Planejamento urbano e mobilidade sustentável: uma questão de tempo?

(Foto: George Redgrave/Flickr)

Incentivar o uso dos transportes não motorizados e dos transportes públicos como alternativa aos automóveis é uma questão central na busca de um  desenvolvimento mais sustentável. Assim, muitos países implementaram políticas com o objetivo de influenciar a escolha modal da população e buscar um sistema de mobilidade mais eficiente e menos poluente. Nesse contexto, verificou-se que iniciativas focadas somente em investimentos nos sistemas de transporte não resultavam em mudanças rápidas para modos menos poluentes e novas políticas foram mobilizadas para encorajar as pessoas a optarem pela bicicleta, caminhada ou transportes públicos. Às vezes, essas políticas envolvem incentivos, tais como as ações de sensibilização mostrando os benefícios dos deslocamentos ativos para a saúde, encorajando a escolha desse tipo de transporte ao invés dos individuais motorizados. Outras ações são dissuasivas, como por exemplo, o aumento das tarifas de estacionamento de veículos ou o fechamento de ruas para tornar o seu uso mais rápido e fácil para pedestres e ciclistas.

Ainda assim, mesmo nos países Europeus onde essas práticas foram amplamente adotadas, as metas de redução de emissão de CO2 vinculados aos transportes ainda não foram alcançadas, exigindo novas intervenções estruturais vinculadas notadamente ao planejamento urbano. Nesse sentido, o desenvolvimento urbano orientado ao transporte sustentável  sugere, entre outros fatores, que os territórios sejam ordenados de maneira a reorganizar os lugares onde ocorrem as atividades quotidianas possibilitando o uso eficaz dos transportes públicos e dos modos não motorizados. Mas, e se o planejamento urbano fosse além da lógica do espaço e fosse pensado também como uma questão de tempo? É o que sugere James Faulconbridge, geógrafo e economista, pesquisador da Universidade de Lancaster.

Faulconbridge e sua equipe analisaram os deslocamentos pendulares em duas cidades inglesas, Brighton e Lancaster, e verificaram que eles não se resumem a um simples trajeto de casa até o trabalho, mas que são viagens mais complexas. Ou seja, a pendularidade implica geralmente sair de casa para deixar os filhos na escola, ir ao trabalho, sair do trabalho e ir fazer compras, buscar os filhos, leva-los nas atividades extra curriculares e, finalmente, voltar para casa. Nesse contexto, o que influencia a escolha modal não é apenas a distância entre as diversas atividades, mas o efeito combinado da distância entre elas e suas temporalidades. Assim, os pesquisadores constataram que, como as escolas geralmente começam e terminam em horas fixas, assim como o trabalho da maioria das pessoas, um fator que tem grande influência na escolha do modo de transporte é a quantidade de tempo disponível para cobrir a distância entre os diferentes lugares. É preciso, desta forma, entender a combinação entre as estruturas espaciais e as temporais e sua implicação nas possibilidades de usar transportes menos poluentes.

Mas como isso pode se traduzir na prática do planejamento urbano? Poderiam as políticas públicas agir para reorganizar essas temporalidades de maneira a encorajar o uso dos transportes públicos e dos modos não motorizados? Os pesquisadores acreditam que sim. Por exemplo, as políticas de educação poderiam flexibilizar os horários escolares e associá-los às políticas do trabalho, que tornariam obrigatória a organização e a flexibilização dos horários de trabalho possibilitando sua vinculação às demais práticas quotidianas. Desta forma, essas intervenções poderiam possibilitar a criação de “matrizes espaço-temporais facilitadoras”, ou seja, possibilitar orientações espaço-temporais propícias aos deslocamentos a pé, de bicicleta ou em transportes públicos.

Finalmente, no contexto complexo das cidades contemporâneas, tal abordagem não substituí obviamente as demais ações e políticas públicas na busca de uma mobilidade urbana mais sustentável, mas aumentariam o arsenal de políticas de mobilidade além das medidas focando apenas em incentivo e dissuasão. Nessa lógica, deslocamentos menos poluentes e cidades mais sustentáveis podem ser, sim, uma questão de tempo.

(Fonte: James Faulconbridge, 27 de outubro de 2015, «Pour changer les pratiques, le rôle clé de la temporalité et de la spatialité», Forum Vies Mobiles.)