Cinco tendências globais da resiliência climática

A conferência Adaptation Futures reuniu mais de 1.700 especialistas de 95 países. (Foto: P. Wall/CIMMYT)

Post originalmente publicado no WRI Insights.

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O Acordo de Paris, alinhado na COP21, no ano passado, tratou com uma importância sem precedentes a adaptação às alterações climáticas e a resiliência. Na semana passada, começamos a aprender como países, cidades, pesquisadores e outros estão colocando prioridades de adaptação em prática.

A conferência Adaptation Futures, em Roterdã, na Holanda, reuniu mais de 1.700 profissionais e pesquisadores de mais de 95 países. Foi a maior conferência sobre adaptação às mudanças climáticas da história. A partir das discussões, ficou claro que o conhecimento e a experiência sobre adaptação climática estão evoluindo. Notamos cinco tendências que surgiram:

1) Sucesso significa afetar vidas individualmente

Em seu discurso de abertura, Christiana Figueres, Secretária Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), encorajou os delegados a pensar na adaptação como um meio de melhorar a vida das pessoas. “A questão que precisa nos fazer acordar todas as manhãs é: ‘Fizemos a vida dessas pessoas mais fáceis e melhores?'”, questionou Christina.

Os esforços de adaptação são tão eficazes quanto o impacto que têm sobre cada pessoa. Intervenções em todo o mundo estão começando a refletir isso. Anteriormente, eles se concentravam em impactos agregados das alterações climáticas sem considerar a análise local, individualizada. Um exemplo é a cidade do Rio de Janeiro, que está testando indicadores que medem e constroem resiliência a nível individual. O objetivo final é identificar políticas e ações que possam ajudar pessoas individualmente a aumentar as suas capacidades de gerir as mudanças climáticas e de tornarem-se mais resilientes. Para obter essas informações, a equipe de resiliência do Rio de Janeiro irá medir a percepção dos indivíduos sobre riscos, o seu nível de preparação, e seu conhecimento sobre os hábitos de redução desses riscos.

2) Cidades estão na linha de frente

Cidades estão à frente tanto dos impactos climáticos quanto das ações climáticas. À medida que as populações crescem e desastres naturais relacionados ao clima impactam as cidades, a adaptação e a resiliência precisam estar cada vez mais integrados ao desenvolvimento urbano.

Algumas cidades já estão priorizando a adaptação. Nova Iorque, Londres, Durban e dezenas de outras estabeleceram grupos de trabalho especiais e parcerias para combater as alterações climáticas nos mais altos níveis de seus governos municipais. Enquanto isso, conselhos municipais na Austrália começaram a integrar riscos climáticos nas legislações estaduais e municipais para implementar a adaptação de baixo para cima.

Por exemplo, em Pittwater, Austrália, as permissões para construir só são concedidas uma vez que o conselho municipal estiver convencido de que o aumento do nível do mar, a erosão costeira ou a mudança de padrões de inundação como resultado das mudanças climáticas tenham sido considerados.

3) Precisamos pensar grande

A adaptação está em transição de pequenos projetos-piloto pontuais para programas sustentáveis de larga escala. Está evoluindo para uma prática mais sistêmica.
A cidade de Roterdã, por exemplo, aplicou um conceito simples, chamado de piggybacking (uma técnica de transmissão de dados bidirecional), para integrar adaptação e resiliência à infraestrutura. A cidade começou a enxergar os projetos de desenvolvimento urbano com lentes climáticas, atribuindo gerentes de integração a elas. A adaptação está sendo agora incorporada às decisões de planejamento urbano. Por exemplo, a cidade criou procedimentos para quando altas temperaturas afetarem o desempenho de uma ponte, e desenvolveu padrões para o pavimento permeável que podem acomodar fortes chuvas e inundações.

4) As soluções baseadas na natureza estão ganhando terreno

Especialistas têm promovido soluções baseadas na natureza para adaptar e melhorar a resiliência das cidades, aumentar o acesso a água, proteger os ecossistemas naturais e reduzir os riscos de desastres. Estruturas naturais ou “verdes” – como florestas, paisagens restauradas, gramados e telhados verdes para reduzir o calor e as inundações – podem fornecer soluções sustentáveis e de baixo custo que complementam a construção tradicional ou infraestrutura “cinza”. Por exemplo, a Universidade Técnica de Munique descobriu que as árvores e paredes verdes podem compensar temperaturas mais elevadas resultantes das alterações climáticas.

5) A adaptação vai transformar modelos de desenvolvimento

Nós nos adaptamos às mudanças climáticas não apenas pelo bem dela, mas por um objetivo maior – segurança alimentar, continuação da prosperidade, segurança de que todos terão um sustento etc. É, portanto, um meio para um fim de desenvolvimento mais holístico, compatível com o clima. A mensagem de que podemos conseguir mais se estivermos cientes de que a adaptação se encaixa em um contexto de resultados melhores no desenvolvimento ressoava entre os profissionais e financiadores na Adaptation Futures.

Um exemplo é divulgar a adaptação nos processos de planejamento nacionais. O governo da Zâmbia começou a rastrear as finanças no orçamento nacional e treinou Unidades de Planejamento Regionais e seus profissionais para incluir a adaptação no seu planejamento. Esse processo resultou em 14 planos regionais.

Avançando mais rapidamente

As tendências destacadas acima são motivo para otimismo. Dá para notar que a ação climática está ganhando velocidade e escala. Ao mesmo tempo, ainda há muitas oportunidades para mover essa bola em frente na adaptação.

Enquanto o financiamento da adaptação tem aumentado nos últimos anos, não está atingindo municípios rápido o suficiente, particularmente em países em desenvolvimento e que estão na linha de frente dos impactos climáticos. Dentro desse contexto, a maioria das sessões e palestras destacou a necessidade de envolver o setor privado.

No entanto, ainda resta dúvidas sobre qual a forma mais eficaz e eficiente de se fazer isso. Muitas sessões sublinharam a importância de quebrar barreiras e identificar co-benefícios com a mitigação para que a adaptação possa alcançar o seu pleno potencial e contribuir para os objetivos do desenvolvimento sustentável.

Agora, cabe aos muitos participantes da conferência levar essas ideias e prioridades para frente para garantir que 2016 torne-se verdadeiramente o ano da ação na adaptação.