A lacuna entre os relatórios científicos e a compreensão popular sobre as mudanças climáticas

(Foto: Christian Frausto Bernal/Flickr)

O esforço para aumentar a compreensão geral sobre as mudanças climáticas é crescente e contínuo. Apesar do empenho, a tarefa de preencher o espaço aberto entre os relatórios científicos e a compreensão popular é complexa. Essa dificuldade, no entanto, não acontece por falta de emissores especializados. Incontáveis cientistas e climatologistas tratam do tema com habilidade de quem o entende, mas a recepção da mensagem permanece, muitas vezes, ineficiente. No último ano, isso foi comprovado por uma pesquisa encomendada pelo Instituto Arapyaú, em parceria com o Observatório do Clima e desenvolvida por antropólogos e pelo Instituto Frameworks. Na última semana, outro passo no sentido de melhorar a comunicação sobre o clima foi dado, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) realizou sua primeira reunião sobre comunicação disposto a mudar os procedimentos sigilosos em torno de seus relatórios.

A reunião aconteceu em Oslo, capital da Noruega, e recebeu cerca de 50 especialistas. Entre eles, representantes governamentais, sociedade civil, pesquisadores e jornalistas, além de membros da equipe técnica do IPCC. “Os relatórios do IPCC são considerados fontes definitivas de informação cientifica sobre as alterações climáticas. Nosso desafio é garantir que os não-especialistas possam entende-los e que os responsáveis políticos possam encontrar e usar o que lhes for relevante”, disse o chefe do IPCC, Hoesung Lee, sobre o objetivo principal do encontro.

Um dos jornalistas presentes foi Claudio Angelo, do Observatório do Clima, que viajou a Oslo a convite do IPCC. O relato de Angelo sobre a reunião é contundente e certeiro. A percepção sobre o esforço do painel em elaborar nova estratégia de comunicação esbarra, conforme destaca Angelo, em certo conservadorismo da própria instituição. Para ele, o encontro em Oslo pode servir como base para analisar isso, pois essa “foi a primeira reunião em toda a história do IPCC a ser transmitida ao vivo pela internet. Mas isso que só aconteceu depois da cobrança de algumas personalidades da área, como o jornalista americano Andrew Revkin”.

“O comitê internacional de cientistas, agraciado com o Prêmio Nobel da Paz em 2007, reconhece que a forma como se comunica com seus diversos públicos precisa mudar: os sumários de seus relatórios de avaliação são indecifráveis para leigos e para os próprios formuladores de políticas públicas a quem supostamente se dedicam; as decisões são tomadas em reuniões fechadas, o que alimenta rumores de que o painel é ora uma conspiração de ambientalistas para distorcer a ciência, ora uma vítima de ações de governos para aguar conclusões impactantes sobre a gravidade das mudanças do clima; a maneira como a incerteza e o risco são expressos pelo painel é bizantina”, explica Cláudio Angelo, no Observatório do Clima.

O texto do jornalista merece ser conhecido na íntegra. Adianto aqui a reflexão final, inquietante e necessária: “O IPCC foi criado em 1988, mas só ganhou uma estratégia de comunicação em 2012. Tem um longo aprendizado pela frente e precisa começar de algum lugar. Pessoas com quem conversei em Oslo disseram duvidar que a maior parte das recomendações seja acatada. Mas é auspicioso, num momento em que o mundo se prepara para implementar o Acordo de Paris, que o templo do conhecimento climático esteja disposto a embarcar na tarefa da comunicação. Ela é mais necessária do que nunca agora.”.

A mesma urgência foi o que motivou a realização da pesquisa do Instituto Frameworks, encomendada pelo Instituto Arapyaú,  citada anteriormente. O resultado da pesquisa pode ser consultado no manual “Como falar sobre clima”, disponível aqui. As recomendações da publicação trazem as concordâncias entre o entendimento do público com as mensagens dos especialistas (conceitos essenciais que a população já entende) e distanciamentos (conceitos não compreendidos que precisam ser explicados).

O Blog do Planeta elaborou uma síntese dos tópicos abordados pela pesquisa e das orientações que podem ser usadas para construir discursos mais eficazes e, dessa forma, comunicar melhor a complexidade do clima. A matéria destaca como as lacunas entre o conhecimento popular e o conhecimento científico devem ser levadas em conta no engajamento do público: “se a intenção for engajar rapidamente o público, é preciso tomar cuidado com esses pontos de discordância. Se a intenção for aumentar a compreensão pública, aí esses temas deverão ser esclarecidos gradualmente.”

O esforço coletivo é necessário para enfrentar a realidade manifesta do aquecimento global, por isso a sensação de pertencimento de todos os indivíduos, empresas e governos precisa acontecer – e de maneira eficaz. A comunicação tem papel primordial e precisa ser adicionada à equação cientifica para estabelecer, finalmente, o elo entre os relatórios técnicos e a contextualização popular.