Jaime Lerner: “Inovar é começar”

(Foto: Divulgação)

Prefeito de Curitiba três vezes, Jaime Lerner transformou a cidade em referência de transporte coletivo de qualidade. Na década de 70, Lerner criou uma nova modalidade de transporte, os corredores prioritários de ônibus, mais baratos do que o metrô, mas com eficiência semelhante.

Jaime Lerner estará presente na Cúpula de Prefeitos, em 9 de setembro, no Rio de Janeiro. O evento, que reunirá centenas de prefeitos, quer inspirar gestores a enfrentarem os obstáculos da administração pública com criatividade para melhorar a qualidade de vida nas cidades.

A Cúpula de Prefeitos faz parte das comemorações  de 10 anos da EMBARQ Brasil (produtora deste blog) que também irá realizar o Congresso Internacional Cidades & Transportes, dias 10 e 11 de setembro, com inscrições abertas. Mais de 80 palestrantes irão participar de conversas interativas com o público e compartilhar ideias e projetos de sucesso na construção de soluções inovadoras para as cidades. Se você se interessa pelo assunto e quer agir na construção de cidades para todos, inscreva-se em cidadesetransportes.org.

Confira a entrevista exclusiva que fizemos com o ex-prefeito:

O senhor foi o grande criador do sistema prioritário de ônibus em Curitiba. Atualmente foram inaugurados sistemas BRT no Rio, Belo Horizonte e Brasília. Mais de 200 projetos de sistemas prioritários ao ônibus estão em andamento no Brasil, além de estarem presentes em mais de 190 cidades do mundo. Qual é a sua sensação ao ver esses sistemas se espalharem pelo Brasil e pelo mundo?

Jaime Lerner – Eu me sinto gratificado e desafiado a cada vez fazer essa ideia evoluir porque nós temos que avançar. Identificar o sistema, criar cada vez mais redes. Acho que isso é um passo que precisa acontecer assim como a evolução do veículo, para que a qualidade do transporte público seja cada vez melhor.  Algumas cidades já estão fazendo isso bem,  outras nem tanto. No final, o conceito de dar prioridade ao transporte público é essencial.

O senhor sempre menciona que não são necessárias grandes quantias de dinheiro para alterar profundamente as cidades. Quais iniciativas o senhor destacaria nesse sentido? Quais cidades já conseguiram se transformar completamente com pouco dinheiro?

JL – Bons exemplos são as cidades de Bogotá, Cidade do México, Seul, Istambul e o Rio, que está começando agora. A tendência é que as inovações não se restrinjam só às pistas exclusivas. Temos um grande caminho a avançar. Entregar um transporte de qualidade para a população sem sacrificar gerações inteiras, com um sistema de mais baixo custo é muito importante. É fundamental que as coisas aconteçam com rapidez, porque inovar é começar, é abrir caminhos.

O que o senhor aprendeu de mais importante como prefeito? 

JL – O que eu aprendi é que o processo de planejamento é uma trajetória onde você tem um objetivo, mas tem que deixar espaço para que a população te corrija quando você não está no caminho certo. Então o importante é começar. Começar e cada vez mais aperfeiçoar. Inovar é começar.

Quais foram as maiores barreiras enfrentadas para fazer com que projetos inovadores à época saíssem do papel?

JL – Sempre foi a reação às coisas novas. Essa reação é normal. É importante começar porque na medida em que aqueles que resistem às novas propostas, na hora em que eles começam a ver o efeito demonstração de uma linha ou de um projeto, eles começam a passar para o seu lado, eles começam a entender a importância. Quanto maior a barreira, maior o apoio depois, quando eles estão convencidos de que este é o caminho certo.

Como o senhor imagina as cidades do futuro? 

JL – Eu acho que as cidades do futuro não vão ser uma paisagem como a do Flash Gordon ou como a do Blade Runner porque fisicamente a cidade de hoje não é muito diferente das cidades de 300 anos atrás. O que mudou muito foi a relação dos geradores de emprego. Hoje, eles são em menor escala, aumentaram muito as áreas de serviço, as indústrias são menores e podem ficar mais próximas à moradia. Essa é uma mudança muito importante. Outra coisa é que a cidade do futuro não pode ser uma cidade dependente do automóvel, que vai deixar de ser o principal modo na mobilidade em uma cidade. O automóvel é o cigarro do futuro. É claro que você vai continuar tendo carro, mas a maneira de usar o carro vai ser diferente. Você vai ter o seu carro para viagem, para o lazer, mas no dia-a-dia de uma cidade, você vai ter que depender mais de um bom transporte público e da combinação de vários modais.

Qual é a frase ou ideia que o senhor gostaria de espalhar pelo mundo?

JL – Se você quer criatividade, corte um zero do orçamento; se você quer sustentabilidade, corte dois zeros do orçamento; se você quer solidariedade assuma a sua identidade e respeite a identidade dos outros.