Nossa Cidade: O papel da bicicleta nas comunidades

 

O projeto Nossa Cidade, do TheCityFix Brasil, explora questões importantes para a construção de cidades sustentáveis.

A cada mês um tema diferente.

Com a colaboração e a expertise dos especialistas da EMBARQ Brasil, as séries trazem artigos especiais sobre planejamento urbano, mobilidade sustentável, gênero, resiliência, entre outros temas essenciais para um desenvolvimento mais sustentável de nossas cidades.

 

O papel da bicicleta nas comunidades

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil | EMBARQ Brasil)

Os morros do Rio de Janeiro têm uma vista de tirar o fôlego, mas a infraestrutura ainda é precária. As barreiras invisíveis que os separam da cidade, contudo, não ocultam alguns problemas em comum. Um deles é a acessibilidade, mesmo que sua topografia seja naturalmente íngreme – o que não acontece em todas as cidades. Ainda assim, mais da metade dos deslocamentos dentro das comunidades cariocas é feita por bicicleta.

Parece improvável, mas a magrela está presente em um terço das residências das comunidades, representa 57% das viagens e supera, de longe, o índice em toda a região metropolitana do Rio, onde apenas 2,4% dos deslocamentos correspondem à bike.

Basta olhar para as ruas. A trabalho ou lazer, a bicicleta um grande componente da mobilidade sustentável na favela. Além disso, também é forte elemento da identidade cultural dos moradores – daí a importância em favorecer e incentivar seu uso. O grande desafio é encontrar soluções de transporte e desenho urbanístico que superem as condições topográficas das comunidades a fim de oferecer melhores condições de mobilidade e acessibilidade para todos.

Nesse sentido, o programa Morar Carioca (Plano Municipal de Integração de Assentamentos Precários Informais) descobriu que a maioria das comunidades no Rio de Janeiro é urbanizável por possuir características de assentamento consolidado, seguindo critérios da Lei da Regularização Fundiária Urbana. Implantar, realocar e reformar unidades habitacionais nesses locais, contudo, implica na qualificação da infraestrutura para a circulação.

As estreitas e sinuosas ruas das favelas não são favoráveis à implantação de um sistema de transportes igual ao da cidade formal, tampouco condizem com a identidade da população, que aprecia e quer permanecer em seu bairro. As intervenções de melhoria nas comunidades devem ocorrer, até a interface com a cidade formal, criando conectividade entre ambas as realidades.

Para preencher essa lacuna, o WRI Brasil | EMBARQ Brasil lançou, no ano passado, o Manual de Projetos e Programas para Incentivar o Uso de Bicicletas em Comunidades. Patrocinado pela Bloomberg Philanthropies, ele foi desenvolvido para promover o uso da bicicleta de forma segura e saudável. Reunindo um conjunto de informações técnicas, o manual serve se apoio para o programa Morar Carioca, cuja meta é reurbanizar as comunidades do Rio de Janeiro até 2020.

A publicação traz diretrizes técnicas nos seguintes eixos:

  • Infraestrutura
  • Educação
  • Incentivo
  • Fiscalização
  • Promoção da equidade

A publicação foi feita para apoiar o Morar Carioca, mas também é aplicável a outras regiões. “Por trazer experiências internacionais e referências de base do Rio, o manual pode ser utilizado por qualquer cidade brasileira, basta algumas adaptações ao plano diretor de cada município. O objetivo desse manual é que as pessoas pedalem mais. Trazendo-as  para as bicicletas, podemos evitar a migração para outros modais menos seguros, como a motocicleta, por exemplo”, explica Paula Santos da Rocha, coordenadora de Projetos de Transporte e Acessibilidade da EMBARQ Brasil e uma das autoras do guia.

O manual abrange bastante conteúdo técnico, para as cidades tornarem boas diretrizes em realidade. Mas, de forma ilustrativa e didática, contém ideias inspiradoras sobre como incentivar e facilitar o acesso da população à magrela. Válidas para prefeituras e organizações que querem colocar a mão na massa. Alguns exemplos:

GANHE UMA BICICLETA

(Foto: Mariana GIl/WRI Brasil | EMBARQ Brasil)

É um programa com uma série de variações, sempre com uma premissa básica: bicicletas doadas ou descartadas são coletadas, remontadas e viram novas. Quando alguém precisar de uma nova bike, pode ser um voluntário no processo de reformas e, ao fim, ganha a sua. Uma das ideias é uma experiência educacional para jovens estudantes. Por um ano, eles ganham uma bicicleta emprestada e recebem lições sobre responsabilidade (manutenção e cuidado), saúde e transporte. Tudo valendo nota – se o boletim for bom, o aluno mantém o veículo. Outra é o Recicleta, do governo estadual fluminense, cuja ideia é reciclar as bikes velhas, e é aplicado à pessoas de baixa renda e também em algumas escolas penitenciárias como forma de treinamento aos presos – uma oportunidade de reintegrá-los à sociedade após a reclusão.

BICICLETA A DOMICÍLIO

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil | EMBARQ Brasil)

Pedalar ladeira acima não é sempre uma opção acessível a todos. Para áreas íngremes, é possível que as pessoas pedalem na ida ao destino, mas, ao fim do dia – ou várias vezes ao dia – peguem a bike em pontos pré-determinados. Elas podem ser transportadas por funcionários, em caminhões ou por sistema de cabos. É um sistema semelhante ao compartilhamento de bicicletas, mas elas podem ser privadas ou não. E não é preciso construir uma infraestrutura nova em folha, ou criar algo engenhoso. As bikes podem ficar em prédios ou serviços comunitários já existentes, por exemplo.

MENSAGEIRO CICLISTA

O correio por bicicleta já é prática comum em bairros como Copacabana e Leblon, e também pode ser realizado nas comunidades. São serviços bem sucedidos, uma vez que as bikes são capazes de transitar de forma mais eficiente que veículos motorizados. Também têm mais facilidade para estacionamento. Os mensageiros ciclistas podem entregar itens pequenos, mas também volumosos que podem ser acoplados à bike, como caixas e pacotes. Pode ser coordenado por uma entidade ou um indivíduo.

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