O plano sueco para mover uma cidade inteira de lugar

As cidades estão mudando. Uma delas, no entanto, está empregando o verbo não apenas no sentido de transgressão, mutabilidade ou renovação, mas em termos geográficos. Todos os 18,200 habitantes da cidade de Kiruna, na Suécia, estão preparados para organizar as malas. Não para deixar a cidade, mas para realizar o êxodo junto com ela. Apesar da proximidade com o Círculo Polar Ártico, o deslocamento não está relacionado às mudanças climáticas. O motivo é de fácil identificação, está até mesmo no brasão de Kiruna: o ferro.

Fundada e afundando por conta da mineração

Fundada em 1900 por uma empresa estatal de mineração chamada LKAB, a cidade está em cima de uma das mais vastas fontes de ferro do mundo. O que fez com que a mineradora cavasse mais e mais, até o ponto em que o solo respondeu à lacuna deixada pelos minérios de ferro das fundações da cidade da única maneira possível: afundando. A necessidade de mudar a cidade de local foi constatada em 2004, por problemas geológicos de subsidência – termo técnico para o movimento de uma superfície para baixo em relação a um nível de referência.

O deslocamento da cidade acontece, portanto, como medida preventiva de segurança. Afinal, Kiruna pode ruir ao longo do próximo século. A própria mineradora LKAB está dedicando mais de US$ 1 bilhão para o deslocamento dos moradores.

Oportunidade para corrigir os erros urbanísticos

Já que o deslocamento precisa acontecer e uma nova cidade precisa ser projetada, o escritório de arquitetura que venceu a licitação está projetando melhorias substanciais para o novo local onde ficará o município. A empresa pretende realizar a urbanização a partir da ocupação de menos espaço, mas de maneira mais densa. Ao contrário da antiga Kiruna, que era extensa e sem foco.

Em entrevista para o Gizmodo, Åsa Bjerndell, um dos arquitetos responsáveis, comentou alguns tópicos do projeto chamado Kiruna 4 ever. Para ele, “a cidade deve ser mais sustentável, dar aos cidadãos acesso facilitado a praticamente todos os serviços públicos e, por consequência, deve atrair urbanistas de todo o mundo para observar como a nova cidade vai se sair. Imagine as possibilidades para modernizar estruturas da cidade, como de trânsito e, inclusive de internet, que podem ser refeitas do zero”

Apenas três estruturas históricas serão reconstruídas da mesma maneira. Uma delas é a igreja de Kiruna, eleita pelos suecos como o edifício mais bonito do país, que está sendo movida tábua por tábua para a nova localidade.  A prefeitura e a empresa mineradora estatal estão coordenando em conjunto a mudança. Na última semana, o governo sueco divulgou um documentário no qual os moradores relatam um pouco de suas experiências com a mudança. Apesar de cerca de 400 famílias já terem se mudado, muitos comércios e cidadãos vão demorar alguns anos para efetivar o deslocamento.

 

 

Alguns comerciantes estão projetando deixar a velha Kiruna apenas por volta de 2020, pois a mudança prematura pode resultar em perda de movimento para as lojas.

De acordo com um estudo do Climate Central divulgado em 2015, se as emissões de gases do efeito estufa seguirem nesse ritmo e o planeta chegar ao aquecimento de 4ºC, o nível das águas subiria, em média, 8,9 metros, provocando a submersão equivalente a áreas onde 600 milhões de pessoas vivem atualmente. Kiruna será movida dois quilômetros para o leste, mas que isso sirva para que outras cidades e urbanistas estudem o processo e movam suas mentes e cidades para a frente, no sentido da resiliência, sustentabilidade e preservação.