Nossa Cidade: cidades pela ação climática

Edição Especial: Nossa Cidade + #CTBR2015

O projeto Nossa Cidade, do TheCityFix Brasil, explora questões importantes para a construção de cidades sustentáveis.

Mudanças Climáticas são um dos temas abordados no Congresso Internacional Cidades & Transportes. O encontro, nos dias 10 e 11 de setembro no Rio de Janeiro, reunirá gestores públicos e especialistas que desenvolvem projetos em temáticas-chave para moldar o futuro das nossas cidades – clima, mobilidade, segurança viária, governança, entre outros.

Até lá, o Nossa Cidade traz edições especiais para aprofundar o debate nestes importantes temas. Acompanhe!

Cidades pela ação climática

Este post foi escrito com a colaboração de Magdala Arioli, coordenadora de Projetos de Transporte e Clima da EMBARQ Brasil. 

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Mudanças climáticas são o grande desafio da nossa era e, embora necessitem de ações holísticas, contam com grande aliado: cidades. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil | EMBARQ Brasil)

As mudanças climáticas deixaram de ser exclusivamente objeto científico e passam cada vez mais a entrar nos noticiários e rodas de conversa. Nas duas últimas semanas, pelo menos 1,2 bilhão de católicos, além de pessoas de todas as crenças pelo mundo, ouviram sobre a Encíclica ambiental lançada pelo Papa Francisco em apelo ao desenvolvimento de baixo carbono. Em setembro, a pauta também será discutida no Congresso Internacional Cidades & Transportes, no Rio de Janeiro.

A ação é agora. Em dezembro deste ano, a Conferência do Clima de Paris, COP21, vai estipular a nova meta climática para as nações globais, num acordo para substituir o Protocolo de Kyoto em 2020. O Brasil sinalizou, ontem, o que poderá apresentar na capital francesa. Dilma Rousseff anunciou, ao lado de Barack Obama, acordo bilateral para a atuação climática, com metas como a inclusão de 20% de fontes renováveis na matriz energética brasileira, o fim do desmatamento ilegal até 2030 e a cooperação acadêmica entre Brasil e Estados Unidos para pesquisas na área.

O bom caminho que o Brasil percorreu nos últimos anos é animador. Há cinco anos, o país assumiu o compromisso voluntário de reduzir suas emissões entre 36,1% e 38,9% até 2020, e a curva de emissões esteve em  declínio entre 2004 e 2012. Além disso, mais da metade da redução global em emissões de carbono nos últimos 15 anos veio do Brasil, graças à desaceleração do desmatamento florestal.

Contudo, estimativas do Observatório do Clima indicam que o país não manterá os bons resultados, e nem mesmo o acordo com Obama será suficiente para manter a curva em declínio.

Embora as mudanças climáticas necessitem de um conjunto de ações em todos os setores e mudanças comportamentais para mitigar as emissões, existe um grande aliado que pode ajudar nesse processo: as cidades.

Como as cidades podem agir

As cidades são organismos vivos, em constante transformação e abrigam mais da metade da população mundial. Lar para bilhões, áreas urbanas ocupam somente 2% do território terrestre, mas respondem por 70% da emissão de gases de efeito estufa (GEE).

Por isso, ações localizadas são tão importantes e dependem tanto dos gestores municipais quanto dos cidadãos.

Mas por onde começar? O Observatório do Clima indica que as emissões de GEE vão aumentar em alguns setores, em especial no de energia – cuja principal fonte emissora é o uso de combustíveis fósseis do setor de transportes. No Brasil, o setor foi responsável por 46,9% das emissões associadas à matriz energética.

Os números refletem a realidade das ruas brasileiras, em maioria congestionadas. A demanda por transporte é predominantemente rodoviária – com 91,6% do consumo energético em 2012 – e depende majoritariamente do petróleo – 82,8% do consumo em 2012. Veja no gráfico (clique para ampliar):

Fonte: Análise da evolução das emissões de GEE no Brasil (1990-2012) Setor de energia – SEEG, Observatório do Clima, 2014

A ação focalizada em transportes é uma oportunidade para que as cidades reduzam seus índices de emissões. À frente desse processo, governos e cidadãos devem trabalhar juntos para conquistar bons resultados.

A estratégia “evitar-mudar-melhorar” pode ser um bom começo para pensar na questão: evitar viagens motorizadas desnecessárias; mudar o deslocamento individual motorizado pelo sustentável; e melhorar as políticas públicas para que os sistemas de transporte sejam mais eficientes em termos de consumo energético.

As cidades podem qualificar a infraestrutura e a qualidade do serviço ofertado em transporte sustentável, criar políticas de desestímulo ao transporte individual motorizado e de incentivo às tecnologias mais eficientes em termos energéticos para seus sistemas de transporte.

Cidades brasileiras a caminho da mudança

A mitigação de emissões dos transportes requer compromissos de longo prazo. Algumas iniciativas brasileiras ilustram como é possível superar os obstáculos sociais e econômicos para promover o desenvolvimento de baixo carbono no setor.

Em Brasília, ações conjuntas como a modernização da frota de ônibus do transporte coletivo, o início das operações do sistema BRT (Bus Rapid Transit) e a reestruturação das linhas de ônibus reduziram emissões de poluentes locais prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente. Análise do WRI Brasil | EMBARQ Brasil mostrou que com os ônibus de tecnologia Euro5, movidos a diesel de baixo teor de enxofre, o material particulado foi reduzido em 95%, o equivalente a 95 toneladas por ano. Os positivos impactos da renovação também se devem à idade média da antiga frota, que era alta.

Com a plena implementação do sistema BRT e as linhas mais eficientes, o potencial de redução das emissões de GEE pode chegar a 55%, equivalente a 200 mil toneladas por ano.

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil | EMBARQ Brasil)

Com 11,8 milhões de habitantes, outra cidade que vem assumindo liderança em políticas de fomento ao transporte sustentável é São Paulo.  A megalópole está investindo na implementação de ciclovias e corredores de ônibus de forma massiva. Já são mais de 479 km de corredores de ônibus implantados; as ciclovias totalizam 303,0 km. São esforços importantes porque encorajam cada vez mais pessoas a aderirem aos novos modos de transportes numa cidade onde o espaço era restrito ao carro.

Ao sul do Brasil, Curitiba também encara o transporte sustentável como forma de reduzir suas emissões. A Urbanização de Curitiba, empresa responsável pela operação do transporte coletivo, registrou a redução de 35.341 toneladas de poluentes no meio ambiente com a renovação da frota de ônibus entre 2005 e 2014. Combustíveis mais eficientes, bem como a incorporação de veículos híbridos na frota também fazem parte de um programa amplo de sustentabilidade em transporte na cidade.