De Bike ao Trabalho: uma prática para virar rotina

Equipe do WRI Brasil Cidades Sustentáveis aderindo à campanha do dia De Bike ao Trabalho. (Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Hoje é celebrado em todo o mundo o Dia De Bike ao Trabalho. A iniciativa poderia ser replicada com muito mais frequência do que apenas um dia por ano, mas tem como objetivo instigar as pessoas a pensar em novas possibilidades de deslocamento. Nós, do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, aderimos à campanha. Apesar da prática não ser tão rara na nossa equipe, a data incentivou mais colegas a testarem o percurso casa-trabalho com suas magrelas. Mesmo com os desafios que a cidade de Porto Alegre impõe aos ciclistas, o exercício rendeu bons frutos.

O Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI) da capital gaúcha prevê, no decorrer dos anos, a conclusão de 495 quilômetros de ciclovias. Atualmente já foram inaugurados 36,9 quilômetros, mas a meta da prefeitura é chegar, até o final do ano, a 50 quilômetros de ciclovias. No entanto, o número crescente de adeptos ao uso da bicicleta vem causando mudanças no cenário e na forma de pensar dos porto-alegrenses. As dificuldades ainda são grandes para quem usa diariamente, mas quanto maior o incentivo, maiores as transformações.

“Adorei a experiência! Vim de bike hoje para participar da atividade, acho que não viria por iniciativa própria porque sempre achei que subir a Ramiro Barcelos (rua com uma grande subida) fosse muito sofrimento, mas curti a experiência. Vou experimentar alguns caminhos alternativos”, contou a nossa Coordenadora de Cidades, Luiza de Oliveira Schmidt.

A última edição do índice Copenhagen­ize Design Company’s listou as 122 cidades – com pelo menos 600 mil habitantes – mais parceiras do uso de bicicletas. A análise leva em conta critérios como infraestrutura (existência de ciclovias, sinalização, estacionamentos, etc.), amparo legal (permissão para carregar as magrelas no metrô e em ônibus, além de fiscalização) e programas de aluguel. No topo da lista está Copenhague, onde 50% dos habitantes deslocam-se diariamente de bicicleta para ir trabalhar ou para ir estudar através dos 560 quilômetros de pistas cicláveis. No centro da cidade há mais bicicletas que habitantes: 520 mil habitantes e 560 mil bicicletas.

A transformação que os ciclistas promovem na capital dinamarquesa é tamanha que as autoridades estudam a proposta de usar o tempo de viagem de bicicleta como base para todos os semáforos e projeções de fluxo, em vez de usar os tempos de viagem de carro. Todo esse processo não se deu da noite para o dia, mas através de muito estudo, pesquisa e campanhas de incentivo à prática.

Por onde começar?

A redução do número de automóveis em circulação nas grandes cidades é um problema que deve ser encarado com urgência. Segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), compilados pelo Observatório das Metrópoles, na última década, o aumento percentual do número de veículos no Brasil foi onze vezes maior que o da população. De 2001 a 2012, a frota passou de 24 milhões para 50 milhões de veículos. Encontrar uma solução para esse acúmulo de carros deve ser uma missão não apenas das autoridades municipais, mas de cada um, podendo começar por cada local de trabalho. Afinal, não é para se destinar a eles que a maioria das pessoas tira seus carros da garagem todos os dias?

A prática de racionalizar os deslocamentos ao trabalho e estimular a mudança de hábitos dos funcionários chama-se mobilidade corporativa. Estratégias de Gestão de Demanda de Viagens (GDV, do inglês Transport Demand Management, TDM) são direcionadas à redução, especialmente, do número de carros transportando apenas uma pessoa, e a tornar a mobilidade mais eficiente e sustentável. Para isso, as instituições devem agir estrategicamente criando um Plano de Mobilidade Corporativa. A publicação do WRI Brasil Cidades Sustentáveis Passo a Passo para a Construção de um Plano de Mobilidade Corporativa tem o objetivo de guiar organizações interessadas, de todos os tamanhos e áreas de atuação, na construção de uma ação coordenada e conjunta entre funcionários e gestores.

Apesar do assunto ainda ser novo no país, 90 das 100 melhores empresas para se trabalhar, eleitas pela Revista Fortune em 2014, possuem uma política de mobilidade corporativa em vigor. Algumas cidades brasileiras possuem políticas públicas de gestão de demanda de viagens há muitos anos, tais como a restrição do trânsito de veículos pela placa em São Paulo, desde 1997, e a cobrança de estacionamento em vias públicas desde 1987 em Porto Alegre.

Demanda existe. Empresas podem começar a incentivar o uso de bicicletas ao destinar espaços de estacionamento. (Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Políticas públicas podem ser traduzidas em leis municipais, estaduais ou federais que, tipicamente, determinam que empresas de certo porte implementem um programa de mobilidade corporativa. Elas já são estabelecidas em cidades ou estados dos Estados Unidos, Itália, Reino Unido, França, Países Baixos, Bélgica, Alemanha, entre outros.

Para que esse planejamento seja aplicado para o maior uso das bicicletas, as empresas podem começar oferecendo espaço de estacionamento e/ou bicicletário, vestiários com chuveiros e armários para os funcionários que pedalam, identificar infraestruturas cicloviárias que servem o local de trabalho, entre outras ações. “Venho de bicicleta ao trabalho porque, além de ser um bom exercício, é mais rápido do que vir de ônibus. A experiência tem sido positiva. Os motoristas estão respeitando bastante as bicicletas, então não me sinto inseguro. Além disso, fico mais disposto para trabalhar nos dias que venho pedalando”, destacou o nosso Estagiário de Projetos de Transporte, Matheus Bello Jotz.

Datas como as de hoje, Dia De Bike ao Trabalho, podem ser organizadas com mais frequência para lembrar e motivar os funcionários. Alterar hábitos não é uma tarefa fácil e muitas vezes alternativas possíveis acabam esquecidas por conta da rotina. O importante é passar a conhecer os benefícios e as facilidades que o pedalar pode proporcionar a todos. Então, vamos experimentar?