Fronteiras do Pensamento: o individualismo e a ‘desurbanização’ das cidades

Debate aconteceu nesta segunda-feira, em Porto Alegre. (Foto: Diogo Pires Ferreira | EMBARQ Brasil)

Concebido em 2006, o Fronteiras do Pensamento vem se consolidando a cada ano como um evento de referência devido a sua magnitude, a participação de renomados intelectuais contemporâneos e a qualidade de seus debates. Na edição deste ano, o Fronteiras do Pensamento traz a temática Como viver juntos, e convida pensadores internacionais de diversos campos do conhecimento para debater as formas de cooperação e solidariedade da nossa sociedade.

A conferência desta segunda-feira (24), em Porto Alegre, contou com a presença da socióloga holandesa Saskia Sassen, professora da Universidade de Columbia, conhecida por suas análises sobre o capitalismo globalizado, migração urbana e impacto das tecnologias nas formas de comunicação e de governo, responsável pela popularização do termo “cidades globais”. Saskia dividiu o palco com o seu marido, o sociólogo e historiador Richard Sennett, natural dos Estados Unidos, professor da Universidade de Nova York e da London School of Economics, que trabalha com temas como espaços públicos, corpo, trabalho e sociedade, e é considerado um dos maiores sociólogos urbanos da atualidade.

Sennett, que analisa a sociedade a partir da perspectiva social do indivíduo, iniciou a noite falando sobre uma inquietação sua a respeito do porque as pessoas não se rebelam frente às crises e situações adversas, e cita como exemplo a crise financeira de 2007-2008. Segundo o sociólogo, as pessoas já não se rebelam mais, pois deixaram de acreditar na cooperação e perderam a fé nas ações colaborativas, “A ideia de que preciso do outro para viver, de que é importante fazer parte de um grupo, tudo isso está desaparecendo”, afirmou.

Richard Sennet. (Foto: Diogo Pires Ferreira / EMBARQ Brasil)

Esse desaparecimento dos laços e das relações de interdependência ocorre por motivos que o autor considera estruturais. A nova economia, de caráter neoliberal, enfatiza e estimula a relação de autonomia e de concorrência, associando à ideia de que apenas pessoas fracas colaboram entre si e precisam de solidariedade, uma vez que os vencedores vencem por conta própria. Nesse sentido, a construção das relações e vínculos sociais vem perdendo para a ideologia da autonomia e essa é uma característica da nossa sociedade atual.

Ao analisar o que devemos fazer para superar essa situação, Sennett reflete que não se trata de um problema abstrato, e sim concreto de necessidade de superar a ideologia que argumenta que a cooperação está em conflito com a competição, o que tornaria a cooperação impossível na atual sociedade. A cooperação e a competição devem ocorrer ao mesmo tempo, enquanto um processo contínuo e não um meio para se atingir um fim.

Saskia Sassen chama atenção para outro aspecto­: a interdependência e a conectividade que existem dentro do sistema capitalista global e vêm se ampliando, ao contrário do que ocorre hoje com as relações sociais, abordados por Sennett. Segundo a socióloga, essa interdependência estabelecida é predatória, pois essas relações ocorrem não por um sentido de cooperação e, sim, de maximização dos ganhos individuais de investidores que, muitas vezes, não possuem relação alguma com o território onde concentram seus investimentos.

Segundo ela, esse sistema, representado pelas grandes corporações, está comprando propriedades nas maiores e mais valorizadas cidades do mundo, o que poderia vir a representar a decadência das cidades devido à perda de identidade e coesão social. As corporações possuem, no contexto atual de globalização, o domínio da produção e da exploração, maximizando seus lucros.

Saskia Sassen. (Foto: Diogo Pires Ferreira / EMBARQ Brasil)

A lógica desse modelo acaba por se refletir nas cidades que vivemos e estão sendo produzidas. Para Saskia, os megaprojetos eliminam todas as características da cidade, os elementos diversos e atrativos, as pequenas ruas, comércios, residências, independente da tipologia ou densidade adotada, o que ela vai chamar de “desurbanização do espaço urbano”.

“Quando você constrói um megaprojeto, está introduzindo rigidez no tecido urbano, perdendo um dos aspectos mais interessantes de uma cidade viva, que é o contato entre pessoas de variadas culturas e procedências” – Saskia Sassen

Apesar de problematizarem as cidades a partir de diferentes perspectivas, os autores concordam que o atual modelo de cidade, dominado pelas corporações e direcionado por megaprojetos, reduzem a vitalidade dos espaços urbanos, a capacidade de interação dos sujeitos e dissolvem o tecido urbano, ao qual se referia Sennett.

Os autores não apresentam respostas, mas sim questionamentos que nos fazem refletir sobre os rumos que a atual reprodução do modelo urbano está nos levando. Saskia defende  a valorização dos pequenos projetos e da construção de novas cidades, formadas por centros urbanos de pequeno porte, com vida comunitária desenvolvida.

Vivemos em um mundo em que a nossa economia e nossas cidades mudam a nossa formação social e individual. O tipo de cidade que produzimos ou que queremos está diretamente relacionado com o tipo de pessoas que somos ou queremos ser.

Foto: Diogo Pires Ferreira / EMBARQ Brasil