O que “a mulher que fechou a Times Square” nos ensina sobre revolução urbana

Post co-escrito por Paula Santos

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Janette Sadik-Khan mostrou que é possível devolver o equilíbrio na distribuição do espaço urbano. Com soluções simples como fechar ruas para os carros, construir (pintar) ciclovias, faixas exclusivas para ônibus e as famosas plazas, transformou a cidade provando que as ruas não precisam ter uma única função para sempre. A ex-secretária de transportes de Nova York mostrou ao mundo que, mesmo numa gigante globalizada, o carro é o mais irracional consumidor de espaço das cidades. Proporcionar o equilíbrio não é apenas lógico, mas também um ato de justiça.

Porém, a história da “mulher que fechou a Times Square” não é mais novidade. Embora o exemplo nova-iorquino ainda sirva como inspiração para muitas cidades com pensamentos conservadores em termos de planejamento e mobilidade urbana, é preciso começar a olhar outros aspectos das conquistas de Nova York.

Grande parte do sucesso de Janette se dá pelo pouco tempo de desenvolvimento e pela efetividade de suas ações na cidade. Seus instrumentos foram tinta, cones, algumas cadeiras de praia e, principalmente, pessoas. O alvo das mudanças: o espaço físico e o modo de vida dos new yorkers.

Nova York é um exemplo de microrrevolução urbana com origem no setor público. Justamente graças a este caráter público e com maior poder de ação essas microrrevoluções foram replicadas em toda a cidade, produzindo um impacto muito maior que o esperado. Vivemos um momento em que muito se pensa no planejamento urbano estratégico e na cidade que queremos. Estes são, com certeza, pontos importantíssimos para o futuro das cidades. Porém é preciso saber aplicar as ações em escala local: a escala humana, do impacto direto ao cidadão, em projetos pontuais e imediatos. A microrrevolução de Janette mostra que o alinhamento entre visão de cidade e iniciativas pontuais tem o poder de transformar cidades consolidadas.

E mais. A mudança atinge um caráter cultural, que vai muito além das transformações urbanas. Toca aspectos intangíveis como a qualidade de vida, a forma de relação das pessoas com o espaço, com seus vizinhos, com seu dia a dia no deslocamento na cidade. E isso faz com que a mudança seja ao mesmo tempo maior e mais sólida, capaz de resistir às pressões ao longo do tempo.

Tinta, cones e cadeiras de praia podem mudar nosso estilo de vida. O que Janette nos ensina, no fim das contas, é que somos, cada um de nós, parte do nosso entorno urbano. Vivemos diariamente uma rotina imposta pela cidade. Por outro lado, diariamente também temos a oportunidade de (re)produzirmos a forma de vida da nossa urbe. Com os instrumentos e impulsos certos podemos transformar o nosso dia a dia. Transformar o nosso entorno está a nosso alcance.