O valor das 165 horas que os cariocas perderam no trânsito em 2015

(Foto: Sergio Trentini/ WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

O carioca liga o carro, manobra para sair da garagem, abana para o vizinho que está passando. Dirige por algumas ruas do bairro antes de chegar a uma das avenidas principais para, então, praticamente estacionar em uma fila de aparência interminável. O exercício de paciência com engarrafamentos faz parte da rotina de quem mora na Cidade Maravilhosa. Por isso não foi grande surpresa quando, ontem (22), a empresa holandesa de tecnologia TomTom divulgou um estudo que apresenta o Rio de Janeiro na quarta posição de piores engarrafamentos do mundo. O estudo avaliou 295 cidades em 38 países.

Em relação ao mesmo estudo realizado em 2014, houve queda de 4% no tempo gasto no trânsito. Ainda assim, os cariocas desperdiçaram durante 2015 cerca de 47% de tempo extra no trânsito. Os piores congestionamentos acontecem, segundo a pesquisa, na Avenida Brasil, nas Linhas Amarela e Vermelha, na Ponte Rio-Niterói, na Avenida Francisco Bicalho, na Autoestrada Lagoa-Barra e na Avenida das Américas.

Em reportagem para O Globo, Marcelo Fernandes, diretor de operações e coordenador do estudo, abordou uma possível solução. Para ele, “o investimento em transporte público de massa, os grandes corredores têm influência e podem melhorar a mobilidade. No entanto, as pessoas só vão deixar o carro em casa quando tiverem uma alternativa viável, com conforto, segurança e, principalmente, que seja previsível”.

No último ano, um estudo dos economistas da Fundação Getulio Vargas, Samy Dana e Leonardo Lima, além do graduando em economia Victor Cândido, da Universidade Federal de Viçosa, deflagrou como no Rio de Janeiro e em São Paulo, uma parcela das pessoas precisa trabalhar pouco mais de 13 minutos para pagar uma passagem de ônibus ou trem para chegar ao trabalho. Considerando a renda do trabalhador, essas tarifas estão entre as mais caras do mundo.

Sobre o tema, é importante reconhecer a lógica implícita no raciocínio da jornalista Eliane Brum, colunista do El País, quando reflete que os protestos contra o aumento das passagens do transporte público em 2016, como os de 2013, não são sobre o dinheiro, mas sobre tempo. Sobre isso, Eliane fala que as linhas narrativas destacadas pela mídia acabam por deixar de lado o fato substancial de que o tempo é indissociável à potencialidade humana – e assim estabelece alguns dogmas laicos, conforme destaca:

Esses dogmas laicos – e os laicos podem ser piores do que os religiosos, porque escondem o que são – servem para encobrir o que está em jogo nos protestos contra o aumento da tarifa do transporte. E, principalmente, que esse protesto seja nas ruas e que seja sobre transporte – e não sobre outra dimensão da vida. Esses dogmas laicos servem para encobrir que se trata de tempo – e não de dinheiro. Trata-se de patrimônio imaterial, intransferível, de cada pessoa – e não de patrimônio material, comercializável, rentável, de corporações ou estados. Esses dogmas laicos servem para encobrir que os protestos são políticos, sim, mas políticos no sentido profundo da política, que diz respeito a como as pessoas querem estar com as outras no espaço público. E de como querem viver o que de mais importante têm ou tudo o que de fato têm numa vida: tempo.

É necessário também encarar o fato de que perder todo esse tempo em congestionamentos resulta na imediata emissão de incontáveis gases poluentes. A preocupação é, portanto, tanto com o Rio quanto com a Cidade do México, que aparece em primeiro na lista, seguida por Banguecoque e Istambul. Segue, então, o clichê convalescido e primordial de que a preocupação é com o planeta. Afinal, o tempo é escasso, mas o carro continua ligado. O dinheiro é curto e a passagem é cara, mas precisamos chegar ao trabalho. O raciocínio ligeiro não pretende ser superficial, mas enfatizar a necessidade de valorar o caráter humano em tudo que despendemos tempo para fazer – ainda que seja para ficar parado dentro de um carro.