Criando uma narrativa comum para o financiamento do futuro urbano sustentável

O Transmilenio, sistema BRT de Bogotá, mostra como financiadores e planejadores urbanos foram bem-sucedidos no trabalho conjunto para financiar e implementar um projeto de baixo carbono em uma escala sem precedentes. (Foto: Claudio Olivares Medina/Flickr)

Por Ani Dasgupta, Mark Watts e Brandee McHale. Post originalmente publicado em inglês, no TheCityFix.

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Ideias que levam a resultados positivos nas cidades merecem ser replicadas. Parece bastante simples. Porém, quando se trata de ampliar e investir em soluções urbanas sustentáveis, fica um pouco mais complicado.

Mais de 400 cidades já assumiram compromissos contra as mudanças no clima por meio do Compacto de Prefeitos. E o mundo fez progressos significativos na Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas (COP 21), em 2015, em Paris. Agora que as negociações terminaram e os compromissos foram estabelecidos, enfrentamos o desafio de financiar e implementar projetos urbanos sustentáveis que irão melhorar a qualidade de vida das pessoas e transformar essa visão coletiva em realidade.

O WRI Ross Center for Sustainable Cities, o Grupo de Liderança Climática de Cidades (C40) e a Citi Foudantion estão trabalhando em parceria para ajudar cidades em todo o mundo a acelerar a implementação de soluções urbanas de baixo carbono. Com o conhecimento do WRI, a rede exclusiva de lideranças globais de cidades do C40 e a agenda pelo progresso econômico urbano da Citi Foundation, a Iniciativa de Financiamento de Cidades Sustentáveis está desenvolvendo novas abordagens para superar o que é comumente, mas de forma equivocada, visto como uma simples escassez de financiamento.

Uma pesquisa econômica recente estima um déficit de investimento anual de 4,1 trilhões a 4,3 trilhões de dólares entre a infraestrutura urbana atual e o que as cidades precisam para acompanhar o crescimento urbano projetado. De acordo com a narrativa tradicional, há insuficiência de oferta e apetite financeiro para projetos urbanos sustentáveis. A situação, contudo, é muito mais complexa. A demanda por soluções sustentáveis é crescente, e o apetite dos investidores por novos mercados e ativos não-tradicionais também está aumentando. Então, por que o financiamento para projetos urbanos sustentáveis se encontra tantas vezes preso em um impasse?

O que parece estar realmente acontecendo é que esses dois lados estão falando de coisas diferentes. Por um lado, cidades afirmam que existe uma falta de financiamentos disponíveis para seus projetos. Por outro, investidores e financiadores dizem que não há um portfólio robusto o suficiente de projetos viáveis e rentáveis. Sem uma linguagem comum e um fórum para que cidades, prestadores de serviços e financiadores possam entrar em contato uns com os outros em diálogos produtivos, potenciais projetos acabam interrompidos durante a fase de concepção, reforçando a crença de que falta financiamento ou faltam projetos urbanos viáveis.

Felizmente, sabemos que já existe um número considerável de projetos bem-sucedidos ao redor do mundo que estão dando resultados, captando e financiando soluções sustentáveis de formas inovadoras. Desde os riquixás sob demanda em Bangalore até a eficiência energética na iluminação pública no Rio de Janeiro, esse tipo de inovação é o resultado do diálogo entre cidades, prestadores de serviço e financiadores, debatendo sobre alternativas técnicas e de financiamento disponíveis. Muitas vezes, os principais atores do setor simplesmente não sabem como parcerias público-privadas podem ajudar ou como novos produtos financeiros podem fornecer fontes alternativas de investimento. Um processo colaborativo desde o início tem maiores chances de encontrar soluções para desafios locais complexos.

O sistema de BRT (Bus Rapid Transit) de Bogotá, o TransMilenio, por exemplo, mostra como investidores e planejadores urbanos foram capazes de financiar e implementar um projeto de baixo carbono em uma escala inédita. Desde 2000, o TransMilenio passou de 14 quilômetros para 112 quilômetros de corredores dedicados ao ônibus que transportam dois milhões de passageiros por dia. Ao aliar, de forma bem-sucedida e desde o início, todos os atores envolvidos, o TransMilenio adotou um modelo de negócios que recebeu investimentos de fontes locais e estabeleceu uma parceria público-privada para gerenciar as operações. Com planejamento integrado e colaborativo e a participação de todos os setores no financiamento e na implementação do projeto de BRT, Bogotá tornou-se mais saudável e mais sustentável em longo prazo. A capital colombiana é a prova de que potenciais soluções inovadoras existem. No entanto, as cidades precisam de mecanismos para explorar modelos de negócios flexíveis que levem em conta suas necessidades.

Criar um ambiente global que seja favorável aos investimentos em projetos urbanos sustentáveis requer estreita colaboração e diálogos abertos entre cidades, fornecedores de tecnologia e provedores de capital. A Iniciativa de Financiamento de Cidades Sustentáveis – que consiste em uma comunidade de aprendizagem, assistência técnica e uma plataforma de engajamento online – é projetada para ajudar tomadores de decisão, financiadores e especialistas a entenderem suas opções e trabalharem em conjunto de modo estratégico. Facilitando o compartilhamento de conhecimento e boas práticas e criando espaço para inovações, a parceria entre o WRI, o C40 e a Citi Foundation está ajudando a promover, hoje, um diálogo para construir as cidades prósperas e sustentáveis de amanhã.