Tornando as cidades mais seguras através do design

Interseção em São Paulo. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil | EMBARQ Brasil)

As colisões no trânsito atingem 1,28 milhões de pessoas todos os anos. Se melhorias em segurança viária não forem feitas, serão a quinta maior causa de mortes no mundo até 2030. O impacto dessas colisões concentra-se desproporcionalmente nas cidades do mundo em desenvolvimento, onde ocorrem 90% de todas as mortes nos países de baixa e média renda. Apenas em São Paulo, mais de 1,3 mil pessoas morrem no trânsito anualmente; em Delhi, Índia, mais de 1,5 mil.

Enquanto os usuários da via vêm historicamente sendo vistos como responsáveis por esses números chocantes, a responsabilidade também deve recair sobre quem desenha o sistema viário e sobre tomadores de decisão nas cidades. Relatório do World Resources Institute (WRI) lançado nesta quinta-feira (23), Cities Safer by Design (Cidades Mais Seguras Através do Design, em tradução livre), mostra como alguns princípios básicos de design podem salvar vidas nas vias urbanas.

À medida que a população urbana cresce, com mais pessoas utilizando carros, o risco aumenta para os mais vulneráveis nas ruas: pedestres, ciclistas e motociclistas. A Década de Ação pela Segurança Viária, das Nações Unidas, tem chamado atenção para este problema.

Mirando no zero

Para reduzir as colisões de forma efetiva, é preciso perceber que a melhoria da mobilidade urbana não deve vir com o sacrifício da vida e saúde humana. O número ideal de vidas perdidas e pessoas gravemente feridas nos acidentes de trânsito é zero.

Também é preciso reconhecer a fragilidade humana enquanto usuários das vias e a vulnerabilidade às colisões. Essa combinação fatal custa mais de um milhão de vidas por ano e sujeita milhões de pessoas à pobreza.

Um passo importante para reduzir as colisões de trânsito é mudar a mentalidade sobre eles. Esta é a ideia central da Visão Zero, uma política da Suécia que visa reduzir sérios acidentes de trânsito a zero, e tem apresentado os melhores resultados desde o início em 1997. A ideia é simples: o ser humano erra, mas o sistema viário não pode errar. Em vez de trabalhar para mudar o comportamento das pessoas, o Visão Zero atua nos falhas de design que tornam as vias inseguras. Assim, as estradas e ruas urbanas mais perigosas do país foram redesenhadas para reduzir a velocidade do veículo e proteger pedestres e ciclistas. Hoje, o índice de óbitos de trânsito em Estocolmo é 0,7 por 100 mil habitantes, que está entre os mais baixos no mundo.

A Holanda seguiu um curso similar, construindo infraestrutura nacional para desacelerar veículos e proteger usuários vulneráveis nas vias. Em 1975, o índice de mortes era 20% maior que nos Estados Unidos; mas, em 2008, 60% menor. Hoje, as vias holandesas estão entre as mais seguras do planeta.

Compartilhando a responsabilidade da segurança no trânsito

Porque os seres humanos falham, com velocidades imprecisas e corpos extremamente vulneráveis às forças de uma colisão, os usuários da via não têm capacidade de suportar toda a responsabilidade pelos acidentes de trânsito. É preciso que tomadores de decisão, especialmente urbanistas, engenheiros de tráfego e de transportes estejam preparados para projetar ambientes seguros, capazes de reduzir os riscos para os moradores.

Infelizmente, as ruas em muitas cidades em desenvolvimento não são desenhadas para a segurança. Longas distâncias de travessia, longos quarteirões e engenharia de tráfego precária geram fluxos complexos, tornando as ruas mais perigosas. Uma infraestrutura melhor pode promover mais caminhada, pedalada e acesso ao trânsito mais seguro.

Recomendações baseadas em evidência

Enquanto a Década de Ação da ONU apela por vias mais seguras e mobilidade, faltam ferramentas para que as cidades implementem um design melhor nas vias urbanas. Um relatório do WRI, Segurança Viária em Corredores de Ônibus, oferece diretrizes técnicas. O novo relatório, Cities Safer by Design, traz recomendações para as ruas e bairros da cidade.

O relatório engloba medidas que podem reduzir velocidades das vias e conflito de tráfego, tornando a caminhada, pedalada e acesso ao transporte e espaços públicos mais seguro. Ele introduz princípios de design, benefícios em segurança, sugestões de aplicação e evidências para cada medida. Também utiliza desenhos e figuras de casos reais para ilustrar cada elemento de design e sua aplicação no contexto.

Evidências sugerem que estas medidas têm potencial para melhorar a segurança viária. Por exemplo, as lombadas, que são dispositivos fáceis para acalmar o trânsito, podem desacelerar os veículos, portanto reduzir a quantidade de feridos em 50% e reduzir o tráfego em cerca de 25%. Encurtar distâncias de traverria, tanto ao estreitar ruas ou adicionar medianas ou ilhas de refúgio, pode reduzir a exposição do pedestre ao tráfego. Cada metro reduzido por reduzir colisões envolvendo pedestres em 6%. Ciclovias bem projetadas devem ter segregação física que proteja ciclistas do tráfego, e a largura deve permitir um tráfego confortável sobre duas rodas. A criação de ciclovias protegidas em Nova York resultou em 63% menos colisões e ferimentos de todos os tipos.

Cidade mais segura, melhor qualidade de vida

Uma cidade mais segura através do design não apenas salva vidas, mas melhora a qualidade de vida, demonstrando forte conexão entre segurança e prosperidade. Um ambiente favorável à caminhada, pedalada e transporte público melhora a qualidade do ar e encoraja a atividade física e desenvolvimento econômico ou fomentar atividades comerciais no nível da rua. Um design urbano melhor pode construir cidades mais seguras, saudáveis e vibrantes.

Hoje, muitas cidades no mundo em desenvolvimento enfrentam uma escolha difícil entre um futuro repleto de carros, poluído e perigoso ou um futuro ativo, saudável e seguro. Cities Safer By Design oferece diretrizes para ajudar cidades a fazer escolhas que beneficiam os moradores pelo globo.

Para saber mais sobre como o desenho urbano pode tornar as cidades mais seguras, leia a publicação Cities Safer by Design aqui.

Originalmente publicado em inglês no TheCityFix.