A gamificação como ferramenta para melhorar cidades

(Imagem: EA/Reprodução)

A participação dos cidadãos na tomada de decisões é parte fundamental na construção e manutenção das cidades – e um dos maiores desafios para as prefeituras. Por isso, novas formas de engajar os cidadãos devem ser estudadas pelos governos. Entre diferentes possibilidades, a “gamificação” surge como uma maneira de motivar os cidadãos a participar ativamente para que as cidades atinjam seu maior potencial. Nova Orleans, nos Estados Unidos, anunciou estar usando esse recurso para motivar os cidadãos a opinar sobre o Orçamento Participativo da cidade.

O potencial da gamificação

Em linhas gerais, o termo gamificação (do inglês “gamification”) fala sobre o uso de técnicas de jogos para atividades da vida real. Sobre o assunto, reportagem da Revista Galileu entrevistou o designer de games Jesse Schell. Para ele, a palavra significa “design motivacional, algo que faz as coisas serem mais prazerosas”. Tornar tarefas mais divertidas, no entanto, não pode ser a finalidade em si, tendo em vista o potencial de uso dessa técnica pelo mercado e como ela pode ser usada em campanhas de marketing. Essa matéria da Zero Hora insere uma citação do ensaísta Nathan Heller criticando a tendência:

“A gamificação levanta a bandeira da inovação, mas seu efeito é o oposto. Longe de libertar a mente, essa abordagem nos habitua a mecanismos de esforço e recompensa, a caminhos já estabelecidos e a narrativas pré-fabricadas”.

Apesar disso, há estudos que evidenciam o potencial do uso da gamificação para promover boas práticas para a sociedade. A metodologia pode ser usada em muitos domínios, pois ela aproveita conceitos de divertimento, competição e mecânica de jogos em contextos mediados por pessoas.  A unidade de incentivo que o processo efetiva pode, sim, ser benéfico.

Em países com forte cultura “gamer”, um estudo (citado aqui pelo TheCityFix) aponta que, até os 21 anos, as pessoas gastam cerca de 10 mil horas apenas jogando. Alguns jogos são criados em cima de temáticas que envolvem o planejamento urbano. Jogos como SimCity e Tygron, por exemplo, permitem que os usuários experimentem diferentes organizações dentro de um escopo de cidade. Suas atitudes são imediatamente refletidas no aspecto social e ambiental de suas cidades virtuais. Em fevereiro, o OutraCidade divulgou a iniciativa de um professor da Universidade de Vila Velha que usa SimCity para ensinar princípios de planejamento urbano aos alunos. Vale a leitura.

O estudo “Using Gamification to Incentivize Sustainable Urban Mobility” (“Usando a gamificação para incentivar a mobilidade urbana sustentável”, em tradução livre), da Fundação Bruno Kessler, destaca que a gamificação pode ser aplicada por empresas que querem que seus funcionários alcancem objetivos específicos, assim como “para incentivar mudanças virtuosas e comportamentais na sociedade em geral; por exemplo, pode ajudar a motivar as pessoas a ter atividade física regular, ou incentivar economias no consumo de energia”.

O estudo conclui que sim, a gamificação é relevante para Cidades Inteligentes. “A gamificação pode alavancar o comportamento dos cidadãos em relação a muitas das principais preocupações das cidades, como a governança participativa”.

O jogo do orçamento participativo de Nova Orleans

No final de março, o NextCity noticiou que os cidadãos de Nova Orleans poderiam brincar de “prefeitos por um dia”. Uma comissão da prefeitura criou um jogo interativo chamado “The Big Easy Budget Game” – “O grande fácil jogo do orçamento”, em tradução livre.

O jogo, hospedado aqui, utiliza os dados abertos da cidade para permitir que os cidadãos criem sua própria versão de direcionamento do orçamento do município. Os jogadores recebem $ 602 milhões de dólares e devem ordenar o orçamento municipal. Há algumas diretrizes de jogabilidade como, por exemplo, manter em foco as responsabilidades do governo e os gastos do ano anterior.

Cada departamento no jogo tem um nível mínimo de financiamento. Os cidadãos não podem simplesmente escolher financiar apenas as escolas públicas. O jogo espera atrair 600 jogadores este ano e planeja compilar os dados de cada jogador para traçar metas do orçamento municipal. Dessa forma, o orçamento participativo traz novas vozes para a vida cívica. Por meio de uma plataforma que usa conceitos de jogos na tentativa de melhorar a cidade.

As cidades são feitas por pessoas. E a gamificação apresenta potencial suficiente para estimular o engajamento delas na participação popular. Com o avanço das tecnologias e o uso de dados abertos, fica mais fácil o incentivo por parte dos governos para o uso dessas ferramentas na construção e manutenção das nossas cidades.