Jogos de Planejamento Urbano: uma nova abordagem para um velho problema

Istambul, Turquia (Foto: Gabriel Garcia Marengo/Flickr)

Como podemos fazer para animar os debates sobre planejamento urbano, além de levar os participantes a pensar fora da caixa e a ter uma abordagem holística e abrangente para o planejamento comunitário? Por que não utilizar um jogo?

Jogos estão emergindo como uma plataforma útil para a promoção do diálogo significativo sobre questões de desenvolvimento urbano mais prementes de hoje. Com simulações, dramatizações e até mesmo o uso de blocos de LEGO, o desenvolvimento urbano interativo por meio de jogos pode fornecer uma maneira divertida e envolvente de trazer diferentes grupos de partes interessadas para o debate sobre planejamento urbano. Esses jogos removem a atmosfera ameaçadora normalmente sentida em reuniões mais formais e permitem que os participantes se comuniquem mais casualmente uns com os outros enquanto avaliam coletivamente os diferentes caminhos de desenvolvimento.

Os jogos podem ajudar a simplificar problemas aparentemente insuperáveis por descomplicar componentes e dividi-los em partes menores, mais compreensíveis. Além disso, os jogos que exigem interpretação de papéis podem tirar os jogadores de suas zonas de conforto, ajudando-os a compreender e visualizar os problemas de uma perspectiva diferente, como, por exemplo, enxergar através dos olhos e experiências de um ciclista, trazendo luz para questões que poderiam, antes, simplesmente ignorar. Reconhecendo o valor dos jogos, a ONU, em colaboração com os fabricantes de Minecraft, Urban Land Institute, MIT e inúmeras outras instituições, desenvolveu jogos interativos como ferramentas de ensino e solidariedade para facilitar os processos de aprendizagem e decisão entre os interessados de todas as idades e origens.

Colocando jogos de DOTS em ação no México e na Turquia

Recentemente, o time mexicano do WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis desenvolveu um jogo de papel, baseado em LEGO, para complementar seu guia de Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável para comunidades urbanas, convidando jogadores a explorar uma gama de estratégias de desenvolvimento em diferentes escalas para uma cidade e facilitar a discussões sobre os benefícios de zoneamento e desenvolvimento orientado para o transporte sustentável.

Os jogadores têm funções atribuídas, representando diferentes agências do governo ou setores, bem como desenvolvedores dos setores público e privado. Com um mapa de um site específico, eles usam peças de lego coloridas que representam diferentes tipos de uso do solo (exemplo: comercial, residencial , industrial) e adesivos para designar diferentes tipos de calçadas (exemplo: com ou sem árvores), ciclovias (exemplo: nos dois sentidos) e faixas de tráfego (exemplo: faixas exclusivas para ônibus) para construir e visualizar diferentes cenários de desenvolvimento. O jogo serve como um veículo para trazer à vida os princípios do Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável (DOTS) e provou ser uma técnica eficaz de envolver o público e profissionais de vários setores para falar sobre o assunto.

Jogo DOTS no México (Foto: WRI)

Dado o sucesso da atividade no México, a equipe do WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis na Turquia incorporou uma sessão do jogo para o 2015 Livable Cities Symposium, em Istambul, em novembro do ano passado. A oficina introduziu os participantes às diretrizes do DOTS e permitiu que os participantes explorassem o conceito através do redesenho de do bairro de Kucuk Armutlu, localizado ao lado da universidade onde o Simpósio foi realizado. A oficina proporcionou um ambiente interativo para participantes de diferentes áreas e mostrou como é possível planejar bairros melhores, mesmo para famílias de baixa e média renda que vivem em comunidades distantes dos sistemas de transporte coletivo.

Os jogadores foram divididos em duas equipes. Um grupo foi designado para representar o processo que ocorre normalmente, cobrando dos membros o desenvolvimento de recomendações dentro dos limites de restrições legais em vigor, tais como zoneamento, que não permitem o desenvolvimento de uso misto, e as convenções de planejamento que normalmente seguem uma estratégia de cima para baixo. O outro grupo foi encarregado de tomar uma postura mais “radical”, permitindo recomendações para incluir as leis de reforma e processos de planejamento. Ambas as equipes focadas em três principais problemas enfrentados pela comunidade: escalas desconexas de planejamento; modos desconectados de trânsito que são fisicamente inacessíveis pela comunidade; a falta de espaços públicos de qualidade.

Além de abordar os problemas reais e facilitar a compreensão do DOTS no processo de desenho urbano, o jogo tenta fomentar a colaboração significativa entre jogadores de diversas origens. Cada jogador deve lançar suas crenças profissionais e educacionais, assumir o personagem atribuído e tomar decisões através dos olhos desse personagem.

Essa foi a parte mais desafiadora do jogo. Muitos engenheiros, urbanistas e arquitetos achavam difícil apoiar ideias novas e contrárias ao que normalmente acreditam. Outro desafio que os jogadores enfrentaram foi aprender a interagir uns com os outros e a aceitar as diferentes perspectivas. Na verdade, o aspecto mais revelador sobre a oficina e o jogo foi perceber como, com o envolvimento dos participantes e uma discussão honesta, foi possível estabelecer um terreno comum.

Os jogadores reconheceram a importância da participação ativa de diversas partes interessadas no processo de tomada de decisão. A motivação e o entusiasmo dos participantes demonstraram a importância de incutir empatia nos jogadores durante o processo de tomada de decisão estratégica. Quanto mais empatia promovida, melhor a comunicação e a colaboração dos jogadores ao planejar melhor para todas as pessoas. Os participantes perceberam que os planejadores na Turquia e em outros lugares têm necessidade de envolver ativamente o público no processo de planejamento – uma prática que é em larga escala inexistente hoje.

Como Jane Jacobs explica em “Morte e vida de grandes cidades americanas”: “As cidades têm a capacidade de fornecer algo para todos, apenas porque, e apenas quando, são criadas por todos”.

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Este post foi escrito por  e  e originalmente publicado no TheCityFix.