Cli-fi, o subgênero da ficção que evidencia as mudanças climáticas

A ficção não aspira o posto de profecia, mas muitas vezes acaba assumindo esse papel. O escritor francês Júlio Verne, por exemplo, dependendo do ponto de vista, pode ser considerado muito mais plausível que Nostradamus. Verne, entre outras coisas, previu a existência de viagens espaciais e submarinos. Em 1869 descreveu um submarino que foi criado apenas em 1955. Por outro lado, por volta de 1941, Isaac Asimov esgotou seus anseios imaginários sobre a robótica. Criou leis e previu conflitos éticos da convivência entre a inteligência natural e a artificial. Esses conflitos fictícios não acontecem hoje, mas não falta quem aborde a possibilidade de que eles se concretizem em breve. Há quem diga (e há quem prove) que é questão de tempo.

Assim como escritores de ficção exploraram por anos algumas incursões à evolução social envolvendo robôs e invenções extraordinárias, surge na literatura, de 1960 para cá, um subgênero de ficção científica que volta seus esforços para a criação a partir da hipótese antropogênica. Mantendo as coisas claras: o antropoceno é o termo usado por cientistas para descrever a fase mais recente do planeta. Ele começa quando as atividades humanas começaram a ter um impacto global significativo no clima da Terra e no funcionamento dos seus ecossistemas. Ou seja, o ser humano não é apenas habitante do planeta, mas representa uma força geológica determinante para o futuro político e biológico da própria espécie neste planeta.

Agora, misture essa hipótese à mentes férteis. O que temos? Um novo gênero dentro da ficção cientifica. Nasce assim a climate-fiction, popularmente chamada de cli-fi. É preciso muito pouco esforço para lembrar quando foi a última vez que você viu um filme do gênero. Em reportagem para o site Planeta Sustentável, Maria Bitarello cita um punhado de obras. Entre elas, destaco Interestelar, do diretor britânico Christopher Nolan, e A estrada, livro de Cormac McCarthy. Acrescento, ainda, uma que marcou os debates sobre o gênero, pois é nutrida de certo imediatismo extremista: O Dia Depois de Amanhã.

(Em interestelar o planeta Terra precisa ser deixado pra trás // Reprodução)

Já são muitos os relatórios científicos que temos à disposição para entender o aquecimento de nosso planeta e para reconhecer a culpa que deve ser remetida às nossas contas. No entanto, relatórios científicos não chamam (e muito menos prendem) a atenção do público. Isso acontece por apenas um motivo: eles não são bons em contar histórias. A literatura e o cinema, portanto, abraçam esse papel.

O escritor Piers Torday, em reportagem publicada no The Guardian, destaca que o aproveitamento dessas ansiedades pós-apocalípticas por autores como David Thorpe, Moira Young e Sarah Holding não deve ser cunhada como fantasia futurista. Torday ressalta que quando cria, em um de seus livros, uma situação em que todos os animais do planeta morrem, não se trata apenas de pintar um quadro extremo, distópico.

Para provar sua perspectiva, o escritor insere no texto o recente relatório Living Planet 2014 do WWF, que revela que toda a população animal do planeta foi reduzida pela metade nos últimos 40 anos. De 1970 para cá, 52% dos animais do planeta já eram. As causas são: caça, pesca, desmatamento, poluição e outras formas de degradação do habitat natural dos animais. O relatório diz: “Estamos usando os recursos da natureza como se tivéssemos mais um planeta Terra à nossa disposição. Ao tomar mais de nossos ecossistemas e processos naturais estamos colocando em risco nosso próprio futuro”.

“Cada efeito das alterações climáticas nos livros – desde o aumento dos níveis do mar até a acidificação dos oceanos – está acontecendo agora, ainda que em um nível menor”, fala Torday. E conclui que ao escrever histórias provocativas sobre o estado que deixamos o planeta não estamos fazendo ficção, mas sim algo contemporâneo.

Há quem defenda que a ficção climática funcione apenas para o entretenimento do público, não para empoderá-lo de conhecimento sobre as questões climáticas. Os professores Robin Murray e Joseph Heumann, autores do livro Ecology and Popular film, apontam que o impacto dos filmes cli-fi na percepção da audiência sobre as alterações climáticas dependem do tamanho da audiência.

“Embora existam poucos estudos sobre os efeitos, os filmes cli-fi tem função de sensibilização para as questões ambientais dos telespectadores. O movimento ambientalista definitivamente deixou a sua marca no cinema clássico e contemporâneo”, explicam os professores por e-mail para Joanna Zajaczkowska, no contributoria.

Já a professora Tracey Heatherington, do Departamento de Antropologia da Universidade de Milwaukee, em reportagem ao IG, demonstra que “a diferença básica entre cli-fi e filmes que apenas dramatizam catástrofes naturais é o potencial de pensarem criticamente sobre a natureza da mudança climática, suas causas e origens. O cli-fi real é a crítica a um sistema que gera desigualdades fundamentais e injustiça ambiental em escala global.”

Artigos, reportagens e ensaios tratam sobre o assunto, mas uma das melhores explicações é a interpretação do escritor brasileiro Daniel Galera sobre um artigo publicado em 2013 no jornal The Guardian, de autoria do escritor Rodge Glass, que aponta a diferença entre a ficção científica clássica e a literatura cli-fi.

“Enquanto a primeira gira em torno de possíveis descobertas do futuro, a segunda lida com questões imediatas, apenas intensificando o que já se faz sentir no presente. A ficção climática ganha força à medida que as catástrofes ecológicas saem do domínio da especulação pós-apocalíptica para ocupar outro lugar no subconsciente das pessoas. O sentimento que esses escritores traduzem não é o medo da catástrofe, mas a noção, ainda pouco articulada no discurso cotidiano, de que ela já aconteceu”, esclarece Galera no artigo Avisos de tempestade, para a Revista Trip.

O inegável potencial destas mentes férteis deve, portanto, ser levado em consideração para mensurarmos a gravidade que as mudanças climáticas acarretam. Apesar de termos notícias diárias sobre como o planeta está respondendo aos golpes que aplicamos — como as fotografias que evidenciam o derretimento das geleiras e o fato de os meses de 2015 terem quebrado o recorde de mês mais quente da história seis vezes consecutivas — ocasionalmente precisamos de doses de cli-fi para exercitar a imaginação e, por que não dizer, aprimorarmos nossa empatia com as gerações vindouras.

Assim como Júlio Verne e Isaac Asimov, a ficção contemporânea tem o potencial de apresentar algumas sacadas visionárias. No entanto, a literatura praticada agora evidencia, sobretudo, o poder do ser humano em sua correlação com a natureza. Logo, a cli-fi pode servir para extremar um aspecto contrário. Ou seja, talvez apresentar a distopia de uma humanidade que percebe seu próprio poder destrutivo possa esclarecer o potencial que temos para impedir que a maioria destes desastres naturais realmente aconteça.