Mortes no trânsito: ‘Não há mais desculpas’

O trânsito é um problema urgente. É uma das principais causas de mortes e lesões em todo o mundo, tirando a vida de 1,25 milhão de pessoas a cada ano – o que equivale à queda de oito aviões Boeing 747 por dia. Os acidentes viários também são a principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos e resultam em um custo estimado em US$ 1,85 trilhão ao ano a cofres públicos (Irap, 2013). Os números impressionam, mas as histórias de perdas comovem e também inspiram à ação imediata. “Estou aqui como mãe e representante daqueles que perderam pessoas queridas para o trânsito. Sonhos e vidas são destruídos e isso não é justo. Pedimos apenas uma coisa: que os governos mundiais e as organizações ajam”, declarou Zoleka Mandela, Embaixadora da Make Roads Safe, durante o discurso de abertura da 2ª Conferência Global de Alto Nível sobre Segurança no Trânsito: Tempo de Resultados, em Brasília, ao lado da presidente Dilma Rousseff e Margaret Chan, Diretora Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Neta de Nelson Mandela emocionou presentes com discurso por ação imediata. (Foto: Mariana Gil / WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

A neta de Nelson Mandela perdeu a filha de 13 anos em um acidente de trânsito em 2010 e fez da dor o seu combustível para liderar uma campanha mundial por ruas mais seguras. “Estou aqui pela minha filha, pelos filhos de todos. Para que outras famílias não precisem sofrer o que sofri. Nas últimas 24 horas, pelo menos 500 famílias já sentiram isso. Não é justo”, disse emocionada ao auditório lotado do Centro Internacional de Convenções do Brasil. O encontro reúne Ministros, gestores públicos, organizações e sociedade civil de 120 países no momento em que atingimos a metade da Década de Ação pela Segurança no Trânsito, da ONU. A meta é reduzir pela metade o número de mortes em acidentes até 2020.

“Não há mais desculpas”, provocou Zoleka Mandela. “Precisamos diminuir os limites de velocidade e tornar nossas ruas mais seguras. Podemos prevenir milhões de mortes e para fazer isso precisamos de financiamento, de compromisso político, de ação imediata. Vocês sabem exatamente como acabar com essa epidemia. Então eu peço, em nome das vitimas e como mãe: basta de comprometimentos vazios e amanhãs. Que esse não seja mais um evento para debate e, sim, de ação urgente”, convocou Zoleka ao relembrar a célebre frase do avô: “Parece impossível até que seja feito”.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, mais de 90% das vítimas de acidentes são de países em desenvolvimento, lembrou a presidente Dilma Rousseff em seu discurso esta manhã. Para mudar esse panorama, é necessário decisão política e investimento em mobilidade voltada às pessoas. “Calçadas, faixas de pedestres, ciclovias, transporte público eficiente e moderno, limites de velocidade, ruas bem pavimentadas são medidas importantes para uma mobilidade mais eficiente e segura, e vida mais saudável e sustentável”, declarou Rousseff. “O uso da bicicleta reduz as emissões de CO2, a valorização do pedestre estimula a atividade física. Um trânsito mais colaborativo favorece a convivência pacífica e a melhor utilização dos espaços públicos”, completou. Para a presidente, a escolha do Brasil como sede da Conferência é mais um reforço do comprometimento do país com a meta global.

“Os familiares das vítimas nos dão testemunho e sua presença representa amor e grandeza de alguém que, mesmo com o sofrimento, escolheu engajar-se para evitar que mais famílias passem pela mesma dor. Esse é o espírito que deve mover todos nós”, finalizou Dilma Rousseff ao saudar Zoleka Mandela e Diza Gonzaga, da Fundação Thiago Gonzaga que há quase 20 anos promove campanhas de segurança no trânsito para jovens no país.

A líder da OMS, Margaret Chan, reforçou duas ações imediatas que já estão reduzindo as mortes no trânsito em diversas cidades do mundo. “Precisamos tornar as nossas ruas mais seguras e oferecer transporte sustentável e acessível a todos”, pontuou. Para Chan, o encontro também é uma oportunidade para potencializar os Objetivos ao Desenvolvimento Sustentável da ONU e tornar o futuro global mais próspero e ambientalmente mais responsável. “O desenvolvimento sustentável depende diretamente da mobilidade, de um transporte acessível e equitativo para todos. O preço dos acidentes viários é alto demais, na dor das famílias e na economia nacional”, destacou.

Líder da OMS destacou importância de tornar as ruas mais seguras. (Foto: Mariana Gil / WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Também participaram da cerimônia de abertura os Ministros da Justiça, Saúde, Cidades e Relações Exteriores do Governo Federal. Os temas debatidos na Conferência passam por infraestrutura e desenho urbano, indicadores, metas, legislação, tecnologias, gestão, financiamento, fortalecimento do atendimento a vítimas, entre outros temas-chave.

A Conferência é organizada por comitê interministerial composto por oito ministérios, sob a coordenação do Ministério da Saúde, em parceria com OMS, Organização Panamericana de Saúde (OPAS) e o Amigos da Década. Saiba mais.

Participam do encontro delegações de 120 países. (Foto: Mariana Gil / WRI Brasil Cidades Sustentáveis)