São Paulo registra redução recorde no número de mortes no trânsito

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

O resultado de um levantamento feito pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo mostrou que ações na área de segurança viária implantadas na cidade já estão poupando centenas de vidas. O estudo apontou uma queda de 20,6% no número de mortes no trânsito no ano de 2015, a maior desde 1998, ano de início do Código de Trânsito Brasileiro. Esse dado representa 257 vidas salvas.

Os números positivos são resultado da aposta da cidade na qualificação da mobilidade, investindo em segurança viária e em infraestrutura e priorização para os modos sustentáveis. Em 2013, a cidade lançou o Programa de Proteção à Vida (PPV), que visa aumentar a segurança de todos os usuários da via, em especial dos mais vulneráveis – pedestres, ciclistas e motociclistas. Desde então, diversas mudanças passaram a fazer parte do dia a dia da população de São Paulo, como áreas de velocidade reduzida, travessias em “X” e zonas de proteção ao pedestre, entre outras.

Ações como as estabelecidas pelo PPV contribuem para que São Paulo se aproxime da meta estabelecida pela Década de Segurança Viária da ONU: reduzir em 50% os casos de mortes no trânsito até 2020. Cumprir essa meta em São Paulo significa reduzir as fatalidades para seis a cada 100 mil habitantes. Em dezembro de 2014, o índice era de 10,47 na capital paulista. Em dezembro de 2015, esse índice chegou a 8,26 por 100 mil habilitantes, uma queda recorde segundo a CET.

(Fonte: Prefeitura de São Paulo)

No que tange a redução do número de mortes em acidentes de trânsito, uma das ações mais significativas realizadas pela cidade foi a redução dos limites de velocidade em diversas vias. As marginais Tietê e Pinheiros, por exemplo, duas das principais avenidas de São Paulo, foram incluídas nesse processo. Nas pistas expressas de ambas as marginais, o limite de velocidade foi reduzido de 90 km/h para 70 km/h no caso de veículos leves e de 70 km/h para 60 km/h para veículos pesados. As pistas centrais da Marginal Tietê passaram de 70 km/h para 60 km/h o limite para todos os tipos de veículos. Quanto às pistas locais, nas duas avenidas o limite foi reduzido de 70 km/h para 50 km/h para todos os tipos de veículos. A mudança entrou em vigor em julho de 2015.

O estudo “Impactos da Redução dos Limites de Velocidade em Áreas Urbanas”, desenvolvido pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis traz dados que respaldam a decisão da prefeitura paulista. A publicação mostra como uma redução de 5% na velocidade média dos veículos pode resultar em 30% menos acidentes fatais. Velocidades mais baixas aumentam a possibilidade de condutores, pedestres e ciclistas verem uns aos outros e reagirem, evitando acidentes e reduzindo assim o número de mortos e feridos no trânsito.

Em São Paulo, a redução dos limites de velocidade veio acompanhada pela implantação de Áreas 40. Vias do centro da capital, onde a circulação de pedestres e ciclistas é intensa, registraram 71% menos óbitos por colisões e atropelamentos depois da adoção do novo limite. A medida busca, acima de tudo, proteger os usuários mais vulneráveis do sistema viário, como explicou o Secretário Municipal de Transportes de São Paulo, Jilmar Tatto: “Estamos com foco na mobilidade de pessoas e não de veículos. Para isso, precisamos atacar o problema com redução dos limites de velocidade, aumento da fiscalização, infraestrutura segura para ciclistas, melhoria de calçadas, além de faixas exclusivas para o transporte coletivo”.

Pequenas reduções de velocidade diminuem de forma significativa as mortes no trânsito.

 Números positivos em todos os modais

Na comparação entre janeiro e dezembro de 2014 com o mesmo período do ano passado, houve também a queda do número de mortes de ciclistas, motociclistas e pedestres. Em 2015, foram registradas 31 mortes usuários de bicicleta, ante 47 casos fatais em 2014, uma redução de 34%. Hoje, a malha cicloviária da cidade possui 385,4 quilômetros – número muito próximo da meta anunciada pelo prefeito Fernando Haddad, de chegar 400 quilômetros até o fim de sua gestão, em dezembro de 2016. Desde que Haddad assumiu a prefeitura, São Paulo inaugurou 288,8 quilômetros de ciclovias, quatro vezes mais do que havia sido construído ao longo de toda a história da cidade – antes, São Paulo possuía 64,7 quilômetros, além de 31,9 quilômetros de ciclorrotas.

