O potencial das favelas para a mobilidade urbana

Já pensou que o desenvolvimento econômico das favelas e aglomerados pode melhorar os deslocamentos nas cidades?

As favelas brasileiras, por consequência histórica e questões sociais, abrigam grande parte da população. Por natureza, são ambientes com alto índice populacional. Em Belo Horizonte, por exemplo, aproximadamente 390 mil pessoas vivem nas vilas e favelas, segundo dados do IBGE 2010. Nesta cidade, um dos maiores aglomerados de favelas é o Morro do Papagaio que reúne quatro vilas – Santa Lúcia, Estrela, Carrapato, São bento e Santa Rita de Cássia. No Morro uma organização tem se destacado: o FA.VELA. Motivados em acelerar a transformação de vida de pessoas que vivem lá, a equipe de 10 empreendedores do Fundo de Aceleração para o Desenvolvimento atualmente tem se empenhado no Programa de Intervenção Participativa em Aglomerados – PIPA.

Segundo João Souza, um dos co-fundadores da organização, o projeto-piloto trabalha com os empreendedores da favela e auxilia-os em seus projetos de negócio e de vida, levando a prática de teorias, metodologias e conhecimentos para gerar impacto social, dinamizando a economia com fomento ao empreendedorismo e, também, trabalhando o fortalecimento da resiliência destas comunidades frente aos desafios sociais, econômicos e ambientais que as cercam.

(Foto: FA.VELA/Divulgação)

Contudo, o impacto provocado pelo estímulo ao empreendedorismo extrapola a esfera individual do empreendedor capacitado pela organização. O fortalecimento da economia local gera mais oportunidades para novos negócios, empregos, projeção da vida dos empreendedores e fornecem produtos e serviços que, por vezes, são buscados fora da comunidade. Esta dinâmica, então, pode auxiliar na redução de grandes deslocamentos, já que a maioria de seus trajetos pode ser realizada dentro das favelas.

Mas, para isso, infraestrutura adequada também é necessária. Para incentivar a caminhada e o ciclismo precisa-se também de esforços para estruturar apropriadamente as ruas, vielas e becos. Ademais, melhorar a acessibilidade nos aglomerados e fomentar o empreendedorismo local para se ter bairros com múltiplas funções como moradia, comércio, lazer, saúde, escolas é uma combinação que pode melhorar a mobilidade urbana de uma cidade inteira. Assim, evita-se que milhares de pessoas se desloquem diariamente até as regiões centrais das cidades, onde estão concentradas as ofertas de trabalho.

(Foto: Jorge Quintão/Imaginário Coletivo)

Reduzir a necessidade por viagens e encurtar trajetos é fundamental para alcançar uma mobilidade sustentável nos grandes centros urbanos. Aproveitar o adensamento dos aglomerados e incentivar o desenvolvimento de negócios que oferecem uma variedade de serviços em um limitado espaço geográfico pode tornar o uso dos recursos e o sistema de descolamentos mais eficientes neste local.  Dentro deste contexto, destacam-se, então, as favelas e morros que, usando as palavras de João, “precisam deixar de ser considerados como um problema onde a grande solução é o “urbanismo” combater a “favelização””.

É imprescindível considerá-los dentro do aspecto urbano de toda uma cidade e perceber que há um potencial econômico que pode ser desenvolvido na região, um território que está subaproveitado. Se olhados por outra perspectiva, os aglomerados concentram possíveis saídas para os problemas de um município. Afinal, em concordância com João, “as favelas são centros e pólos de cultura, arte, lazer e economia e precisam ser reconhecidas como parte das cidades, e não um câncer a ser extirpado!”.