Trilhando o caminho da sustentabilidade e da justiça social nas cidades

O desenvolvimento urbano sustentável precisa ser focado na justiça social para proteger o bem-estar dos mais vulneráveis. (Foto: Christine McLaren/Flickr)

Este artigo foi originalmente publicado por Victoria Beard no TheCityFix.

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Embora não seja especificamente focado em cidades, o artigo “Índia está presa em um dilema climático”, publicado por Eduardo Porter no New York Times, me levou a refletir sobre o dilema enfrentado em muitas regiões do mundo que devem passar por um processo de urbanização nas próximas décadas. As tensões destacadas pelo autor entre a sustentabilidade ambiental e a justiça social ficaram na minha cabeça porque são as mesmas questões que o WRI Ross Center está analisando na medida em que trabalhamos no próximo World Resources Report (WRR) sobre cidades sustentáveis. A seguir, falo sobre como essas tensões estão interligadas às cidades.

População e pobreza

A população urbana no mundo deve aumentar em 2,5 bilhões de habitantes até 2050, e mais de 80% deste aumento deve ser registrado na Ásia e na África. Esse crescimento da população urbana vai acontecer em muitos países como a Índia. Embora as linhas de pobreza sejam indefinidas, Porter estima que aproximadamente 30% das pessoas pobres em todo o mundo vivam na Índia. O desafio é que, ao mesmo tempo que são centros de crescimento econômico e produtividade, as cidades também estão sob tremenda pressão para regular um ambiente urbano em constante mudança, reduzir as externalidades negativas associadas ao crescimento e oferecer serviços que atendam as necessidades de uma população urbana crescente. Como as cidades farão isso é a questão central do WRR.

Sustentabilidade ambiental e justiça social

Não existem rodeios na mensagem de Porter sobre o dilema da justiça social. Muitas cidades em países desenvolvidos atingiram seus padrões de vida explorando recursos naturais próprios e de outros países (sem falar em como a mão de obra foi utilizada. No entanto, há evidências científicas claras de que se as cidades que passam hoje pelo processo de urbanização seguirem o mesmo caminho chegaremos a uma catástrofe climática. Quando falamos de cidades sustentáveis em um contexto como o da Índia, a narrativa é ainda mais complicada pelo fato de que o consumo per capita de água, energia e outros recursos naturais dos moradores urbanos é bem menor se comparado aos níveis daqueles que moram em cidades de países desenvolvidos. De forma geral, indo além dos argumentos de justiça social, isso significa que as cidades em países desenvolvidos fornece poucos exemplos úteis de desenvolvimento urbano sustentável.

Do dilema à criatividade

Resolver esse dilema requer uma transformação que vai muito além dos mais recentes avanços tecnológicos. É de dentro deste dilema que precisamos procurar por soluções criativas e contextuais. O WRR tem uma abordagem que segue as mesmas linhas do que Porter escreveu: uma abordagem que procura proteger o ambiente e, ao mesmo tempo, garantir a qualidade de vida das pessoas, atendendo suas necessidades e aspirações. O artigo traz um exemplo de como usar os recursos gerados por impostos ao carbono para financiar o seguro social. Acertando o passo para as cidades, o WRR trata dos desafios de uso do solo, água, energia e transportes – a partir da perspectiva da metade inferior da distribuição de renda como um ponto de entrada para criar uma cidade sustentável para todos.

Dessa perspectiva, como são as soluções criativas? Essa abordagem de fato vai trilhar o caminho para uma cidade mais próspera, sustentável e equitativa para todos? Esse é o dilema e também nosso desafio criativo.