Placemaking x gentrificação: a diferença entre revitalizar e elitizar um espaço público

Revitalização da High Line, linha férrea desativada de Nova York, elevou os preços dos imóveis da região. (Foto: Steven Severinghaus/Flickr-cc)

Revitalização da High Line, linha férrea desativada de Nova York, elevou os preços dos imóveis da região. (Foto: Steven Severinghaus/Flickr-cc)

A ideia de qualificar um espaço público ao melhorar ambientes que unam pessoas não deveria gerar desconfianças ou temores. Porém, experiências específicas de locais que viram o custo de vida aumentar muito após a sua revitalização vêm gerando contradições. Afinal, a nova vilã chamada gentrificação tem alguma relação com placemaking?

A resposta, infelizmente, é sim. Ainda que não seja uma relação de causa e consequência, é impossível negar a linha tênue entre os dois conceitos. Por definição, gentrificação, ou “enobrecimento”, se refere a melhoria social, cultural e econômica de um bairro ou, em maior escala, de uma região inteira. Placemaking é o processo de planejar espaços públicos de qualidade que contribuem para o bem-estar da comunidade local. Os conceitos podem ser parecidos, mas os métodos e as consequências de ambos são muito diferentes.

27218804934_fd217c5140_bA noção por trás da placemaking foi originada nos anos 1960, quando escritores como Jane Jacobs e William H. Whyte passaram a desenvolver ideias inovadoras sobre a criação de cidades que atendiam às pessoas, focando na importância de bairros vivos e convidativos. Já o termo gentrificação foi cunhado em 1964 pela socióloga britânica Ruth Glass para descrever o fluxo de pessoas da classe média que deslocou moradores de classe baixa de bairros urbanos. A socióloga ilustra a gentrificação ao citar o exemplo do bairro de Islington, no norte de Londres, onde modestos e velhos chalés foram tomados quando suas licenças expiraram e transformados em residências elegantes e caras.

Nos dias de hoje, é exatamente esse processo que transforma a gentrificação em uma vilã. O deslocamento de residentes ocorre quando esses não conseguem mais pagar pela habitação, pelas conveniências, pelas mensalidades escolares, entre outros serviços oferecidos no bairro devido a crescente riqueza da área. A confusão entre os termos começa quando os investimentos em espaços públicos passam a resultar em potenciais investimentos ainda maiores para a área.

Nesse complexo processo é difícil negar a relação entre a melhoria ou o desenvolvimento de um espaço público e o consequente aumento do valor dos terrenos ao redor. No entanto, o processo de placemaking não é uma causa direta de gentrificação. A diferença está nos elementos que fomentam os dois processos.

Placemaking deixa de ser placemaking quando ele não considera a opinião dos envolvidos na região. Tomadas de decisões com a contribuição genuína da comunidade e o reconhecimento de suas necessidades e desejos é o que define o processo. As transformações devem ter origem na própria comunidade que utiliza o espaço. Já a gentrificação é guiada, com ou sem a influência do governo, por objetivos econômicos, envoltos no processo de valorização e de desvalorização dos espaços urbanos ao longo do tempo. Isso pode ocorrer especialmente quando bairros de classe alta não conseguem mais sustentar o número de habitantes, que procuram instalação em outros pontos.

Mural no Mission District sinaliza gentrificação. (Foto: torbakhopper/Flickr-CC)

Mural no Mission District sinaliza gentrificação. (Foto: torbakhopper/Flickr-CC)

Esse processo é amplamente debatido na cidade de San Francisco, nos Estados Unidos. O site Urban Displacement, da Universidade de Berkeley, desenvolveu um mapa que apresenta os tipos de deslocamentos na região e aponta diversas áreas em estágio avançado de gentrificação. A transferência de diversas empresas de tecnologia é comumente dada como a culpada pela transformação da cidade. O custo de habitação e a grande quantidade de uma nova classe de trabalhadores fez com que bairros como o Mission, famoso pela presença de imigrantes latino-americanos, entrasse em uma fase de transformações.

“Condomínios de luxo, lojas de sorvete orgânico, cafeterias que servem café com leite de soja e lojas de chocolates que vendem marcas do Equador e de Madagascar estão rapidamente tomando o lugar de lojas de 99 centavos, bodegas e apartamentos de alugueis controlados no Mission District, bairro latino da classe trabalhadora”, escreve o jornal The New York Times.

Em São Paulo, o projeto do Parque do Minhocão vem sendo estudado com cuidado devido ao receio de que se torne mais um caso de gentrificação. O projeto, sancionado em março pelo prefeito Fernando Haddad, visa aos poucos transformar em área de lazer o Elevado Costa e Silva, que corta o centro da capital paulista. Atualmente, o Minhocão já é fechado por quase 40 horas durante os finais de semana. “Temos uma preocupação com a gentrificação da região porque não queremos expulsar ninguém do ambiente”, afirmou o prefeito. Para isso, Haddad disse que iria recomendar ao subprefeito da área a formação de um Conselho Gestor constituído por moradores da região.

O documentário “Ponto de Vista”, resultado de um trabalho de conclusão do curso de jornalismo da Unifieo, de Osasco (SP), dos estudantes Ingrid Mabelle, Caroline Carvalho e Fabio Santana e o operador de câmera Fernando Zamora, debate as diferentes perspectivas sobre as melhorias do Minhocão.

 

Ainda que o fenômeno da gentrificação esteja se tornando comum nas grandes cidades, o aprimoramento de locais não deve ser visto como ameaça. O que o crítico urbano Matthew Yglesias chama de “gentrificaçãofobia” pode gerar um medo excessivo do progresso e atrasar projetos necessários para comunidades. Avanços poderão aumentar o valor dos terrenos, mas não precisam desalojar os habitantes.

A maneira como são executados os projetos é o que determinará os resultados. O conhecimento sobre gentrificação e placemaking enfatiza a importância de criar espaços para todos, espaços que conectam os locais, ao invés de dividi-los. Bairros precisam ser identificáveis e manter suas características naturais, aquilo que o tempo se encarregou de construir. Evitar a gentrificação é evitar que se apague essa história.

  • José Angi Junior

    É natural que os próprios beneficiários de um “placemaking” acabem por aumentar os preços de seus imóveis, já que o local recebeu melhorias como um todo, tornando-o mais “chic” para o senso comum. Consequência: foi “gentrificado”. Quanto à saída dos beneficiários para locais mais distantes, já é discussão para os sociólogos. O que percebo nestes casos, é que a população de um local antigo e carente, ao ver este mesmo local transformado, vê aí a oportunidade de “fazer dinheiro”, já que, de repente, seu imóvel valorizou em duas, tres, dez vezes! Claro, o local mais bonito e arrumado atrai mais gente, e se a procura aumenta, os preços também! Meu imóvel que valia “X”, agora vale “10.X”! Com esse dinheiro, posso comprar um imóvel num local mais barato e viver um bom tempo… Ou seja, vejo o problema da substituição de usuários como consequência de um fator psicológico e de padrão comportamental. Quer dizer: estou acostumado a um local pobre e feio. De repente, este local não é mais, nem pobre nem feio. Então, eu não me encaixo mais aqui. Conclusão: vendo e vou embora, a não ser que o poder público não permita que meus filhos saiam da escola aqui perto (porque isso vai gerar um problema de transporte). A não ser também que meu emprego permaneça mais próximo, a não ser que meus parentes e amigos também permaneçam, a não ser que eu não tenha medo e vergonha das pessoas que estão se mudando para o meu bairro…A não ser que meus padrões adquiridos mudem, para que eu não me mude…