Nossa Cidade: Como as empresas podem agir para transformar a mobilidade

O projeto Nossa Cidade, do TheCityFix Brasil, explora questões importantes para a construção de cidades sustentáveis.

A cada mês um tema diferente.

Com a colaboração e a expertise dos especialistas do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, as séries trazem artigos especiais sobre planejamento urbano, mobilidade sustentável, gênero, resiliência, entre outros temas essenciais para um desenvolvimento mais sustentável de nossas cidades

 

 

Escrito por Priscila Pacheco e Guillermo Petzhold

Como as empresas podem agir para transformar a mobilidade

Para otimizar o uso da infraestrutura e da oferta de transporte disponível, bem como para equilibrar a distribuição do espaço viário, cidades começam a aplicar novos modelos e soluções. Uma delas é a aplicação de medidas de gestão de demanda de viagens (GDV), termo originado do inglês travel demand management, focado em empresas, também conhecido como mobilidade corporativa. Essas medidas ajudam a qualificar a mobilidade local e podem ser aplicadas por organizações público e privadas como forma de promover hábitos de deslocamento mais sustentáveis entre os funcionários. É o que mostra o Passo a Passo para a Construção de um Plano de Mobilidade Corporativa, lançado em setembro deste ano durante o seminário Mobilidade Corporativa: o papel das empresas na melhoria das cidades, em São Paulo.

Os deslocamentos para o trabalho são responsáveis por aproximadamente metade de todas as viagens realizadas diariamente no Brasil. Nas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, os congestionamentos consumiram R$ 98 bilhões em 2013; além disso, por conta da morosidade do trânsito na grande São Paulo, o país perde R$ 156,2 bilhões do PIB.

“Em São Paulo, 80% das pessoas afirmam que deixariam o carro em casa se tivessem alternativas melhores. As medidas de mobilidade corporativa buscam justamente criar essas alternativas. Oferecer vantagens para quem opta pelos modais sustentáveis é essencial para convencer as pessoas a mudarem seus hábitos de deslocamento”, afirma Guillermo Petzhold, Engenheiro de Transportes do WRI Brasil Cidades Sustentáveis.

Bicicletários e vestiários para quem opta pela bicicleta, vagas especiais para quem oferece carona, bonificações para quem utiliza o transporte coletivo, flexibilizar os horários de entrada e saída ou até ônibus fretados para os funcionários são alguns exemplos de ações que podem despertar a mudança de comportamento e contribuir para reduzir o uso do automóvel como principal meio de transporte.  A publicação orienta as empresas no desenvolvimento dos planos de mobilidade corporativa através de sete etapas:

  1. Preparação: envolve as primeiras ações chave para a construção do plano – identificar a necessidade da organização, conquistar o apoio da diretoria, mapear os atores envolvidos, estabelecer o comitê gestor do plano e designar um coordenador.
  2. Definição de escopo: nesta etapa, é construída a visão e são definidos os objetivos, metas, prioridades e horizontes, de acordo com o contexto e as necessidades de cada organização.
  3.  Comunicação: compreende o planejamento das ações de comunicação, essenciais para engajar os funcionários e estimular a mudança de cultura.
  4. Diagnóstico: avalia as condições atuais de transporte na empresa, as políticas e custos e o padrão de deslocamento dos funcionários
  5. Elaboração: neste passo, são definidos o orçamento disponível para o plano e as estratégias que serão utilizadas; é, também, o momento de lançamento do plano.
  6.  Implementação e promoção: envolve a busca de cooperação para colocar em prática as estratégias do plano e a divulgação e premiação de bons resultados.
  7. Monitoramento e revisão: avalia o progresso alcançado em direção aos objetivos e revisa a estratégia traçada.

A mobilidade corporativa no contexto brasileiro

Historicamente, grande parte das empresas no Brasil nunca percebeu que também possuem responsabilidades em como seus funcionários se deslocam ao trabalho. Deslocamentos demorados e estressantes acabam por minar a qualidade de vida dos funcionários e impactam diretamente na sua produtividade ao longo da jornada de trabalho. Hoje, a noção de que a mobilidade urbana não é responsabilidade apenas do setor público, mas de todos, está mais amplamente difundida, e as empresas começam a agir para estimular o uso de modais mais sustentáveis.

Na cidade de São Paulo, o projeto conduzido em 2012 pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis em parceria com o Banco Mundial trabalhou com 20 empresas localizadas em uma das áreas mais congestionadas da cidade. Inicialmente, mais da metade dos mil funcionários dirigia ao trabalho sozinho e menos de 20% deles usavam o transporte coletivo. Ao final da iniciativa, o número de funcionários se deslocamento sozinhos para o trabalho, em uma das empresas participantes, caiu 17% e o daqueles que utilizavam o transporte coletivo cresceu 10%.

Em Belo Horizonte, na Cidade Administrativa do Governo do Estado de Minas Gerais, o trabalho está começando. A organização procurou o apoio técnico do WRI Brasil Cidades Sustentáveis para desenvolver seu plano de mobilidade corporativa e qualificar o deslocamento dos 17 mil funcionários que percorrem em torno de 20 quilômetros todos os dias para chegar ao trabalho.

A população das grandes cidades brasileiras tende a crescer – e, com ela, os congestionamentos. A produtividade perdida com o trânsito no Brasil chega a 2,83% do PIB. Os planos de mobilidade corporativa são uma ferramenta de que as empresas podem lançar mão para reverter esse cenário. As organizações têm o poder de influenciar a escolha modal de seus funcionários, por isso devem promover opções de transporte sustentáveis para assim mudar, em longo prazo, um padrão de deslocamento centrado no uso do carro que é nocivo para todos – pessoas, empresas e cidades.