A importância dos dados para salvar vidas no trânsito

(Foto: Pedro França/Agência Senado)

Nenhum problema é solucionado quando as causas são desconhecidas, muito menos o trânsito brasileiro, quarto mais fatal do mundo conforme a Organização Mundial da Saúde. Embora o número de vítimas seja contabilizado, faltam processos claros e eficazes de apuração para identificar o que leva a esta verdadeira epidemia no país.

O Código de Trânsito Brasileiro determina a unificação da coleta de informações dos acidentes, prática ainda não adotada nas cidades brasileiras. Atualmente, os registros feitos nas delegacias de polícia, por meio do Boletim de Ocorrência (BO), ou no local do acidente, têm foco na busca por culpados, não contendo todas as informações necessárias à compreensão dos acidentes.

Para lançar luz aos dados de um trânsito que ceifou a vida de 44,8 mil pessoas em 2012 e vitimou 1,1 milhão por invalidez permanente de 2010 a 2013, foi criado o “Método para Análise de Acidentes de Trânsito com a Identificação de Fatores Causais”, que propõe um diagnóstico preciso dos acidentes. Ele inclui o Formulário de Vistoria de Acidentes de Trânsito – FVAT, cuja finalidade é fazer uma apuração abrangente e in loco.

As questões para explicar o que leva condutores a cometer falhas e imprudências vão além de ‘quem, como e onde’. É preciso analisar o perfil dos envolvidos, características dos veículos e do ambiente viário, como condições de pavimento, sinalização, condutas que induzem a erros humanos, como manobras e ultrapassagens, entre outros. Estes fatores, imprescindíveis para compreender as ocorrências, são apurados pelo FVAT, que combina aspectos quantitativos e qualitativos e está alinhado às melhores práticas internacionais em segurança viária.

Com o diagnóstico, é possível recriar o cenário do acidente em detalhes. O registro é rápido, leva 18 minutos em média, com questões de simples escolha. O banco de dados criado a partir destas informações ajuda a entender as causas dos acidentes de trânsito e, a partir desta análise, a embasar a formulação de estratégias para evitar sua reincidência.

A partir da aplicação piloto do FVAT, em Belo Horizonte, foi possível descobrir elementos e aspectos que de outra forma permaneceriam ocultos. Por exemplo, acidentes envolvendo motocicletas revelaram distrações e falhas de percepção do ambiente urbano por parte dos condutores, distâncias incompatíveis entre veículos e velocidades inadequadas.

Com o FVAT, técnicos e tomadores de decisão têm uma ferramenta onde suposições são substituídas por informações precisas. A propósito, o Rio está planejando aplicar uma adaptação do método, específica para registrar os acidentes envolvendo sistemas de ônibus de alta capacidade. Essa versão engloba o levantamento de características como proximidade de pontos de embarque e desembarque ou estações, interior de terminais, entre outras. No transporte coletivo por ônibus, evitar acidentes significa também prevenir atrasos, interrupções da operação e aumentar a qualidade do serviço ofertado.

Em plena metade da Década de Ação pela Segurança no Trânsito da ONU, que se estende até 2020, ferramentas como essas podem contribuir para que o Brasil decaia da incômoda quarta posição na lista dos países que mais matam no trânsito.

Artigo publicado na coluna Embarque Nessa Ideia, da Revista NTU Urbano, Mai/Jun 2015.