Nossa Cidade: acidentes de trânsito podem ser evitados com mudanças de infraestrutura e de comportamento

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O projeto Nossa Cidade, do TheCityFix Brasil, explora questões importantes para a construção de cidades sustentáveis.

A cada mês um tema diferente.

Com a colaboração e a expertise dos especialistas do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, os posts trazem artigos especiais sobre planejamento urbano, mobilidade sustentável, resiliência, segurança viária, entre outros. A cada mês, uma nova temática explora por ângulos diferentes o desenvolvimento sustentável de nossas cidades.

 

Acidentes de trânsito podem ser evitados com mudanças de infraestrutura e de comportamento

Acidente, por definição, é aquele acontecimento casual ou imprevisto, que geralmente causa danos, estragos ou sofrimento. E muitas ocorrências no trânsito são resumidas na premissa de que nem tudo pode ser controlado quando se está ao volante. No entanto, trata-se de um clássico caso em que prevenir é, sim, melhor que remediar.

Acidente na Radial Leste, em São Paulo (Foto: Milton Jung / Flickr)

Acidente na Radial Leste, em São Paulo (Foto: Milton Jung / Flickr)

O Brasil é o quarto país com mais mortes no trânsito no mundo, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). A taxa é de 23,4 mortes para cada 100 mil habitantes. Ou seja, cerca de 50 mil pessoas são vítimas de acidentes por ano – 128 por dia.

Números expressivos como esses deixam claro que nem tudo é acidente. Muitos acontecimentos podem ser previstos e evitados tanto a partir de comportamentos dos motoristas, com mais respeito aos limites de velocidade, por exemplo, quanto em medidas de segurança viária tomadas pelos setores responsáveis.

São Paulo, por exemplo, prova que algumas mudanças podem poupar centenas de vidas no trânsito. Um estudo feito pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) apontou uma queda de 20,6% no número de mortes no trânsito em 2015. A explicação para isso estaria nas ações de segurança viária implantadas, que incluem qualificação na mobilidade e priorização dos modos sustentáveis. Outros dados, do estudo “Impactos da Redução dos Limites de Velocidade em Áreas Urbanas”, desenvolvido pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis, mostram como uma redução de 5% na velocidade média dos veículos pode resultar em 30% menos acidentes fatais.

Essas iniciativas que qualificam a segurança viária priorizam os mais vulneráveis no trânsito: pedestres, ciclistas e motociclistas. Nesse contexto, também se aplica a estratégia do Avoid-Shift-Improve (Evitar-Mudar-Melhorar), um conceito abrangente e eficaz de se pensar o desenvolvimento sustentável. No caso do transporte, por exemplo, a ideia é evitar cidades dispersas e reduzir a necessidade de viagens, mudar para meios de transporte mais eficientes e melhorar a tecnologis de combustíveis e veículos.

O conceito evitar-mudar-melhorar foi articulado pela primeira vez por um conselho ligado ao governo alemão e consagrou-se como prática fundamental na busca por cidades mais sustentáveis. “Evitar” significa repensar os modais para substituir por opções mais sustentáveis, investindo no transporte urbano de alta capacidade para tornar as cidades mais compactas, coordenadas e conectadas. Ao priorizar o transporte ativo, por exemplo, com ciclovias e calçadas mais largas para pedestres, cria-se um estímulo para que se use menos os automóveis. Medidas de redesenho urbano são passos importantes para sinalizar esta priorização.

Então, entra a parte de “mudar”. Motoristas habituados a fazerem seus trajetos em veículos privados têm mais chances de deixar o costume de lado ao serem encorajados com outras formas de transporte. Isso inclui pensar em mais conforto, segurança e eficácia para o transporte coletivo, e a promoção do uso da bicicleta, que também precisa de uma infraestrutura adequada.

Por fim, a fase de “melhorar” se baseia nos ganhos que essas mudanças trazem para as cidades. As informações que resultam delas servem para futuras tomadas de decisão, além de mostrar o caminho do futuro para o transporte e o design urbano, de forma a entregar mais segurança em cidades voltadas para as pessoas.

Ao oferecer novas formas de transporte para as pessoas, para que possam trafegar com conforto, eficiência e segurança, reduz-se a necessidade de que os automóveis trafeguem pelas ruas. Dessa maneira, com vias mais pensadas na qualidade de vida, a probabilidade de ocorrências no trânsito é cada vez menor.

De olho nos motoristas

É claro que, por trás de um volante, sempre há um motorista. Assim, além das mudanças na oferta de transporte e das medidas de segurança viária, muitos acidentes podem ser evitados com o olhar preventivo e responsável de quem conduz um automóvel.

A obrigatoriedade do cinto de segurança é um dos exemplos de questões preventivas que deram certo. Foi só a partir de 1997 que a lei do uso para condutor e passageiros em todas as vias do território nacional entrou no Código de Trânsito Brasileiro. Um estudo da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) já mostrou que o cinto de segurança no banco da frente reduz o risco de morte em 45% e, no banco traseiro, em até 75%. Ainda assim, pesquisa do Ministério da Saúde de 2015, realizada em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou que apenas 50,2% da população diz usar o cinto quando está no banco traseiro de um carro, van ou táxi. Já no banco da frente, a incidência é maior: 79,4% das pessoas com 18 anos ou mais dizem sempre usar o item de segurança.

Entre os principais causadores de acidentes de trânsito estão o álcool e a alta velocidade. A aplicação da Lei Seca tem ajudado a diminuir o número de acidentes ocorridos por influência do álcool, após ter sido estabelecida a tolerância zero e aumentado o valor da multa para quem for flagrado embriagado ao volante, em 2012.

Campanhas de conscientização acabam tendo uma forte influência nessa equação. A Fundação Thiago de Moraes Gonzaga, de Porto Alegre, começou com o programa Vida Urgente em 1996, um ano após um acidente ter levado a vida de Thiago, filho de Régis e Diza Gonzaga, fundadores do projeto. As ações têm como objetivo promover a preservação e valorização da vida, para uma mudança de comportamento que resulte em um trânsito mais humano e seguro.

Um dos últimos vídeos produzidos pela fundação mostra depoimentos de pessoas que perderam alguém no trânsito. Confira:

 

 

No mesmo sentido, o movimento Não Foi Acidente também luta para reduzir as tristes estatísticas do trânsito. Em 2011, Rafael Baltresca perdeu mãe e irmã, vítimas de um atropelamento em São Paulo. O carro estava em velocidade superior a 140 Km/h e o motorista se recusou a fazer o teste do bafômetro. No mesmo ano, ele iniciou uma campanha e passou a coletar assinaturas para um projeto de lei de iniciativa popular, que tem como pontos principais a manutenção do crime de trânsito como homicídio culposo e o aumento da pena caso seja comprovada a embriaguez do motorista, ainda que o acidente não resulte em morte.

 

 

Seja com medidas públicas de segurança viária e de mobilidade urbana, seja por meio de mudanças na legislação ou a partir de um comportamento mais consciente e sustentável das pessoas, acidentes podem ser evitados, uma vez que muitas vezes são consequências previsíveis de uma soma de fatores. Pensar em ações que sirvam para evitar que o número de vítimas do trânsito chegue a 1 milhão mundo todo, até 2030, como prevê a OMS, é um papel coletivo, e os números mostram que vale a pena seguir nesse caminho.