As cidades podem mudar o futuro global: o que aprendemos com o Congresso Cidades & Transportes

Cúpula de Prefeitos, no Rio, reuniu mais de mil participantes. (Foto: Mariana Gil / WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Todas podem. Ricas ou pobres. Americanas, europeias ou asiáticas. As cidades precisam revisar os erros, vencer as barreiras e tomar decisões ousadas que as direcionem ao desenvolvimento sustentável. Esta foi a mensagem principal dos cinco visionários líderes reunidos na Cúpula de Prefeitos, e dos palestrantes do Congresso Internacional Cidades & Transportes, ambos os eventos realizados pela EMBARQ Brasil para celebrar o seu décimo aniversário e a transição para WRI Brasil Cidades Sustentáveis.  A Cúpula e o Congresso reuniram na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, dias 9, 10 e 11 de setembro, 1.186 participantes, entre eles 64 prefeitos, 129 secretários municipais e 142 palestrantes de 128 cidades, de 24 países.

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Ani Dasgupta, do WRI. (Foto: Mariana Gil)

Décadas de expansão urbana desordenada e centrada no uso do carro tornaram os centros urbanos responsáveis por 70% das emissões de poluentes em todo o mundo, mesmo correspondendo a apenas 2% do território. Ani Dasgupta, Diretor Global do WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis alertou: “as mudanças climáticas são uma realidade a ser enfrentada, e as decisões tomadas hoje vão determinar o futuro do sistema climático no mundo. Se não houver ação imediata, a temperatura média no planeta pode estar 4°C mais alta até o final deste século, com impactos extremos e potencialmente irreversíveis para a vida terrestre. E as cidades têm um papel-chave para a transformação. Até 2050, devem abrigar mais 2,5 bilhões de pessoas e o mesmo número de carros privados”.

Um novo caminho urbano se faz necessário para frear as duras consequências do desenvolvimento desordenado: conciliar crescimento econômico e sustentabilidade. Este foco permeou as discussões da Cúpula e do Congresso e é o principal mote do New Climate Economy. A iniciativa é liderada por Felipe Calderón, ex-presidente do México, e composta por oito instituições internacionais de pesquisa ambiental, entre elas o WRI – World Resources Institute. Sessenta por cento da infraestrutura das cidades ainda precisa ser construída para que todas as pessoas possam ter moradia, o que demanda cidades menos excludentes e poluidoras. Sistemas eficientes de transporte como o BRT, por exemplo, podem gerar 17 trilhões de dólares em economia de energia e uma redução de até 50% do CO2 em relação ao que emitimos hoje.

Mas para que projetos assim se tornem realidade é necessário, antes de tudo, uma visão comum entre sociedade e gestores públicos. “Uma visão que proponha uma cidade equânime, saudável e que faça melhor uso do seu espaço público para prosperarmos com felicidade”, sintetizou Luis Antonio Lindau, diretor do WRI Brasil Cidades Sustentáveis. Onde se está, onde se almeja chegar e o que é necessário para atingir os objetivos são questões que os tomadores de decisão devem ter em mente quando o assunto é planejar para o futuro. Ken Livingstone (Londres), Jaime Lerner (Curitiba), Mary Jane Ortega (San Fernando), Enrique Peñalosa (Bogotá) e Sam Adams (Portland) apostaram em liderança, visão e planejamento para fomentar transformações de impacto positivo à vida de milhões de pessoas. Foram prefeitos que tocaram “corações e mentes”, motivaram suas equipes e suportaram a oposição para direcionar suas cidades a um futuro mais saudável, próspero e equitativo.

