Carsharing: uma opção para a mobilidade sustentável em mercados emergentes?

Este post foi escrito por Clayton Lane e publicado originalmente no TheCityFix.

Nova pesquisa do WRI Ross Center for Sustainable Cities mostra que empresas operadoras de sistemas carsharing, como a Carrot, estão crescendo e terão um papel significativo na mobilidade urbana sustentável. (Foto: Carrot/Reprodução)

De seis operadoras em 2012 para 41 até a metade de 2015, os sistemas de compartilhamento de carros – ou carsharing – estão se expandindo rapidamente em mercados emergentes em todo o mundo. Qual é o futuro do carsharing? Que impacto essa inovação terá nas cidades? Quais são os desafios-chave para assegurar que esses programas se tornem uma alternativa para a mobilidade sustentável? O TheCityFix organizou uma série de quatro posts a partir de um novo estudo do WRI Ross Center for Sustainable Cities, explorando o que os sistemas carsharing significam para as cidades do futuro.

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Os sistemas de compartilhamento de veículos crescem rapidamente em mercados emergentes como China, Índia, Brasil e México e surgem como uma possibilidade de substituição dos veículos privados individuais para muitas famílias. No entanto, empreendedores e legisladores precisam vencer algumas barreiras para que os sistemas carsharing possam crescer com sucesso. Um novo estudo lançado na segunda-feira (14) pelo WRI Ross Center for Sustainable Cities revela essas descobertas.

Em 2011, quando a pesquisa teve início, eram poucas as experiências reais nos mercados emergentes. Embora esses países reunissem 72% da população urbana mundial, representavam menos de 1% do total de membros de programas de compartilhamento de veículos – o que deixou algumas questões: quais são os obstáculos? Os sistemas carsharing funcionariam? Quem utilizaria o serviço? E como isso impactaria a mobilidade e o meio ambiente?

Para responder essas perguntas, ao longo de quatro anos entrevistamos dezenas de especialistas, mapeamos novas start-ups e traçamos 14 grupos de potenciais usuários em mercados emergentes. Os resultados foram surpreendentes mesmo para nós.

Um condutor para a mobilidade sustentável?

Talvez o resultado mais interessante seja sobre os impactos que o carsharing teria nos hábitos de deslocamento das pessoas. Na América do Norte, os programas já existentes mostraram-se capazes de reduzir a posse de carros, na medida em que cada veículo compartilhado substitui entre 9 e 13 privados e os usuários cadastrados nos programas dirigem até 44% menos quilômetros, optando com mais frequência por caminhar, pedalar e usar o transporte coletivo.

Nos mercados emergentes, contudo, o cenário é diferente, especialmente considerando que os índices de posse de veículos continuam modestos em comparação aos de países mais desenvolvidos. Na China, em 2010, apenas 58 em cada mil pessoas possuíam um carro; na Índia, apenas 18. Em contraste, nos Estados Unidos essa taxa já era de 800 a cada mil em 2000, quando os primeiros sistemas carsharing começaram a aparecer.

Portanto, temos duas hipóteses concorrentes:

  • Cenário 1: os sistemas carsharing facilitariam o acesso ao carro, despertariam o interesse por dirigir entre as pessoas que ainda não possuem carro próprio e aumentariam a motorização. A menor taxa de posse de veículos significaria apenas que mais pessoas dirigiriam mais.
  • Cenário 2: os sistemas carsharing ofereceriam uma alternativa popular, conveniente e acessível à posse de um carro e seriam um complemento aos outros modais sustentáveis – caminhada, bicicleta e transporte coletivo. Se implementados cedo, os sistemas ajudariam a desenvolver cidades com baixas taxas de posse de veículos.

Duas lições marcantes emergiram de grupos focais em Hangzhou e Bangalore. Primeira: praticamente todos os participantes da pesquisa gostariam de ter um carro assim que lhes fosse financeiramente viável. O carsharing, aparentemente, não estimularia a demanda pela posse de veículos – o interesse já existe. Segunda: muitos participantes expressaram interesse em experimentar o serviço. Cerca de metade dos participantes de Hangzhou e um terço dos de Bangalore afirmaram que considerariam adiar ou desistir dos planos de comprar um carro de sistemas de compartilhamento já estivessem disponíveis.

Acreditamos que as duas hipóteses podem ser verdadeiras, mas em diferentes períodos de tempo. Uma vez que as famílias que não possuem carro sentem-se atraídas pela mobilidade acessível que o serviço traria, percebemos que os sistemas carsharing inicialmente poderiam aumentar as taxas de motorização. No entanto, os programas mostram potencial significativo de reduzir esse índice em longo prazo, na medida em que os usuários se fidelizarem ao serviço e desistirem dos planos de comprar um carro.

