Nossa Cidade: a transformação a partir dos espaços públicos

O projeto Nossa Cidade, do TheCityFix Brasil, explora questões importantes para a construção de cidades sustentáveis.

A cada mês um tema diferente.

Com a colaboração e a expertise dos especialistas da EMBARQ Brasil, as séries trazem artigos especiais sobre planejamento urbano, mobilidade sustentável, gênero, resiliência, entre outros temas essenciais para um desenvolvimento mais sustentável de nossas cidades.

 

 

A transformação a partir dos espaços públicos

Este post foi escrito com a colaboração de Lara Caccia, Especialista em Desenvolvimento Urbano da EMBARQ Brasil.

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No final do século XIX, o carro surgiu trazendo consigo a promessa de liberdade e independência. Terá alguém imaginado na época que, depois de mais de um século de desenvolvimento carrocêntrico, estaríamos hoje percorrendo o caminho inverso, em uma tentativa de devolver a rua às pessoas e de devolver à rua sua função principal como espaço público?

Não é incomum ver áreas públicas que, gradualmente esquecidas, deixam de ser espaços de convivência e de circulação de pessoas, e se tornam locais degradados e associados à falta de segurança. As cidades, para que sejam agradáveis e seguras, precisam ser pensadas como um sistema formado por peças interdependentes, relacionadas entre si e com o todo ao redor – em suma, como espaços de interação e convívio. A crescente retomada dos espaços urbanos pelas pessoas é parte do processo de humanização das cidades, em um esforço para melhorar e promover a convivência nas ruas. O uso dos espaços públicos pressupõe muito mais do que apenas o deslocamento de um lugar a outro: trata-se, antes e muito mais, dos encontros e trocas que esses lugares podem proporcionar, das diferentes relações que podem fazer surgir, dos momentos de convivência, da conexão entre as pessoas.

Na última quarta-feira, entramos na temática falando sobre o papel que os espaços públicos desempenham em uma cidade, como pontos de vitalidade urbana, valorização econômica e preservação ambiental. Hoje, trazemos alguns exemplos de bons usos desses espaços, tão vitais para a vida nas cidades. Iniciativas que mudaram o visual dos lugares onde foram implementadas, transformando espaços e devolvendo a rua a quem ela pertence por direito: as pessoas.

 

  • High Line

O parque High Line, em Nova York: exemplo de revitalização de espaços urbanos (Foto: Marcelo Noah)

O High Line, em Nova York, é tido como um dos maiores exemplos de revitalização de espaços urbanos ociosos do mundo. Construído ao longo de uma ferrovia desativada, o parque suspenso transformou em uma das áreas mais vivas de Nova York o que antes era um espaço crítico da cidade, foco de violência e criminalidade. Diante da proposta de demolição da antiga ferrovia, surgiu a associação Friends of the High Line, que mostrou como é possível recuperar espaços aparentemente “perdidos” – e como isso pode ser muito melhor para as cidades. Com muita vegetação e espaços de descanso, o parque estende-se por 2,3 km em uma das áreas mais movimentadas de Nova York, na região oeste de Manhattan, e atrai milhões de visitantes todos os anos. Uma pequena – e ao mesmo tempo grandiosa – amostra de como as pessoas fazem uso dos espaços públicos e de como estes podem mudar, para melhor, a qualidade de vida nas cidades.

 

  • Margens do Sena

(Foto: Laura Prospero/lauraemparis.com)

O projeto de revitalização da orla do Sena em Paris, Berges de la Seine, começou em 2010 com uma série de consultas públicas e um objetivo: devolver o Sena às pessoas. O espaço de cerca de 2,5 quilômetros de extensão entre a Pont Royal e a Pont de l’Alma foi fechado para os carros e se tornou um lugar totalmente voltado ao lazer. A revitalização mudou radicalmente o lugar, com a implementação de espaços destinados à prática de esportes, exposições artísticas, apresentações musicais e atividades culturais diversas, lazer, descanso, áreas especialmente para as crianças, restaurantes e quiosques, área zen, ateliês – de tudo um pouco. Sem falar no Jardin Flottant, um dos grandes destaques: um jardim flutuante de 1.800 metros quadrados formado por cinco ilhas conectadas entre si, cada uma com identidade e vegetação diferentes, representando as principais espécies naturais do Sena. No blog Direto de Paris, a jornalista Renata Rocha Inforzato apresenta todo o espaço com detalhes (e muitas fotos!), em uma verdadeira visita guiada a um espaço público por excelência, completo e cheio de vida, no centro de capital francesa.