As ações concretizadas passam por restrição ao uso do carro; redução dos limites de velocidades; incentivo ao transporte sustentável, como BRTs, faixas de ônibus, caminhada e bicicletas; investimento em políticas públicas e espaços urbanos acessíveis e inclusivos. Não se trata apenas de uma questão de infraestrutura e, sim, de cultura para devolver o espaço urbano às pessoas. Uma cidade acessível é aquela em que todas as pessoas podem conviver, onde homens e mulheres têm os mesmos direitos, onde os idosos têm espaço como cidadãos ativos. Nesse sentido, exemplos de cidades convidativas ao pedestre, como Nova Iorque, ganharam destaque. Basta andar por NYC para perceber que foi replanejada para as pessoas. “É uma abordagem que molda a cidade não a partir do ponto de vista do parabrisa de um carro, mas do cidadão comum”, explicou Alexandros Washburn, arquiteto responsável pela ampla transformação urbana durante o mandato do prefeito Michael Bloomberg e um dos panelistas internacionais.

No Brasil, vivemos um momento único para transformar nossas cidades a partir da perspectiva das pessoas por meio da Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU) e o Estatuto da Metrópole, sancionado no início do ano, que propõe um esquema de governança interfederativa. As decisões relacionadas às regiões metropolitanas (RM) devem ser tomadas de forma conjunta pelos prefeitos envolvidos, além de indicar a criação de uma organização técnica administrativa e a participação social ativa. Pretende-se diminuir a necessidade de longos deslocamentos diários ao equilibrar a distribuição de comércio, empregos, saúde e educação nas RM. “Fazer um esforço de planejamento para desenhar isso e trabalhar para que transporte, saneamento, serviços públicos e empregos sejam melhor distribuídos, em algum tempo poderemos ter revertido a atual situação”, pontuou Vicente Loureiro, Diretor Executivo da Câmara Metropolitana de Integração Governamental durante os debates.

Avenida Paulista em dia livre de carros em SP. (Foto: Mariana Gil )

A meta está diretamente ligada ao conceito DOTS – Desenvolvimento Orientado pelo Transporte Sustentável. O modelo de planejamento promove a criação de cidades compactas, de alta densidade populacional, com diversidade de usos, serviços e espaços públicos, incentivando a mobilidade sustentável e a economia local. São sete as diretrizes propostas pelo DOTS: transporte coletivo de qualidade, mobilidade não motorizada, gestão de demanda de viagens, uso misto do solo, centros ativos, espaços públicos e participação social.

Juntos, esses elementos dão forma a um complexo processo de planejamento que, na prática, transforma a realidade. “Ao implantar um sistema de BRT, por exemplo, áreas distantes passam a estar conectadas e todo o percurso entre elas, ligado por esse sistema de transporte coletivo de qualidade, desenvolve-se economicamente, atrai um fluxo maior de pessoas e torna-se mais dinâmico”, explicou Amit Bhatt, Chefe de Estratégia de Transporte Urbano Integrado da EMBARQ Índia, que liderou diversos projetos BRT.

Outra aliada na construção de cidades mais compactas, conectadas e coordenadas é a tecnologia. Crescente a cada ano, a quantidade de dados de celulares e tablets e seu baixo custo para processamento estão fomentando laboratórios urbanos digitais para melhorar as cidades. São exemplos o MobiLab, da Prefeitura de São Paulo, e o Colab, plataformas onde os cidadãos interagem com os gestores municipais, avaliam espaços públicos e propõem melhorias. A colaboração também está moldando oportunidades e alternativas inovadoras de mobilidade nas cidades. A Cidade do México, por exemplo, foi a primeira da América Latina a regulamentar o sistema de caronas, e hoje os impostos arrecadados são destinados a um fundo de apoio à mobilidade urbana. O aplicativo tem chamado a atenção de clientes em todo o mundo por combinar o serviço de deslocamento a confiabilidade, conveniência, conforto e segurança. No Brasil, assim como aconteceu em muitos locais antes de sua regulamentação, o UBER enfrenta forte resistência por parte de taxistas.

Durante a Cúpula de Prefeitos e o Congresso Internacional Cidades & Transportes, vimos que diversas cidades agiram e hoje são exemplos para mostrar que todas podem e devem ser agentes de mudança. Com visão, planejamento e ações disruptivas para alçar nossos centros urbanos e filhos a um futuro não tão distante e mais sustentável.

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