Entre os pedestres, foram 136 mortes a menos no período de dezembro de 2014 até dezembro de 2015 – de 555 óbitos para 419 –, em uma redução de 24,5%. A queda nas ocorrências fatais envolvendo motoristas e passageiros foi de 16,9%: 172 mortes em 2015, ante 207 casos em 2014.

As mortes de motociclistas em acidentes registraram queda de 15,9%, de 440 casos fatais para 370. Segundo a CET, a redução se deu devido ao aumento de fiscalização nas ruas e ao aprimoramento da sinalização.

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

 Parceria pela segurança viária

Até 2020, acidentes de trânsito terão matado ou incapacitado mais pessoas do que guerras, tuberculose e o vírus HIV combinados. Todos os dias, pelo menos mil jovens com menos de 25 anos morrem vítimas do trânsito no mundo.

Em 2014, a Bloomberg Philanthropies selecionou dez cidades em todo o mundo para fazer parte da Iniciativa Global pela Segurança no Trânsito. De 2015 a 2019, as escolhidas vão contar com o apoio técnico de instituições de atuação internacional para o gerenciamento das ações de segurança viária. São Paulo integra a lista de cidades selecionadas e o WRI Brasil Cidades Sustentáveis é um dos parceiros da capital paulista, apoiando a planejamento e implementação de ações para qualificar a segurança viária e a mobilidade urbana. Uma das primeiras ações desse trabalho em conjunto foi o workshop de alinhamento estratégico, ocorrido na cidade em agosto de 2015. A atividade reuniu o grupo de trabalho (GT) que atua em Mobilidade & Segurança Viária para alinhar um plano de ação para nortear as ações na cidade.

Em dezembro, foi realizado o Workshop de Segurança e Microacessibilidade – Faixas e Corredores de Ônibus, que abriu espaço para que diferentes especialistas, com visões e experiências diversas, pudessem debater projetos da cidade, como estudos de caso em integração entre diferentes departamentos e em desenho seguro de sistemas prioritários para ônibus. As boas práticas em desenho de corredores de ônibus contidas no manual Segurança Viária em Sistemas Prioritários para Ônibus foram apresentadas, contribuindo para aumentar a segurança nos projetos da cidade.

(Foto: Sysop/Flickr-CC)

Dentro desse contexto de alterações no cenário da cidade, também é importante o trabalho direto com quem dissemina informações ao grande público: a imprensa. Mudanças que de alguma forma impactam a circulação de veículos podem mostrar-se inicialmente impopulares – em parte porque, muitas vezes, os benefícios de medidas de segurança não são sentidos ou percebidos de imediato pela população. Por essa razão, após a implantação das velocidades reduzidas nas marginais da capital paulista, a Secretaria de Comunicação Prefeitura de São Paulo contou com o apoio da equipe técnica do WRI Brasil na realização de um trabalho direcionado aos jornalistas dos principais meios de comunicação locais. Um workshop foi realizado com importantes veículos de comunicação a fim de aprimorar a compreensão dos jornalistas sobre os benefícios de medidas de redução de velocidades, contextualizar a pauta da segurança viária e esclarecer dúvidas sobre as ações implantadas pela prefeitura.

A sociedade civil organizada também debateu os benefícios das medidas de redução de velocidade implantadas em São Paulo. Em dezembro do ano passado, o WRI Brasil Cidades Sustentáveis promoveu um seminário reunindo especialistas do Reino Unido, Austrália e Brasil para discutir os desafios e resultados dessas reduções em diferentes cidades.

Os resultados das ações tomadas pela cidade começam a aparecer agora, com a queda significativa no número de mortes e acidentes de trânsito. Os números positivos de São Paulo comprovam, na prática, a eficácia da redução dos limites de velocidade e a priorização dos usuários mais vulneráveis da via, e mostram que o compromisso de criar um ambiente urbano mais seguro e mais humano pode depender de um caminho difícil, mas que vale a pena ser percorrido.