Cem anos de Jane Jacobs: lições da jornalista que mudou a forma como pensamos as cidades

Não há nada que seja econômica ou socialmente inevitável tanto em relação ao declínio das cidades tradicionais, como em relação à recém-inventada decadência da nova urbanização inurbana. Ao contrário, nenhum outro aspecto da nossa economia e da nossa sociedade tem sido mais intencionalmente manipulado por todo um quarto de século com o fim de atingir exatamente o que conseguimos.

Décadas de um processo de urbanização veloz e marcado pela falta de planejamento nos trouxeram ao cenário urbano que vemos e no qual vivemos hoje. Em todo o mundo, cidades cresceram, desenvolveram-se e foram pensadas e repensadas, entre alargamento de vias e construções de novos viadutos, para acomodar os carros que a cada ano aumentavam em número e demandavam mais espaço. São mais de 50 anos desde que Jane Jacobs escreveu as palavras destacadas acima, descrevendo ambientes urbanos resultantes de um processo de planejamento posto em curso para chegar exatamente aonde chegamos.

Em cidades de um país de desenvolvimento tardio como o Brasil, em muitos aspectos ainda enfrentamos os mesmos problemas denunciados por Jacobs tantos anos trás. Esta semana marca o centenário de nascimento da renomada jornalista e estudiosa urbana americana, e cabe a nós não só preservar mas aprender com seu legado.

Jacobs é mundialmente conhecida pelos princípios de desenvolvimento urbano que defendeu no livro “Morte e vida de grandes cidades”, publicado em 1961. Na obra, a especialista analisa a fundo as práticas de planejamento e remodelagem urbana que nortearam o desenvolvimento das cidades ao longo dos anos 50 nos Estados Unidos. As funções dos espaços públicos, os aspectos que contribuem para a segurança e o bem-estar, os elementos que levam determinados locais a se tornarem áreas vivas e pulsantes da cidade enquanto outros acabam esquecidos e degradados e a importância vital da diversidade de usos são alguns dos pontos explorados pela autora no livro que, décadas depois de publicado, ainda é um guia para planejadores urbanos em todo o mundo.

 

 

As cidades são organismos vivos complexos e, para se manterem ativas e funcionais, requerem uma rede também complexa de relações entre os elementos que compõem o ambiente urbano: “Esse princípio onipresente é a necessidade que as cidades têm de uma diversidade de usos mais complexa e densa, que propicie entre eles uma sustentação mútua e constante, tanto econômica quanto social”, escreve Jacobs. Ao mesclar residencial e comercial, o uso misto do solo potencializa a atividade econômica, a densificação e a diversidade do ambiente urbano. Na visão da especialista, as áreas urbanas malsucedidas são as que falharam em alcançar essa sustentação mútua entre os usos: “A ciência do planejamento urbano e a arte do desenho urbano, na vida real e em cidades reais, devem tornar-se a ciência e a arte de catalisar e nutrir essas relações funcionais densas”.

Não é a à toa que, tantos anos depois da publicação de seu livro mais célebre, Jane Jacobs ainda é considerada autoridade quando o assunto é desenvolvimento urbano. O trabalho da autora transcendeu gerações e ainda hoje orienta estudos na área e nos inspira a pensar cidades melhores. O que podemos fazer hoje pela memória de Jacobs e para preservar e dar continuidade ao legado deixado pela jornalista americana? Conforme escreveu Janette Sadik-Khan, deveríamos honrá-la “redesenhando nossas cidades como ela faria hoje. Não é apenas uma questão de habitabilidade e qualidade de vida, mas uma estratégia de longo prazo para um futuro urbano mais denso, ambientalmente racional e economicamente vital”.

Garantir o desenvolvimento urbano sustentável e trabalhar pela construção de cidades mais humanas é crucial para a nossa sobrevivência. Mas, se quisermos seguir os ensinamentos de Jacobs, é preciso ter em mente que, antes de mudar, é preciso conhecer:

A maneira de decifrar o que ocorre no comportamento aparentemente misterioso e indomável das cidades é, em minha opinião, observar mais de perto, com o mínimo de expectativa possível, as cenas e os acontecimentos mais comuns, tentar entender o que significam e ver se surgem explicações entre eles. (…) A aparência das coisas e o modo como funcionam estão inseparavelmente unidos, e muito mais nas cidades do que em qualquer outro lugar.