Ken Livingstone: “Prefeitos, não esperem os governos”

Ken Livingstone, ex-prefeito de Londres, durante Congresso no Rio. (Foto: Mariana Gil / WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Por Bernardo Câmara

Um dia depois de trocar experiências com gestores municipais de várias partes do mundo na Cúpula de Prefeitos, o ex-prefeito de Londres, Ken Livingstone, voltou ao auditório principal da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. Ele abriu, nesta quinta-feira (10), o Congresso Internacional Cidades & Transportes com uma palestra que já inspira pelo nome: “O poder das cidades”. E provocou: “Prefeitos, não esperem os governos. Vocês devem liderar os esforços para conseguir investimentos, para fazer com que as cidades sejam mais modernas  e atraentes para os negócios”, disse, acrescentando: “Os prefeitos podem começar o processo contra as mudanças climáticas”.

Foi o que ele fez em Londres: agiu. Assim que assumiu a prefeitura, em 2000, os empresários da cidade bateram à sua porta com um ultimato. Se ele não resolvesse os problemas de mobilidade urbana, iriam embora dali. “Nossas ruas estavam congestionadas, não tínhamos investido em transporte público e mais e mais gente estava usando carros. As pessoas não conseguiam andar, chegar a tempo em seus compromissos”, recordou.

Livingstone resolveu atacar o problema por duas frentes. De um lado, tornou o sistema de transporte público mais atraente, modernizando a frota de ônibus e tornando-a mais eficiente. De outro, seguiu uma iniciativa que Cingapura havia adotado em 1975, cobrando uma espécie de pedágio urbano para os carros que circulassem em determinadas regiões.

Após uma chuva inicial de críticas, o resultado começou a aparecer:  nos últimos 15 anos, houve um aumento de 50% no uso de transporte coletivo em Londres. As empresas não só deixaram para trás a ideia de ir embora, como outras companhias chegaram para apostar no mercado local. “Somos a única cidade da Europa que coincide com as cidades americanas em termos de competitividade”, comemorou. “Fizemos com que o setor privado pudesse explorar as oportunidades criadas por uma melhor mobilidade”.

Ao perceber que estava caminhando na rota certa, o ex-prefeito continuou indo atrás de investimentos. Em seu mandato, conseguiu bilhões de libras do governo federal para aplicar na melhoria do sistema de transporte. Ampliou a linha ferroviária, tornando-a muito mais popular, e convenceu o governo a tirar do papel uma linha de metrô que estava engavetada desde a década de 1960. “Os políticos não podem ficar adiando essas decisões. É necessário conseguir esses investimentos, que são tão importantes para as cidades”, disse.

Livingstone também lembrou que a mudança de paradigma na mobilidade urbana faz bem à saúde. “Se as pessoas deixarem de usar carro vamos melhorar a qualidade do ar. Nove mil pessoas estão morrendo em Londres por causa da poluição. Ter três vezes a taxa de óbito que tivemos em 11 de setembro é uma coisa inaceitável”, criticou.

As melhorias, ele apontou, têm reflexo na vida da população.  “Ao modernizar o sistema de transporte, a vida melhora. Tenho 70 anos, vivi sempre em Londres e nunca aprendi a dirigir. Quando era prefeito, usava metrô e ônibus: a cada dia tinha meia hora para ler quando ia trabalhar. Quando não estou dirigindo posso usar esse tempo para fazer algo produtivo”, sugeriu.

E frisou que as transformações são necessárias não só para esta, mas para as gerações que estão por vir. “Fazer com que as pessoas usem transporte público é tão importante quanto fazer nossos prédios eficientes em termos de energia”, comparou. E fechou sua palestra convocando mais uma vez os prefeitos a agirem. “Não vamos esperar os governos. Reduzam as emissões de carbono. Vamos dar aos nossos filhos e netos a qualidade de vida que eles não têm a chance de alcançar se não for através de nossos esforços”.

 


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Acompanhe o Congresso:

Entre 10 e 11 de setembro, o Congresso Internacional Cidades & Transportes traz grandes temáticas como mobilidade e transporte; resiliência, vulnerabilidade e adaptação; desenvolvimento urbano sustentável; políticas públicas inovadoras; equidade econômica; novas tecnologias, entre outras, em mais de 30 sessões.