Transporte precisa ter confiabilidade e qualidade, não Wi-Fi, diz pesquisa com usuários

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

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Você passaria a deixar seu carro em casa todos os dias se pudesse utilizar Wi-Fi ou carregar a bateria de seu celular dentro do ônibus? Dificilmente essas razões realmente motivariam alguém. Já um transporte coletivo pontual, rápido e acessível tem grandes chances de mudar comportamentos. Uma pesquisa realizada pela Transit Center, organização com sede em Nova York, afirma que a nova tendência de oferecer opções tecnológicas em ônibus não significa mais usuários ou menos carros nas ruas.

A pesquisa Who’s On Board contesta principalmente a ideia de categorizar os usuários do transporte coletivo. Por mais de 50 anos, profissionais da área de transporte vêm usando os termos “optativo” e “cativo” para descrever os dois tipos de usuários de transporte público. O usuário definido como “optativo” é aquele que possui carro, mas ainda assim escolhe o transporte coletivo para muitos deslocamentos. O “cativo” é aquele que não possui carro e, por essa razão, não tem outra alternativa se não o transporte coletivo.

De acordo com o principal autor do estudo, Steven Higashide, essa maneira binária de categorizar os usuários do transporte coletivo gera consequências negativas: “Existe uma ideia equivocada de que o transporte coletivo deve focar em conquistar os donos de carros, já que todos os outros já o utilizam de qualquer forma”. Na tentativa de satisfazer donos de carros e não donos de carros, as cidades perdem a noção do que as pessoas realmente querem do trânsito: segurança, confiabilidade e frequência”.

“Nós não estamos criticando as empresas por oferecer Wi-Fi”, afirma Higashide, “mas Wi-Fi realmente não irá melhorar o serviço”. Infelizmente, segundo ele, autoridades de trânsito muitas vezes tomam decisões estranhas porque não são elas que utilizam sistemas de ônibus ou metrô diariamente.

A pesquisa dá o exemplo dos novos ônibus de Nova York, anunciados em março como veículos “Ferrari-like“, algo como “estilo Ferrari”. Os veículos possuem uma pintura diferenciada, tomadas para USB e serviço de Wi-Fi. “Os ônibus de Nova York estão entre os mais lentos do país. Um veículo que parece uma Ferrari, mas transita a uma velocidade média de 13km/h não é muito atraente”, diz o texto. “É como colocar tomadas de USB no Titanic”, afirma o movimento popular de usuários de transporte coletivo, Riders Alliance.

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

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Os pesquisadores entrevistaram cerca de 3 mil pessoas de 17 regiões dos Estados Unidos para ouvir as melhorias que elas gostariam de ter nos sistemas de transporte com opções como melhores pontos de ônibus, serviços mais frequentes, conexão gratuita de internet, tarifas mais baratas, entre outras. Como resultado, eles descobriram que transporte de baixa frequência, lento e não-confiável, com estações desprotegidas e sem informações é o que deixa os usuários descontentes.

Mito do único modal

O diretor de tecnologia da Massachusetts Bay Transportation Authority criou o que chama de “o mito do único modal”. “Planejadores, políticos e jornalistas frequentemente discutem ‘motoristas’, ‘ciclistas e ‘passageiros’ como se as pessoas apenas dirigissem, pedalassem ou usassem o transporte coletivo”, diz o texto. Na realidade, pessoas podem ser as três coisas dependendo para onde elas estão indo, quão rápido precisam chegar ou até o dia da semana.

Para provar que essa é uma ideia obsoleta, a pesquisa dividiu usuários em três grupos: passageiros ocasionais que usam o transporte coletivo de vez em quando, usuários regulares, que adotam para ir ao trabalho, e usuários para todos os fins.

Nas cidades pesquisadas em que o sistema de transporte era mais precário, usuários ocasionais eram maioria. No entanto, ao melhorar o sistema, também ocorria o acréscimo no número de usuários para todos os fins. Segundo a pesquisa, o aumento de usuários que utilizam o transporte para diversos destinos e com frequência é um importante indicador de que o sistema está funcionando como deve.

Usuários cativos não utilizam o transporte coletivo independentemente da qualidade. Eles podem usar bicicletas, carros emprestados de familiares ou amigos, táxis, Uber e outros sistemas de carro compartilhado ou até aplicativos de caronas compartilhadas. Os entrevistados afirmaram ter mais intenção de utilizar o transporte coletivo – e até recomendá-lo – quando gostam do serviço.

A caminhabilidade também aparece como fundamental para os usuários do transporte coletivo. Dos passageiros frequentes, 80% chegam até os pontos a pé. Estações maiores, calçadas mais largas, travessias de pedestres visíveis e bem sinalizadas são fundamentais para a microacessibilidade das regiões.

Por fim, ao analisar dados coletados pela ferramenta AllTransit, desenvolvida pelo Center for Neighborhood Technology (CNT) e TransitCenter, o estudo concluiu que a fórmula para aumentar os usuários frequentes do transporte coletivo é justamente criar melhores condições para as pessoas caminharem até o modal.