A criatividade e a sutileza do caos paulistano

Antes de qualquer coisa, o Caos

Os mitos da criação tentam elucidar o que acontecia antes do universo estável que conhecemos. Como eram as coisas antes de planetas e estrelas, antes de prédios e carros. O sentido da mitologia, no entanto, pode ser atribuído ao sentimento incondicional da busca por explicação de nossa natureza psicológica e moral. Nos mundos imaginários da mitologia podemos encontrar alegorias para explicar ou confortar nossos anseios humanos.

O Caos na mitologia grega foi o primeiro dos deuses. Ele imperava quando a matéria física do universo era indiferenciada e desordenada. A palavra vem do grego antigo e faz alusão ao estado do que é vazio. Nas tradições gregas e mesopotâmicas todos os níveis do universo eram derivados do Caos. A alegoria mitológica elucida que a existência do caos é, portanto, inata à nossa própria existência, pois nos antecede. As rotinas, as fórmulas e os moldes são criações humanas para enfrentar a imprevisibilidade inevitável de cada curva da nossa existência.

(Foto: Martin Silva)

A Teoria do Caos, formulada cientificamente em meados dos anos 60, diz que uma mudança muito pequena nas condições iniciais de uma situação leva a efeitos imprevisíveis. A teoria do caos fala que mesmo sistemas determinísticos demonstram alta instabilidade de resultados. Aquele lance do bater de asas da borboleta que provoca um tufão do outro lado do mundo, sabe?

Natureza, sociedade e subjetividade

Os três fatores destacados no intertítulo acima são aqueles que transcendem qualquer tentativa de previsão. Aqueles onde o caos está presente na raiz. Um artigo, escrito por John Briggs, professor da Western Connecticut State University; e pelo físico David Peat assevera que “os sistemas caóticos se encontram além de todas as nossas tentativas de previsão, manipulação e controle. O caos revela que, em vez de resistir às incertezas da vida, devemos aproveitá-las”. A partir desse raciocínio, o texto destaca a importância de dois fatores: a criatividade e a sutileza.

Os autores destrincham a metáfora implícita na teoria do caos, e como ela revela muito mais do que nossa vontade de teorizar, controlar e definir a realidade. Revela a matéria-prima da vida, talvez infinita em certo patamar artístico. Infinita nos instantes onde reina a sutileza e a criatividade. “A teoria do caos mostra como coisas aparentemente minúsculas e insignificantes podem acabar desempenhando papel importante no modo como as coisas se desenrolam. Prestando atenção às sutilezas, nós nos abrimos para dimensões criativas que tornam a vida mais profunda e harmoniosa”.

Beleza no caos

Prédio, asfalto, motor, buzina, ônibus, sirene, rotina. E, de repente, pronto. Um clique e o barulho do obturador que abre e fecha. Um instante capturado. Do lado de cá dos trilhos, alguém empunha celular ou câmera fotográfica e se serve de dois vagões do trem para emoldurar o abraço carinhoso de um casal sob o letreiro que enuncia Liberdade – não o conceito filosófico, mas a estação de trem paulista.

(Foto: Thiago Cascais)

A fotografia acima é do Tiago Caiscais, e é apenas uma entre tantas que estão dispostas no projeto que intenciona ser a maior galeria colaborativa de fotografias sobre o tema “a beleza encontrada no caos”. O Tumblr Beleza no Caos permite a qualquer pessoa subir suas fotos. As melhores imagens serão apresentadas no Armazém da Cidade, em São Paulo, em uma exposição realizada pela marca de artigos de fotografia Phooto e pelo site Catraca Livre, também idealizadores da plataforma.

A fotografia urbana – assim como a arte (em termos gerais e antropogênicos) – requere autoconsciência e disciplina, envolve atenção ao redor. Faz-se necessário algum senso estético padronizado para retratar os momentos inconstantes dentro desse escopo ambíguo de padrões caóticos. São Paulo é a cidade brasileira com maior número de habitantes. São mais de 10 milhões de pessoas. Portanto, mais de 10 milhões de rotinas, miríades de caminhos que se atravessam, se atravancam e se intersecionam. Se isso não configura o caos aos olhos de uma criança, adulto ou idoso, eu não sei o que configuraria.

Quando o rapper Criolo canta “Não existe amor em SP”, ele imediatamente subverte a lógica da frase que dá título à música. Essa percepção do artista é o retrato criativo do caos que ele canta como, por exemplo, os “bares cheios de almas tão vazias”. Ele dá sentido à desordem. Ou, em suas próprias palavras, em entrevista para Marcus Preto na Revista Cult:

“Olha, eu acredito que em cada lugar tem alguém com coração. Para cada mil sem coração, existe um com coração. E esse um tem o poder de dar a redenção para os outros mil. Não estou falando desse coração romântico. Falo de alguém que se permite viver, sofrer, enxergar o sofrimento do viver e a beleza que é respirar. Então, acredito que chegou o momento em que essas pessoas se encontraram. Sou apenas mais uma dessas pessoas, mesmo que ainda capenga, mesmo que ainda cheio de situações a serem vistas e revistas. Assim como é cada poeta. É da essência das pessoas querer contribuir, querer fazer parte de algo sem exigir qualquer luz de protagonismo”.

(Foto: Bruno Bragante)

Esse poder artístico está implícito nas fotografias – mais em umas do que em outras – dos paulistas que retratam o cotidiano. Fotos de profissionais ou populares que tornam imóvel e imagético um momento que deflagra qualquer coisa de desordem dentro de confusos moldes urbanos. Qualquer coisa de imprevisível. Mas, antes de tudo, qualquer coisa de caos. Parabéns, São Paulo.

(Foto: Cíntia Tengan)

Dia de domingo na Avenida Paulista (Foto: Eduardo Rodrigues)

(Foto: Isabelle Victória)

As fotos do post foram selecionadas por Mariana Gil, fotógrafa do WRI Brasil Cidades Sustentáveis.