Cidades na COP 21: articulação para vencer os desafios do desenvolvimento sustentável

Sem colaboração, 75% dos desafios das cidades não podem ser resolvidos. O dado está no relatório “Opportunities”, desenvolvido pelo C40 e pela Arup com apoio da Iniciativa de Liderança das Cidades da University College London e apresentado hoje por Seth Schultz, Diretor de Pesquisa do C40. O documento reúne cinco anos de dados coletados a respeito das ações de mitigação lideradas pelas cidades do C40. Além de apresentar os destaques do relatório, a sessão foi um convite a refletir sobre os anos que virão depois da COP 21.

Ao total, as cidades membros da rede já foram responsáveis por 9.381 ações climáticas – e 30% delas envolveram colaboração com outras cidades. Mas há potencial para mais: conforme informações do relatório, esse número pode ser mais do que duplicado, atingindo a marca de 26.820 a partir de ações que devem ser implementadas nos próximos anos. “Não precisamos reinventar a roda: podemos simplesmente trocar conhecimento e aprender uns com os outros”, afirmou o Conselheiro e Chefe de Meio Ambiente da cidade de Melbourne, Arron Wood.

Os desafios mais significativos apontados pelas cidades são políticos, institucionais e legislativos, e os que dizem respeito à obtenção de recursos e financiamento. Como demonstrou o documento apresentado hoje (8), as melhores soluções não podem ser encontradas ou aplicadas pelas cidades unilateralmente: precisam de trabalho em conjunto com outras cidades, governos nacionais, setor privado, sociedade civil e outros atores-chave envolvidos.

Seth Schultz, Matthew Pencharz, Arron Wood e Kgosientso Ramokgopa (Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Matthew Pencharz, Vice-prefeito de Londres para o Meio Ambiente e Energia, trouxe o exemplo da capital inglesa, que elegeu diversas frentes de ação para reduzir as emissões. A taxação de congestionamento, a implementação das zonas de baixa emissão e o investimento em transporte coletivo, veículos elétricos e mobilidade ativa ajudaram a fazer da cidade um bom exemplo dos resultados práticos de uma estratégia climática.

Tanto sem os prefeitos quanto sem as cidades, as mudanças climáticas não podem ser combatidas. Essa é uma das mensagens do relatório lançado  e que Paula Kirk, Diretora Associada da Arup, usou para encerrar a sessão. Ela convidou seus colegas de palco a dividirem com o público os ensinamentos que levariam do dia. Entre diferenças pontuais, um ponto comum marcou o discurso de todos: para avançar no desenvolvimento de baixo carbono, cidades necessariamente precisam trabalhar de forma colaborativa e aprender com as experiências umas das outras.

Financiando a mudança nas cidades

Nos últimos anos, cidades de todo o mundo – mas em particular aquelas de países em desenvolvimento – passaram por passaram por um vertiginoso processo de urbanização. O crescimento populacional e o espraiamento urbano contribuíram para intensificar os efeitos das mudanças climáticas, o que impôs às cidades a necessidade cada vez mais urgente de encontrar mecanismos de financiamento para ações climáticas.

O New Climate Economy, relembrou a Secretária Executiva da Comisão Econômica e Social da ONU para a Ásia e o Pacífico, Shamshad Akhtar, mostrou as oportunidades do desenvolvimento de baixo carbono. Hoje, prefeitos capazes de ver além do presente entendem que os benefícios econômicos da redução de emissões, em longo prazo, superam o investimento que requerem as ações de mitigação. A fim de garantir a implementação de medidas capazes de reduzir emissões, parcerias com o setor privado podem ser uma alternativa de financiamento para programas climáticas e para o desenvolvimento de soluções tecnológicas inovadoras.

Atender as necessidades urbanas a partir de soluções do setor privado para os setores de energia, transporte e gestão de resíduos pode acelerar o desenvolvimento de baixo carbono nas cidades. Na primeira sessão da manhã de hoje (8), este foi o enfoque dado às questões de financiamento climático, em uma sessão que reuniu empresários e prefeitos para falar sobre investimentos de baixo carbono e as diversas formas de colaboração que podem ser estabelecidas entre cidades e empresas.

(Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

A urbanização é a tendência-chave deste século e, com 1,2 bilhão de pessoas a mais vivendo em áreas urbanas nos próximos 35 anos, as cidades precisam pensar em como atender as necessidades de infraestrutura que o crescimento da população urbana vai gerar nas próximas décadas. Nesse cenário, a tecnologia terá um papel fundamental. Roland Busch, membro do Conselho Administrativo da Siemens, diz que a infraestrutura inteligente determina a competitividade das cidades.

Transporte coletivo de qualidade, eficiência energética, gestão de água e resíduos, segurança e qualidade de vida – todos têm seu potencial duplicado quando planejados a partir do trabalho conjunto com outros setores e realizados com o uso de infraestrutura inteligente. Um dos exemplos citados por Busch vem da cidade de Londres, que passou a registrar 20% menos tráfego, diminuiu em 17% o tempo médio de deslocamento das pessoas e passou a deixar de emitir 150 mil toneladas por ano, tudo em decorrência da taxação dos congestionamentos. “A cidade do futuro vai ser aquela capaz de realizar um gerenciamento inteligente dos dados, visando a investimentos eficientes – nas áreas certas e na hora certa, evitando o desperdício. Porque, para ser inteligente, uma cidade necessariamente precisa ser sustentável”, declarou.

Pavilhão da Green Zone na COP 21 (Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)