Raiva ao volante: a competitividade e as relações agressivas que nascem no trânsito

No próximo dia 30, a animação Motor Mania, de Walt Disney, completa 66 anos. O desenho – que pode ser visto aqui–, incursiona, em seis minutos, sobre um tópico ainda atual nas cidades de todo o mundo: a raiva de muitos motoristas. A hostilidade que surge em muitos de nós ao ligar o carro continua atual e é tema de pesquisas. Um estudo feito nos Estados Unidos, divulgado na última semana, mostrou como cerca de 80% dos motoristas americanos apresentam comportamento agressivo ao volante. Dirigir muito próximo aos outros veículos, gritar, buzinar, gesticular, fechar o carro da frente ou sair para confrontar a outra pessoa foram alguns dos principais comportamentos relatados na pesquisa.

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(Quando está atrás do volante, o simpático Sr. Walker se transforma no descontrolado Sr. Wheeler. Imagem:reprodução)

A pesquisa feita com 2,705 motoristas americanos destaca como é cada vez mais predominante esse tipo de comportamento no trânsito, e como essa é uma séria ameaça para a segurança nas estradas. Os motoristas responderam um questionário online e mais de 78% relataram como haviam se engajado em pelo menos um comportamento agressivo no último ano. Confira no gráfico abaixo as principais atitudes relatadas pelos motoristas.

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Apesar de apenas 4% ter assumido o comportamento de sair do carro para discutir, os pesquisadores destacam como essa é apenas uma amostra, e que existem cerca de 214 milhões de motoristas cadastrados nos Estados Unidos.

No entanto, a tendência de comportamento agressivo no trânsito está longe de ser uma característica apenas dos americanos. Uma pesquisa realizada em Pequim avaliou não apenas o comportamento agressivo dos motoristas, mas a competitividade que se estabelece no trânsito, e elencou como o ambiente tem uma influência significante para as intenções e condutas das pessoas. A competitividade, segundo o estudo, acontece por uma concorrência estabelecida de busca por espaço. “O comportamento competitivo é visto como necessário para a obtenção de passagem; e o comportamento competitivo é também influenciado pela atmosfera de outros motoristas competitivos”, destacaram os pesquisadores.

De acordo com o Professor de Trânsito Haizhong Wang, um dos pesquisadores envolvidos, as estradas na China são lotadas e há menos controle de tráfego, além de muitos motoristas serem jovens e com pouca experiência –  o que faz de Pequim um bom lugar para se analisar a direção competitiva.

Realizada no Brasil, uma pesquisa similar elenca alguns resultados parecidos sobre as causas de agressividade no trânsito. Entre eles: “se um motorista comete um erro ou uma violação, o faz em função de uma ou mais das seguintes razões: a) o ambiente físico permite que o faça sem danificar o seu veículo e a si mesmo; b) a fiscalização do cumprimento das normas não está sendo feita de forma adequada; c) o ambiente social do trânsito permite ou até incentiva tal comportamento”.

As definições de direção agressiva apresentam pontos de convergência na mesma medida em que alguns entendimentos podem variar de pesquisa para pesquisa. Em termos gerais, pode ser definido como “operar um veículo automotor de forma egoísta, impaciente ou agressiva, de maneira pouco segura e que afeta diretamente outros motoristas”. Um comportamento comum no trânsito do mundo inteiro que, segundo estimativa da Associação Americana de Veículos Automotores, está presente em 56% dos acidentes de trânsito.

Como as cidades continuam voltadas para carros, os congestionamentos permanecem uma realidade. Além de um meio de transporte não sustentável, os veículos privados devem ser encarados como desafios psicológicos para quem dirige diariamente. O esforço para elevar o nível de tolerância e a empatia devem ser enfatizados para que se minimize o caráter agressivo e a coletividade do trânsito não seja prejudicada. A raiva e o stress são problemas de cada indivíduo até que interfiram na segurança dos outros.