 


(Balade sur les nouvelles berges de Seine por Mairie de Paris)
 

 

  • People Street 

Sunset Triangle Plaza (Foto: LADOT People St/Flickr)

O programa criado pelo Departamento de Transporte de Los Angeles permite que os moradores, por meio de parcerias e associações de bairros, solicitem a instalação de parklets, praças e/ou pequenos estacionamentos para bicicletas sem a burocracia que normalmente acompanha esses processos. A partir da escolha entre os modelos pré-aprovados pelo departamento, basta encaminhar o documento com a proposta, disponível no site para download.

As praças, a maior das três modalidades do programa, já contam com dois casos de sucesso desde o lançamento da iniciativa: a Sunset Triangle Plaza, criada em 2012 em Silver Lake como piloto do projeto, e a NoHo Plaza, em North Hollywood. A instalação, que pode implicar o fechamento de uma rua para os carros, promove uma transformação completa: mesas, cadeiras, guarda-sóis, vegetação e cores fazem de um espaço ocioso um local de encontros, onde as pessoas podem se reunir a qualquer hora. Em lugar de carros, atividades culturais e de lazer.

 

  • Urbanismo tático

(Foto: Better Block OKC)

Várias possibilidades sob o mesmo guarda-chuva. O chamado urbanismo tático (do inglês tactical urbanism) define a implementação de pequenas intervenções nos espaços da cidade, em iniciativas dos próprios moradores para qualificar o ambiente urbano e fazer um melhor uso das áreas públicas. São projetos de custo relativamente baixo pensados para transformar espaços ociosos. As iniciativas podem ir desde algo relativamente simples, como repaginar um espaço em desuso, até a construção de um parklet, mas o objetivo é o mesmo: devolver o espaço da rua às pessoas.

Um exemplo é o projeto Better Block, que começou em Dallas, nos Estados Unidos, há cinco anos. Usando materiais baratos e reciclados, o grupo transformou em um ambiente agradável e atrativo uma quadra do bairro Oak Cliffs. Músicos, artistas e comerciantes locais foram convidados a se juntar à iniciativa, que instalou ciclovias, mobiliário urbano, vegetação e quiosques temporários, aumentando o espaço de circulação das pessoas e diminuindo o dos carros. A iniciativa mudou a cara do lugar, que passou de uma quadra vazia e pouco movimentada a um espaço vivo e alegre.

 

 

Ao conferir novos sentidos para os lugares a partir de mudanças simples, o urbanismo tático cria cidades mais amigáveis aos moradores e, muitas vezes, motiva as pessoas a repensarem seus hábitos por meio dos diferentes encontros e trocas que esses espaços possibilitam. Aqui no Brasil, dois exemplos são a Passanela e a Oficina de Mobiliário promovida pelo Cidade Ativa. O projeto Passanela repaginou passarela da Av. Rebouças, em São Paulo, a fim de torná-la mais bonita e agradável e valorizar a experiência dos pedestres. E a oficina do Cidade Ativa fez o mesmo com a Escadaria da Alves Guimarães, adicionando mobiliário urbano às áreas no entorno da escada, fazendo do lugar um espaço onde as pessoas podem parar para descansar, conversar, aproveitar

(Fotos: Projeto Passanela e Cidade Ativa)

Ruas como espaços

A combinação de planejamento de longo prazo com estratégias de transformação rápidas e baratas, além de uma fórmula eficaz para pôr boas ideias em prática, pode ser uma ferramenta para articular e estimular o exercício da cidadania sobre temas de impacto positivo na qualidade de vida.

Normalmente, quando o assunto são espaços públicos, pensamos em parques, praças e áreas verdes, esquecendo do principal deles: as ruas. O uso a que são destinadas ruas – se para a circulação de pessoas ou de veículos – vai definir o ambiente em seu entorno. Logo, ver as ruas como espaços públicos em essência é o primeiro passo para fazer das cidades lugares mais seguros e agradáveis de se viver. Afinal, de nada adianta todo o espaço possível disponível para os deslocamentos de carro se não sobrar espaço para os destinos aonde as pessoas dentro desses mesmos carros poderiam chegar.

Veja aqui os outros posts da série.