Tornando cidades mais seguras pelo design: uma conversa com Jan Gehl e Ani Dasgupta

Ani Dasgupta (esquerda), diretor do WRI Ross Center for Sustainable Cities. Jan Gehl (direita), sócio-fundador do Gehl Architects.

Artigo publicado originalmente em inglês por Alex Rogala e Andrew Stokols no TheCityFix

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Esta é a terceira semana das Nações Unidas para a Segurança Viária Global, com o tema salvando a vida das crianças nas vias pelo mundo.

O TheCityFix teve a chance de sentar com o renomado arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl e Ani Dasgupta, diretor global do WRI Ross Center for Sustainable Cities. Eles tiveram um bate-papo que explorou por que as cidades em rápida expansão pelo mundo precisam priorizar o movimento das pessoas antes dos carros, e como uma cidade mais segura para crianças é, no fim das contas, uma cidade mais segura para todos.

Confira a conversa.

Um grande foco da semana de Segurança Viária é salvar a vida das crianças. Por que elas são importantes para criar cidades mais seguras?

Jan: Eu vou começar com uma história. Estive recentemente em Hanoi, Vietnã, e conheci a senhora Lan, uma mulher que tinha acabado de visitar a cidade de Copenhague. Ela me perguntou se houve um ‘boom’ de bebês por lá, e respondi que era justamente o oposto disso – não restará nenhum dinamarquês em 200 anos, eu brinquei, mas ela não conseguiu acreditar. Havia muitos pequenos caminhando nas ruas, havia bicicletas com crianças de berço, e crianças pedalando nas ciclovias com seus pais, além de crianças caminhando para a escola. Minha filha de sete anos pode andar numa calçada contínua. Esta é uma transformação importante para a vida das crianças. Sempre digo que, quando há muitas crianças nas ruas da cidade, é sinal de que é uma cidade de qualidade.

Ani: Eu cresci na Índia. Quase todas as cidades indianas, seja Chennai, Deli ou Mumbai, são lugares assustadores para se estar, porque você está passível de ser atropelado ou empurrado. Somos motivamos por cidades sustentáveis, mas acreditamos que uma cidade não é sustentável se as pessoas não conseguem criar seus filhos com segurança e prosperar como família. Acidentes de trânsito são a principal causa de morte das crianças nas cidades pelo mundo.

Em cidades de rápida urbanização, como convencer os prefeitos e tomadores de decisão que políticas amigáveis às pessoas precisam ser prioridade?

Jan: Em Curitiba ou Bogotá, a política para melhorar a mobilidade urbana para os mais pobres, com potencial para trazer mais qualidade de vida e condições econômicas em vez de passar três num ônibus no trânsito lento.

Este é o tipo de política necessária. Em Copenhague, temos discutido o fomento à caminhada e à pedalada por 50 anos, o que virou parte da mentalidade desde o prefeito até cada um dos cidadãos. Quando você muda a mentalidade, pessoas tendem a apoiar certas políticas.

Ani: Concordo totalmente, mas o problema é que nós não temos 50 anos. O que temos é uma pequena janela para evitar efeitos irreversíveis. Em Kolkata, Índia, onde estive recentemente, me disseram que estão banindo bicicletas para expandir as vias para carros. Mas motoristas de carros são apenas uma pequena parcela da população, ou seja, é uma medida altamente desigual. Como nós aceleramos essa transformação?

Jan: As pessoas não vão pedir algo que elas nunca viram. A melhor prática é o melhor remédio, portanto precisamos assegurar que as pessoas se informem sobre alternativas que existem, e se inspirem sobre os exemplos que veem em outros lugares, como Curitiba e Bogotá, por exemplo.

Além disso, uma vez conscientes sobre os custos envolvidos, as pessoas também se conscientizam mais: cada vez que alguém pedala 1 km, a sociedade ganha 42 centavos. Cada vez que um carro percorre 1 km, a sociedade perde 20 centavos. Se juntarmos tudo isso, é muito mais barato andar de bicicleta, e a sociedade economiza em custos de saúde na velhice.

Ani: É também um problema de capacidade. Visitei muitas cidades em rápido crescimento e conversei com os prefeitos lá. Muitos não têm capacidade de construir novas opções de transporte rápido o suficiente para manter a demanda.

Jan: Sei que existem grandes problemas em superar o sistema político e a corrupção. Mesmo na China, recentemente trabalhamos em Shangai e descobrimos que eles estão em processo de descobrir que não há futuro para políticas orientadas ao carro que eles perseguiram no passado.

Como podemos aplicar ideias de sucesso na Europa, como Copenhague, nas cidades que estão enfrentando diferentes desafios de urbanização?

Ani: Nas cidades que trabalhamos, no Brasil, China, Índia, México e Turquia, pais de famílias de classe média (como os meus) cresceram sem carros. Existe uma aspiração social ao carro. Precisamos ter consciência da realidade à medida que trabalhamos para convencer cidades dos benefícios de reduzir os carros.

Jan: É verdade, mas podemos usar essas cidades como inspirações para mostrar que podemos mudar para políticas mais inteligentes. Prefeitos da América do Sul são bons exemplos. Em todo meu trabalho, encaro os seres humanos como universais: fomos construídos da mesma maneira – temos os mesmos sentidos, então soluções podem ser universais. O que é boa qualidade em Copenhague também é boa qualidade na Índia.