Onde estão os sistemas carsharing?

Mercados emergentes vivem um começo lento e tardio dos sistemas carsharing. O primeiro foi o Zazcar, em 2009, que fez de São Paulo a milésima cidade no mundo a contar com um programa de compartilhamento de veículos. Mais tarde, o Carrot foi lançado na Cidade do México, o Yoyo em Istambul e outros ainda na Costa Rica e na China. Finalmente, em 2012, o número de operadoras carsharing deu um salto significativo, com mais de uma dúzia de novos sistemas em mercados emergentes. Desde então, a curva de crescimento se manteve. Até a metade de 2015, observamos 22 start-ups operando mais 9.200 veículos em sete países, atendendo 898 mil usuários. O aumento dos últimos anos foi notável – cerca de 75% desse crescimento aconteceu apenas em 2014.

A China, hoje, é o lar de um em cada sete usuários de sistemas carsharing no mundo. Start-ups recentes na Índia, no Brasil, no México, na Malásia, na África do Sul e na Turquia também cresceram – inclusive, mais rápido que seus antecessores em mercados já estabelecidos na América do Norte, Europa e Austrália. Essas informações sugerem que cidades em mercados emergentes podem estar prontas para abraçar o serviço em larga escala.

Os sistemas carsharing passaram por um crescimento exponencial nos últimos anos. (Gráfico: WRI Ross Center for Sustainable Cities)

Barreiras que impedem o avanço de sistemas carsharing

Ainda assim, encontramos muitos obstáculos para impulsionar os sistemas carsharing de forma que possam contribuir significativamente para um futuro sustentável.

Em São Paulo, por exemplo, congestionamentos que podem custar até três horas em deslocamentos tornam quase impossível estabelecer um prazo para a devolução do veículo. Em Pequim, na China, uma empresa de carsharing operou apenas sete carros em uma cidade de 20 milhões de pessoas devido a restrições do governo. E na Índia, a falta de regulação para estacionamento nas ruas em grande parte das cidades impossibilita a colocação de pontos de carsharing em locais convenientes para os usuários.

Outros obstáculos incluem, para nomear apenas alguns, a infraestrutura precária para os deslocamentos a pé, de bicicleta ou via transporte coletivo, que complementariam o uso de carros compartilhados; a concorrência com serviços de táxi e rickshaw acessíveis e bem estabelecidos; o desejo, muitas vezes cultural, pelo carro próprio; consciência limitada de mercado; e sistemas financeiros imaturos para o pagamento.

Empreendedores estão inovando para ultrapassar essas barreiras. Aplicativos de celular estão facilitando o pagamento pelo serviço na China. Nas cidades brasileiras, prazos de devolução flexíveis ajudam a contornar o problema com os congestionamentos. Parcerias com desenvolvedores estão contribuindo para a implementação de pontos próximos aos moradores nas cidades indianas. E governos locais na China e no México começam a trabalhar junto às empresas operadoras de sistemas carsharing para disponibilizar o serviço à população.

Expandir os sistemas carsharing, contudo, ainda requer muitas outras ações, tanto da parte de empreendedores quanto de governantes, para inovar, medir os impactos e vencer os obstáculos políticos e mercadológicos.

O futuro: “cidade da mobilidade compartilhada?”

Poderiam as cidades sustentáveis do futuro ser proeminentemente caracterizadas pela mobilidade compartilhada? Caminhadas, trajetos feitos de bicicleta ou via transporte coletivo contariam pela maior parte dos deslocamentos, enquanto sistemas carsharing poderiam se tornar um meio popular de ter acesso a um carro para deslocamentos eventuais, quando o modal fosse estritamente necessário.

Esse futuro parece concebível para alguns especialistas. Na América do Norte, Bill Ford acredita que as vendas de carros nos Estados Unidos declinem devido ao “futuro disruptivo” dos sistemas carsharing e de veículos automáticos. Barclays prevê uma queda de 40% na venda de automóveis nos EUA até 2040. E a PWC antecipa um aumento de 20 vezes na economia compartilhada até 2025.

Na prática, a cidade de Hangzhou pode estar entre as pioneiras. A cidade de 8 milhões de habitantes está espalhando sistemas de compartilhamento de carros e bicicletas pelas ruas e, ao mesmo tempo, ampliando suas linhas de ônibus e metrô. A cidade chinesa já conta com 70 mil bicicletas em seu sistema bikeshare e planeja aumentar o sistema até atingir a marca de 1 milhão de deslocamentos diários feitos nas bicicletas compartilhadas. Além disso, em 2013, Hangzhou anunciou os planos de implementar 100 mil carros elétricos compartilhados – e o primeiro deles já ganhou as ruas.

A “cidade da mobilidade compartilhada” pode estar no horizonte.