O conto de duas cidades: desigualdades urbanas e os contrastes habitacionais

Morumbi e Paraisópolis, em São Paulo: lado a lado, os dois bairros são um retrato das diferenças sociais (Foto: Fernando Freitas/Flickr)

Em 1859, Charles Dickens escreveu o que viria ser seu trabalho mais conhecido de ficção histórica: A Tale of Two Cities. O “conto das duas cidades” do autor inglês, ambientado em Paris e Londres, divide-se entre dois países e dois personagens, e o tom de contraste surge já na abertura do romance:

Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, a era da sabedoria, a era da estupidez, era época de acreditar, era a época da incredulidade, o tempo da Luz, o tempo das Trevas.

Com o tempo, a expressão do título de Dickens passou a ser utilizada para falar de extremos, opostos, contrastes. São esses contrastes que inspiraram o trabalho do designer nigero-americano Ekene Ijeoma. Radicado nos Estados Unidos, ele utiliza a modelagem 3D para construir um mapa que cria um conto de duas cidades para Nova York ao revelar as geografias do acesso à habitação com base na renda da população.

 

 

O projeto de Ijeoma busca a poesia que pode ser tirada dos dados para mostrar as lacunas e despertar a compreensão das relações entre habitação e acessibilidade financeira. O trabalho, intitulado Wage Islands, consiste em um mapa 3D da cidade onde as elevações são baseadas nos custos médios mensais com habitação, que variam entre US$ 271 e US$ 4001. O mapa é gradativamente submerso em uma caixa de água preta mostrando quais áreas da cidade têm habitação a preços acessíveis com base nos salários calculados por hora – de 8,75 a 77 dólares. O botão na lateral permite controlar os valores; à medida que o salário aumenta, o mapa emerge, mostrando mais áreas da cidade.

Uma nova agenda urbana para reduzir as desigualdades

A sobrevivência nas cidades depende fundamentalmente do acesso à moradia, mas esse direito se vê restrito quando as desigualdades urbanas superam a capacidade das administrações municipais de garantir condições de vida dignas às populações mais vulneráveis.

O conceito de habitação vai além de ter um lugar para morar. Implica, essencialmente, acesso aos serviços que caracterizam o que se costuma chamar de lar: água potável, saneamento, eletricidade, coleta de resíduos, transporte. Infelizmente, essas são condições que não chegam a todos. Nos centros urbanos, a desigualdade de renda e a falta de habitação acessível nas cidades, entre outros desdobramentos, levam ao surgimento de ocupações irregulares – muitas vezes em locais vulneráveis aos efeitos de fenômenos naturais extremos, como inundações e deslizamentos.

No Brasil, o direito à moradia faz parte da Constituição desde 2000, quando a Emenda Constitucional 26/2000 incluiu a moradia entre os direitos sociais. Em escala global, desde 1948 a Declaração Universal dos Direitos Humanos inclui o acesso à moradia digna como direito humano fundamental. Mesmo assim, garantir esse direito ainda representa um desafio para as cidades – no contexto brasileiro, por exemplo, o déficit habitacional é de cinco milhões de moradias.

Na medida em que assegura o acesso à esfera pública e amplia as oportunidades, a equidade tornou-se uma questão de justiça social. O processo de urbanização, ao mesmo tempo que pode contribuir para a manutenção ou o reforço das desigualdades, também pode ser uma oportunidade para reduzi-las. A proposta de um novo modelo de desenvolvimento urbano, capaz de integrar as diversas facetas da sustentabilidade para promover equidade, bem-estar e prosperidade, é um dos motes da Habitat III, que acontece em outubro deste ano em Quito. A conferência levanta a discussão de uma nova agenda urbana e busca mobilizar a comunidade global no objetivo de reduzir a pobreza e garantir o desenvolvimento urbano sustentável.

A abertura do livro de Dickens, quase dois séculos distante de nós, ainda pode refletir nossos dias. Vivemos tempos de acreditar e, ao mesmo tempo, de parar incrédulos diante do mundo. Temos nas mãos um desafio e uma oportunidade. Cabe a nós agir – para que, no futuro, possamos contar a história de cidades diferentes: não divididas pelas diferenças sociais, mas marcadas pelo desenvolvimento sustentável.