#CTBR2015: Pensando as cidades para pessoas

Foto: Mariana Gil / WRI Brasil Cidades Sustentáveis

Para o urbanista dinamarquês Jan Gehl, existem três tipos de cidade. A tradicional, focada em torno do fator humano; a invadida, moldada pelo automóvel; e a reconquistada, simbolizando a retomada do espaço pelas pessoas. Conceitos que instigam a reflexão sobre o ambiente urbano, as consequências de décadas de desenvolvimento voltado ao transporte individual motorizado e como será o futuro urbano. Quem lançou este pensamento foi Suzy Balloussier, Diretora de Relações Institucionais, Consórcio BRT Rio, que moderou o painel Cidades Pensadas para as Pessoas, nessa manhã no Congresso Internacional Cidades & Transportes.

O debate reuniu Ani Dasgupta, Diretor Global do WRI Ross Centro para Cidades SustentáveisAlexandros Washburn, Diretor do Centro para a Resiliência Costeira e Excelência Urbana (CRUX) do Stevens Institute of TechnologyMarina Klemensiewicz, Secretária de Habitação e Inclusão de Buenos Aires; Ricardo Montezuma, Diretor da Fundación Ciudad Humana; e representantes da cidade de Chihuahua, México.

As cidades têm cinco mil anos, passaram por fases de conquista do automóvel, reconquista do espaço e são o futuro lar para a maior parte da população mundial. “Como fazer cidades para pessoas?”, questionou Suzy ao abrir os debates.

Oportunidades mais perto das pessoas

Como secretária de habitação de Buenos Aires, uma das responsabilidades de Marina Klemensiewicz é trabalhar com os assentos informais. Na capital argentina, são localizados na Zona Sul, parte mais pobre da cidade. “Começamos um trabalho para solucionar a fragmentação e as desigualdades nessa região. O primeiro passo foi questionar quais eram as demandas dos moradores, e descobrimos que queriam, em primeiro lugar, transporte público; segundo, acesso a espaços públicos de qualidade”, explicou.

Numa operação bem sucedida, a cidade levou o BRT Metrobus à periferia, bem como praças e mobiliário urbano. O desafio, contudo, foi quando a população começou a usar esses espaços como estacionamento. “Construir o consenso para que as pessoas desfrutassem de espaços públicos foi trabalhoso. São mudanças que demandam governos que incentivem bicicleta, mobilidade sustentável”, avaliou.  Segundo Marina, uma cidade igualitária, com qualidade de vida, talvez não demande apenas a implantação de infraestrutura de transporte, e sim um processo de descentralização, que leve serviços como hospitais e escolas à população.

O que as cidades levarão para o futuro?

Nos últimos 15 anos, a América Latina passou por tentativas interessantes para melhorar o espaço público. Um exemplo é Bogotá, onde o ex-prefeito Enrique Peñalosa implantou corredores de ônibus, ciclovias, baniu o estacionamento nas vias públicas. “O que ele fez foi espetacular, e se fosse reeleito hoje poderia fazer ainda melhor. Mas as pessoas não votam nele”, lamentou Ricardo Montezuma, ao fazer uso da palavra. “Todos aqui nesta sala concordam que precisamos mudar a lógica das cidades. O problema é externo, está em quem não vota em Peñalosa, quem não concorda com a cidade centrada no fator humano”, provocou o especialista.

Montezuma defende que os políticos lidam com a questão urbana de forma irresponsável e permanecem impunes.  Cidades deveriam ter espaços públicos, fornecer serviços de qualidade para as pessoas. “O que levaremos para o futuro? Se as cidades permanecerem como estão , o futuro será um desastre. Se queremos uma boa cidade para viver, precisamos frear aspectos que as tornam ruins”, alertou.

Nova York: planejamento guiado pela perspectiva do pedestre

Quando trabalhou ao lado do então prefeito Michael Bloomberg, em Nova York, o arquiteto Alexandros Washburn teve a oportunidade de colocar em prática seus ideais de cidade. Com orgulho, ele lembrou o trabalho de sucesso que fez da megalópole uma referência em ambiente planejado para as pessoas. “Basta andar em Nova York para perceber que a cidade é feita pelos nova-iorquinos, não pelos carros. É uma abordagem que molda a cidade não a partir do ponto de vista do parabrisa de um carro, mas do cidadão comum”, afirmou.

Por definição, a palavra pedestre pode significar aquele que anda, mas, em Nova York, significa “fabuloso” e “extraordinário”. “Quando falamos sobre projetar cidade, quero que o mundo pense sob diferentes perspectivas. A perspectiva urbana é a interface com o usuário da via. Você aceitaria um celular ruim, feito? O mesmo se aplica à cidade”, refletiu. É preciso pensar a cidade do ponto de vista da fachada dos prédios, do calçamento, das árvores – sob a perspectiva do pedestre. Por fim, defendeu que espaços públicos só geram confiança quando são acessíveis a todas as pessoas. “Meu prazer é lutar pelos espaços públicos e pela igualdade para os pedestres. E fico extremamente feliz cada vez que eu ando pelas ruas de Nova York”, finalizou.

As cidades precisam mudar pelas pessoas

Para o Diretor Global do WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis, Ani Dasgupta, cidades inclusivas produzem riqueza para todos. Além disso, são mais amigáveis com o clima, trazem qualidade de vida, tempo par as pessoas. “O que acontece em locais onde as pessoas são jogadas para fora da cidade? Há mais deslocamentos motorizados, mais poluição, mais insegurança para os cidadãos e exclusão social”, provocou. Ele convidou os presentes a pensarem numa cidade inclusiva, com transporte público e infraestrutura para caminhada e bicicleta para todos. “Cidades produzem 75% dos gases de efeito estufa no mundo, e a solução para os problemas está nas cidades”, pontuou.

Os desafios urbanos para cidades sustentáveis são o foco do trabalho do programa de cidades do WRI. Liderando um time de mais de 200 especialistas em vários países, Dasgupta é otimista quanto ao futuro, em especial por duas razões. “Uma é que as cidades passaram a ser reconhecidas como protagonistas da ação climática, sendo convidadas a grandes debates como a COP21 em Paris. Segundo, que a história mostra que é possível transformar cidades, a exemplo de Copenhague, há 30 anos centrada no carro e hoje referência em mobilidade sustentável”, explicou, lembrando que Amsterdã tomou a decisão política em mudar sua lógica. “É um trabalho árduo, demorado e, se feito em conjunto, pode ser ainda mais rápido”, concluiu.

Decidindo com e para pessoas

O diretor de Desenvolvimento e Ecologia de Chihuahua, no México, Guillermo Humberto Monarrez Vota, destacou o papel que a cidadania desempenha na construção de cidades justas. “A estratégia em nossa cidade é incluir o cidadão na tomada de decisão, colocando os prós e contras de cada projeto proposto. Cada decisão que tomamos tem envolvimento cidadão e, assim, estamos num caminho para construir uma cidade melhor”, finalizou.

 


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Acompanhe o Congresso:

Entre 10 e 11 de setembro, o Congresso Internacional Cidades & Transportes traz grandes temáticas como mobilidade e transporte; resiliência, vulnerabilidade e adaptação; desenvolvimento urbano sustentável; políticas públicas inovadoras; equidade econômica; novas tecnologias, entre outras, em mais de 30 sessões.

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