Rod King: velocidades mais baixas mudam – para melhor – a maneira como usamos as ruas

Rod King, especialista em segurança viária do Reino Unido, conversou com a equipe do TheCityFix Brasil sobre a importância da adoção de limites de velocidade mais baixos (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Mais de 15 milhões de pessoas vivem em áreas que já adotaram ou estão adotando limites de velocidade mais baixos. Números como esses são possíveis graças ao trabalho da 20’s Plenty for Us, organização do Reino Unido que atua na promoção dos baixos limites de velocidade para ruas residenciais e com intensa movimentação de pedestres e ciclistas. A organização já conta com mais de 270 campanhas locais no país e muitas das principais cidades do Reino Unido já instituíram as 20 milhas por hora como limite máximo de velocidade em suas ruas.

O nome por trás desse trabalho é Rod King, o fundador e diretor da 20’s Plenty for Us. O especialista esteve no Brasil para o Seminário Impactos da Implantação de Velocidades Seguras em Cidades, e nossa equipe conversou com ele sobre o trabalho nas cidades britânicas e os benefícios da implementação de limites de velocidade seguros.

 

Por que “30” é o campeão da segurança viária?

De maneira simples, um limite de velocidade de 30 km/h redefine o ponto de referência para como usamos e compartilhamos os “espaços públicos entre edifícios”, aos quais chamamos de ruas. Em vez de irmos mais rápido e diminuirmos apenas onde “solicitado”, nós configuramos um novo padrão para os espaços residenciais, onde as pessoas vivem, compram, aprendem, onde as pessoas vão fazer compras dirigindo a 30 km/h e apenas aceleram onde as ruas e o uso delas é compatível com os interesses maiores da comunidade para um ambiente habitável.

Quando você começa com a pergunta “qual é o limite de velocidade correto para a rua onde moro? ”, então, inevitavelmente, você se torna parte da solução para melhorar a segurança viária, pois reconhecemos que todos devemos assumir uma parte na criação das condições para as ruas das nossas comunidades.

E no que diz respeito à “segurança viária” a consideração mais importante é que em uma distância de 12 metros, um carro a 30k m/h consegue parar, enquanto um carro a 50 km/h apenas diminuiria sua velocidade para 38 km/h. Em adição, quando você dirige mais devagar, você engaja pedestres e ciclistas muito mais e sente maior interação com a comunidade – em vez de apenas dirigir pela comunidade.

 

Você ajuda as pessoas a mudarem suas próprias cidades empoderando-as. Como esse processo funciona?

A nossa abordagem é no sentido de trabalhar com campanhas comunitárias para mostrar como velocidades mais baixas podem ser um benefício. Também atuamos capacitando essas campanhas comunitárias com as razões e os benefícios de velocidades mais baixas. Isso lhes permite demonstrar aos políticos o amplo apoio público para velocidades mais baixas e poderes para proceder a alterações no limite de velocidade de acordo com esse apoio.

Nós temos um “roteiro” de nove pontos para guiar as campanhas locais (veja abaixo). A chave para isso é que as velocidades mais baixas são “lideradas pela comunidade – endorsadas pelos estabelecimentos”. Temos que reconhecer que, na verdade, queremos que as comunidades mudem seu comportamento, e, se este é o nosso objetivo, então qual a melhor maneira de conseguir isso senão começar a mudança pela comunidade. Mas, ao mesmo tempo, isso não é simplesmente uma decisão individual para que as pessoas dirijam com mais consideração, também há o aval de uma mudança real no limite de velocidade apoiada pela lei.

 

 

Quais cidades são exemplos hoje e por quê?

Se você acessar nossa página de campanhas locais em www.20splenty.org/local_campaigns,você vai ver todas as autoridades locais que adotaram 20 milhas por hora com um marcador 20. Os outros marcadores são azuis, que denotam cidades onde temos uma campanha, e amarelo para aldeias ou comunidades menores.

Cidades de 20 milhas por hora com incluem, agora, 75% dos bairros internos de Londres. Estes são os distritos dentro de Londres (32 deles) que controlam os limites da maioria das ruas. Também inclui a maioria das cidades britânicas icônicas e a maioria das 40 maiores autoridades. Entre elas, Birmingham, Manchester, Bath, Bristol, Oxford, Cambridge, Liverpool, Edimburgo, Newcastle , Coventry, Brighton, York e municípios inteiros, como Lancashire.

 

Cidades britânicas e brasileiras são diferentes por motivos históricos e culturais. Mas as melhores práticas estão mostrando que nós temos uma receita básica para salvar vidas no trânsito. Você concorda?

A chave para entender cidades é compreender as necessidades de suas comunidades. E há, sem dúvida, diferenças culturais, econômicas e históricas entre lugares como Londres e São Paulo. É um fato que todos compartilham valores comuns sobre o que queremos para nossas famílias e comunidades. Queremos que os nossos filhos sejam capazes de usar nossas estradas de forma independente, queremos que os idosos sejam capazes de manter a sua mobilidade, queremos um ambiente com menos ruído e poluição. Esses são pontos comuns e, discutindo essas necessidades e quão rápido o tráfego põe em perigo esses objetivos, todos nós podemos chegar à conclusão de que um ambiente com 30 km/h como limite de velocidade é um lugar melhor para estar. E é por isso que esses limites estão sendo tão amplamente adotados em toda a Europa e América do Norte, onde 30 km/h ou 20mph  está se tornando uma norma para ruas residenciais e aquelas onde as pessoas andam e pedalam.

A melhor prática, acreditamos, é ir através do “roteiro” e também trabalhar muito no engajamento. E eu realmente acredito que São Paulo tem uma grande oportunidade de se tornar uma cidade ainda melhor. O mais importante será dissociar as questões gerais de redução da velocidade nas auto-estradas da idéia de definir os limites certos para onde as pessoas vivem, onde as pessoas e suas famílias são diretamente beneficiadas pela redução. Aconselhamos a começar por algumas campanhas “Amor 30” nas comunidades para mostrar o apoio a essas velocidades mais baixas em ruas residenciais. Em nosso site, mostramos os amplos benefícios do limite de 30 km/h: www.20splenty.org.

 

Você tem a estimativa de quantas vidas foram salvas desde o início do 20’s Plenty?

Infelizmente, ninguém registra os quase-acidentes. Mas sabemos que a redução da velocidade contribui para diminuir as casualidades e a gravidade dos acidentes. Muitas vezes, recebemos relatórios dizendo que “menino quebra braço ao ser atingido por carro em um limite de 20 mph”. Essas notícias são bastante gratificantes porque soam muito melhor do que quando lemos “menino morre em um limite de 30 mph”.