos mais altos números de acidentes quando se considera o índice de acidentes por quilômetro quadrado e nós queremos ajudar a mudar isso. Esse é o principal objetivo: salvar vidas”, enfatiza Brenda Medeiros, Diretora de Mobilidade Urbana do WRI Brasil Cidades Sustentáveis.

Mudanças que salvam vidas

As intervenções em São Miguel serão implementadas em fases. Na primeira etapa do projeto, serão realizadas 18 diferetes intervenções para trazer mais segurança à população. A primeira delas fica na interseção das ruas Dr. José Guilherme Eiras e Pedro Soares de Andrade. O cruzamento das ruas será elevado ao nível das calçadas, facilitando a travessia para os pedestres e obrigando os motoristas a reduzir a velocidade ao passarem pelo local.

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Alterações previstas para o cruzamento entre as ruas Dr. José Guilherme Eiras e Pedro Soares de Andrade. (Imagens: Prefeitura de São Paulo/Reprodução)

Outra importante alteração será realizada na rotatória entre as ruas Arlindo Colaço e Miguel Ângelo Lapena. Calçadas mais largas e uma ciclovia serão instaladas e começarão a fazer parte do dia a dia dos moradores. Além disso, a área receberá nova vegetação e mobiliário urbano para tornar o ambiente mais agradável para as pessoas.

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Alterações previstas. (Imagens: Prefeitura de São Paulo/Reprodução)

A Praça José Caldini, o coração de São Miguel, também passará por um processo de redesenho para dar mais espaço às pessoas. As calçadas serão ampliadas no encontro entre a Avenida Marechal Tito e a Rua Beraldo Marcondes. A árvore no centro da praça será preservada, e o entorno receberá nova sinalização, ilhas de refúgio e mobiliário urbano para oferecer mais conforto e segurança.

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Alterações previstas. (Prefeitura de São Paulo/Reprodução)

Medidas como essas comprovadamente salvam vidas. Cada metro a menos na distância de travessia dos pedestres, por exemplo, reduz em 6% a chance de atropelamentos*. Para travessias mais longas, a instalação de ilhas de refúgio pode diminuir o número de atropelamentos e mortes de pedestres entre 57% e 82%*. E, quando são elevadas ao nível da calçada, reduzem a velocidade no meio da quadra em 10%*.

As mudanças serão graduais, mas transformarão o centro de São Miguel em um espaço mais seguro, acessível e atrativo para as pessoas. Como incentiva Luis Antonio Lindau, Diretor do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, “precisamos descolar o conceito de progresso da ampliação da capacidade viária. As cidades podem mais, a engenharia oferece mais. E as pessoas merecem mais”.

 

*Dados disponíveis no guia O Desenho de Cidades Seguras.