Seminário Cidades a Pé ressaltou a importância de incentivar a caminhabilidade

A humanização das cidades. Esse foi o princípio norteador do Seminário Internacional Cidades a Pé que aconteceu entre os dias 25 e 28 de novembro, em São Paulo. A partir dessa proposta, o evento, organizado pela Comissão de Mobilidade a pé e acessibilidade da ANTP, visou a discussão e reflexão sobre a importância do caminhar nas cidades, apresentando a perspectiva das cidades modernas, que se desenvolveram no sentido de dificultar o caminhar. Além disso, houve espaço para debater as iniciativas, políticas públicas e estudos que promovem cidades mais caminháveis e tentam inverter a lógica dos espaços urbanos voltados para os carros.

Partindo do pressuposto que andar a pé abrange mais do que as temáticas do Planejamento Urbano e Deslocamento, o evento se definiu em 4 eixos temáticos: Mobilidade a pé e Saúde; Desenho Urbano e Políticas Públicas para a Mobilidade a Pé; Cidades para todos; e Cidades a Pé.

Paula Santos Rocha, Coordenadora de Projetos de Transporte e Acessibilidade do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, participou do evento no escopo do desenho urbano e políticas públicas para mobilidade a pé. No Painel, Paula apresentou para debate as três áreas em que o WRI Brasil Cidades Sustentáveis tem trabalhado nos termos de desenho urbano e políticas públicas a favor do pedestre: Velocidade dos veículos motorizados, Desenvolvimento Orientado pelo Transporte Sustentável e o Desenho seguro de cidades.

A importância de incentivar a caminhabilidade

O primeiro ponto analisado na apresentação da engenheira Paula Rocha foi a equação estabelecida entre a redução de velocidade dos veículos motorizados e o nível de caminhabilidade de uma cidade. A legislação brasileira permite um limite de velocidade em áreas urbanas que, de acordo com as boas práticas de segurança, é muito alto. Apesar disso, as cidades brasileiras têm autonomia para definir a velocidade de suas vias. “O poder público tem em mãos a oportunidade de adotar limites seguros e compatíveis com o perfil de cada via e salvar vidas”, destacou a Coordenadora de Projetos de Transporte do WRI.

Apresentou, portanto, estudos que comprovam como a redução na velocidade está diretamente relacionada a um aumento na segurança viária. O risco de ferimentos graves ou morte de pedestres aumenta exponencialmente com a velocidade – ao ser atingido por um veículo a 60 km/h, o risco de morte do pedestre é quase 10 vezes maior do que se o acidente envolvesse um impacto a 30 km/h.

A redução de velocidade é uma política que pode ser potencializada pelo desenho urbano. A engenheira explicou como um ambiente viário consistente com as velocidades desejadas influencia positivamente o comportamento dos condutores. Mais do que pelos limites indicados na sinalização, a velocidade praticada pelos condutores é muito influenciada pelo uso que é dado à área, pelas características físicas da via e pelas condições de tráfego. Portanto, além da legislação e da fiscalização, a infraestrutura viária deve ser adaptada ao novo limite de velocidade.

Além desses tópicos, Paula destacou algumas publicações que evidenciam a eficiência do desenho urbano e seus benefícios. O Manual de Desenvolvimento Urbano Orientado ao Transporte Sustentável, desenvolvido pelo WRI Brasil, por exemplo, tem sido amplamente discutido como política para incentivar a criação de desenhos urbanos que que satisfaçam a maior parte das necessidades de viagens das pessoas através de deslocamentos a pé ou em bicicleta no âmbito local, e no restante da cidade através do transporte coletivo, reduzindo a dependência do automóvel.

Algumas estratégias de implementação de políticas públicas e desenho urbano favoráveis à mobilidade sustentável e priorização dos modos a pé e bicicleta foram ressaltadas na apresentação. Entre os exemplos, Paula destacou Melbourne, na Austrália, e Amsterdam. Ambas mudaram o uso de suas ruas e potencializaram o espaço para o pedestre

Como último exemplo, apresentou o Plano Pedonal de Lisboa. Apesar de a cidade portuguesa ser conhecida por ruas muito íngremes e enormes escadarias, apenas 8% das calçadas deixam de ser acessíveis por conta do fator de inclinação da rua, todas as outras tinham outros tipos de barreiras, sendo que os carros estacionados em cima da calçada o maior deles. Portanto, o plano de Lisboa foca em três objetivos: impedir a criação de novas barreiras, adaptar as edificações existentes e mobilizar a comunidade.

“A importância de se ter políticas públicas efetivas para aumentar o número de deslocamentos a pé é uma questão de saúde pública”, enfatizou Paula. “Muitas pessoas já caminham como meio de transporte nas cidades brasileiras que possuem um grande potencial para o crescimento da caminhada. Andar a pé é um meio de transporte acessível, saudável e divertido que proporciona acesso à escola, trabalho, recreação e integração a outras formas de transporte. Existem as ferramentas e os exemplos a serem seguidos e hora de usa-los é agora”, finalizou.

Cidades a pé

O Seminário serviu, portanto, como um novo passo na discussão e reflexão sobre a importância de andar nas cidades. Durante três dias aconteceram palestras, debates e oficinas técnicas para gestores públicos e público em geral.

“O debate que se estabeleceu recentemente sobre a abertura da Avenida Paulista para as pessoas, fechando-a para os carros, é uma evidência de que precisamos caminhar muito ainda para conseguir transformar nossas cidades”, assevera Luiz Carlos Mantovani Néspoli, Superintendente da ANTP, na abertura do Caderno Técnico nº 16, resultado do Seminário Internacional Cidades a Pé.

Na Newsletter Mobilidade e Conjuntura de número 122, a ANTP destaca os principais tópicos e notícias realizados durante o Seminário. Vale a pena conferir, aqui.

  • http://www.fernandodelamancha.blogspot.com Fernando Magno

    É preciso pensar as cidades para as futuras gerações. Longe do transporte individual, compactando os deslocamentos, de forma a iniciar à sustentabilidade de fato.