Novo relatório da ONU mostra que dano ambiental cresce, mas pode ser revertido se agirmos agora

(Imagem: NASA/ GSFC/ NOAA/ USGS)

Os resultados das mudanças climáticas para o planeta estão mais evidentes do que os cientistas previram, alertou o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) nesta quinta-feira (19). Se os problemas estão mais evidentes, por outro lado, é possível revertê-los, desde que os governos comecem a agir imediatamente.

Essas são algumas das conclusões do estudo Previsão Meio Ambiental Global (GEO-6, na sigla em inglês), apresentado em Nairóbi, no Quênia. Trata-se do último e mais exaustivo trabalho realizado pelo PNUMA que, através de seis relatórios regionais, mostra como a ameaça do clima no planeta está aumentando de intensidade de forma preocupante – com efeitos em todas as regiões.

Entre os motivos apresentados para tais consequências pelo mundo estão o aumento da população, a rápida urbanização, os crescentes níveis de consumo, a desertificação e a degradação do solo. Todos esses fatores provocaram uma grave escassez de água e puseram em risco a segurança alimentar de centenas de milhões de pessoas. Porém, os especialistas também avaliam que é possível reverter consequências importantes como a destruição de ecossistemas marítimos e o crescente nível de poluição do ar. As cidades não apenas ajudam nesses problemas, mas também são parte importante na solução deles.

“Se esta tendência continuar e o mundo não conseguir melhorar os padrões atuais de produção e de consumo, se não conseguirmos utilizar os recursos naturais de forma sustentável, o estado do meio ambiente seguirá piorando”, lamentou em entrevista coletiva o diretor-executivo do PNUMA, Achim Steiner.

Os relatórios, feitos com a contribuição de 1.203 cientistas, são uma antecipação da segunda Assembleia Meio Ambiental das Nações Unidas, que ocorre na próxima semana em Nairóbi. A América Latina e o Caribe, que têm nos produtos primários e nos recursos naturais 50% de todas as suas exportações, além de uma taxa de urbanização elevada, precisam começar a desvincular o seu crescimento econômico do consumo de recursos. Veja a análise dos cientistas para quatro áreas-chave desta região:

Qualidade do ar

(Foto: Thomas Hobbs)

As emissões de gases do efeito estufa estão crescendo na América Latina como resultado da urbanização, que traz crescimento econômico, mas também de consumo de energia, além das alterações no uso do solo. Todas essas transformações afetam a qualidade do ar. A maioria das cidades da região que têm dados registrados estão com concentrações de matéria particulada acima das diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS). No entanto, há progressos a partir da redução do uso de substâncias que afetam a camada de ozônio e a eliminação do uso de chumbo na gasolina. Estima-se que 100 milhões de pessoas vivem em áreas suscetíveis à contaminação do ar na América Latina, a maioria nas cidades, que são locais mais densamente povoados. Em 2012, 138 mil mortes foram atribuídas à contaminação do ar.

Saúde dos oceanos, mares e costa

(Foto: Nasa)

O desenvolvimento mal gerido na região costeira ameaça a fauna e a flora marinha em todo o continente. Há degradação de hábitats importantes, que podem causar escassez de recursos naturais e impactos na biodiversidade. Essas áreas também estão mais suscetíveis a desastres naturais. Além disso, o aumento no nível do mar afeta cerca de 29 milhões de pessoas que vivem em áreas costeiras na América Latina, sujeitas a inundações. Regiões densamente urbanizadas, com grandes cidades à beira mar, como no Brasil, estão mais suscetíveis a enfrentar problemas.

Perda de hábitats e degradação da terra

(Foto: Brad Smith/Flickr-CC)

A América Latina e o Caribe contêm 12 dos 14 biomas do mundo e 191 das 867 eco regiões únicas no mundo. De 2001 a 2013, 17% das terras aráveis e 57% das pastagens foram estabelecidos em florestas derrubadas para esse propósito. Há uma gestão insustentável do uso da terra, dizem os cientistas. A demanda regional e internacional para a produção agrícola, carne de gado, madeira, petróleo e mineração, juntamente com as condições socioeconômicas adversas e a necessidade de investimento estrangeiro, colocam pressão sobre os legisladores da região a dar prioridade a metas de curto prazo que podem resultar em uma degradação do a terra.

Biodiversidade

 De 60% a 70% de toda a vida conhecida na Terra vem da América Latina e do Caribe. Sem limitações ao desenvolvimento urbano e agrícola, essa riqueza continuará ameaçada. A mudança do uso da terra continua sendo a maior ameaça, sem contar outros impactos como a contaminação, a superexploração, o turismo não sustentável e a invasão de espécies. Mesmo com a taxa de desmatamento tenha caído recentemente, ainda são derrubados 2,18 milhões de hectares ao ano. Os estudos também mostraram que, mesmo com a redução no desmatamento, não houve uma desaceleração na perda de biodiversidade, que continua aumentando.

 

O que fazer?

Veja as recomendações gerais dos cientistas para a América Latina e o Caribe:

 

– Os governos precisam encontrar soluções inovadoras para permitir a dissociação entre o crescimento económico e o consumo de recursos.

 – Reduzir a dependência de combustíveis fósseis e diversificar as fontes de energia será fundamental para a região. Esse tipo de mudança será crítica nas cidades, responsáveis por 70% das emissões em escala global.

 – Os governos precisam investir em soluções baseadas nos ecossistemas para reduzir a vulnerabilidade e aumentar a adaptação.

 – Aumento do investimento em investigação científica e desenvolvimento da capacidade de recolher e aplicar dados baseados em pesquisas para reforçar a interface entre ciência e política.

– Uma coordenação intergovernamental mais forte e mais focada em nível regional e sub-regional irá melhorar as questões de governança que são de prioridade regional.