Dez anos depois de Uma Verdade Inconveniente: a luta contra as mudanças climáticas continua

Dez anos depois do lançamento de “Uma Verdade Inconveniente”, os alertas trazidos por Al Gore em seu documentário continuam atuais (Foto: Gui Seiz/Flickr)

“Eu não acreditava que uma apresentação de slides poderia se transformar em um documentário”, disse Al Gore, ambientalista e ex-vice-presidente dos Estados Unidos, a respeito de o que se tornou um dos mais famosos documentários sobre mudanças climáticas e que este mês chega a seu aniversário de dez anos: Uma Verde Inconveniente.

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No ano 2000, os Estados Unidos viveram uma das eleições presidenciais mais disputadas de sua história. Al Gore venceu no voto popular mas perdeu no Colégio Eleitoral para George W. Bush, que seria o presidente estadunidense pelos dois mandatos subsequentes. Embora tenha perdido a disputa pela presidência, Al Gore seguiu em campanha: nos anos seguintes, percorreu cidades de todo o mundo expondo e explicando as consequências do aquecimento global. Dessas apresentações saiu a produção que contribuiu para levar o ambientalista americano a receber o Prêmio Nobel da Paz em 2007.

Lançado em maio de 2006, o longa dirigido por Davis Guggenheim e estrelado por Al Gore parte de uma série de dados para explicar a relação direta entre a atividade humana e o aumento das emissões e do aquecimento global. O derretimento das calotas polares, o aumento do nível dos oceanos e os índices cada vez mais altos de poluição atmosférica, entre outras consequências potencialmente catastróficas da presença humana na Terra, são mostrados em uma série de imagens impactantes para alertar sobre os riscos de nosso comportamento em relação ao planeta.

Dez anos depois, a mesma inconveniência

À época do lançamento de “Uma Verdade Inconveniente”, em abril de 2006, a concentração de CO2 na atmosfera era de 382 ppm (partes por milhão); dez anos depois, em abril deste ano, o índice chegou a 404 ppm – essa mudança representa um aumento de 5,5% na última década de 22% desde 1958.

Em 2006, o nível do mar havia subido 33,5 milímetros; em janeiro deste ano, 74,8 milímetros – o equivalente a um aumento de quatro centímetros na década. Quanto à temperatura média no planeta, desde 1880, a Terra está 1,4 graus Fahrenheit mais quente. Dados da NASA mostram que os dez anos mais quentes ocorreram todos a partir de 2000, sendo 2015 o ano mais quente já registrado na história.

 

(Fonte: go.nasa.gov/280T6h3)

 

Embora o ceticismo acerca das mudanças climáticas busque em fenômenos naturais a causa para o aquecimento global, não é a órbita da Terra, o Sol ou a atividade vulcânica que tem elevado as temperaturas. O que realmente está provocando o aquecimento global – e que Al Gore já sabia há dez anos quando lançou seu documentário – são fatores humanos:

Infográfico interativo da Bloomberg mostra que a causa do aumento da temperatura global está em fatores humanos (Fonte: Bloomberg)

Dez anos depois, ainda estamos diante da mesma verdade inconveniente: não podemos culpar nada ou ninguém além de nós mesmos pelo aquecimento global. De forma geral, continuamos a consumir recursos de forma desmedida e a impactar negativamente o planeta. Porém, sinais de mudanças começam a surgir. Em abril deste ano, líderes de 175 países reuniram-se em Nova York para assinar oficialmente o documento firmado na COP 21, considerado o maior acordo climático da história, que estabelece como meta impedir que o aumento da temperatura na Terra ultrapasse os 2°C até 2100.

Finalmente, parece que os alertas que há muito já soam começam a ser ouvidos. A assinatura foi o primeiro passo de um processo de duas etapas para a adesão formal ao acordo, que ainda depende da ratificação. Depois que pelo menos 55 países representando no mínimo 55% das emissões de gases do efeito estufa, o acordo entrará em vigor legalmente, e a expectativa é que isso ocorra antes do prazo estabelecido.

A verdade e o desafio são os mesmos, mas Al Gore é otimista:

É uma tremenda mudança. O Acordo de Paris excedeu minhas expectativas mais altas. Ele foi longe o suficiente? Não, claro que não. Pode ser melhorado? Sim, e foi feito para isso, para ser contantemente melhorado. É nisso que estou focado agora. É nesse ponto que estamos no que diz respeito a resolver a crise climática. Ainda estamos atrás no placar, mas dinâmica do jogo mudou. Nós vamos vencer.

(Fontes: Wired, NASA)