Nossa Cidade: o papel do espaço público na vida urbana

O projeto Nossa Cidade, do TheCityFix Brasil, explora questões importantes para a construção de cidades sustentáveis.

A cada mês um tema diferente.

Com a colaboração e a expertise dos especialistas da EMBARQ Brasil, as séries trazem artigos especiais sobre planejamento urbano, mobilidade sustentável, gênero, resiliência, entre outros temas essenciais para um desenvolvimento mais sustentável de nossas cidades.

 

 

 

O papel do espaço público na vida urbana

Este post foi coescrito por  Luísa Zottis, Redatora da EMBARQ Brasil.

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“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, proferiu Vinicius de Moraes ao entender a essência das relações humanas. Partindo do princípio exposto pelo poeta, os espaços públicos são a essência da vida urbana. É neles que ocorrem os encontros que produzem a arte da vida nas cidades.

Ao falar de espaços públicos é preciso entender, primeiramente, a importância que estes possuem na construção daquilo que chamamos de cidade. São os espaços públicos o local de circulação, de interação e de conexão entre os indivíduos. É lá, naqueles espaços de livre acesso, livres de barreiras e preconceitos que se produzem os fenômenos cotidianos que formam as cidades.

Entretanto, a percepção sobre os espaços públicos segue extremamente restrita à imagem de parques e praças. As ruas, por exemplo, são espaços públicos por essência e, em geral, representam a maior parcela dos espaços públicos existentes em uma cidade. Porém, muitas vezes são ignoradas como tal. Nos grandes centros urbanos, as vias dedicadas para automóveis ocupam em média 70% das áreas públicas, deixando livre para o encontro (sua função primordial) menos de 30% do espaço.

Inicialmente, o cotidiano urbano estava estreitamente relacionado com o uso dos espaços públicos. A maior parte das funções urbanas aconteciam em conexão com estes espaços, a começar pelas ágoras na Grécia antiga, verdadeiros epicentros da vida em sociedade. Principalmente após o crescimento do uso do automóvel, estas funções foram deixando de ocorrer em espaços públicos, criando um circulo vicioso de degradação do ambiente urbano e de aumento das atividades em ambientes privados, como mostra o gráfico:

Desenvolvimento da vida urbana de 1880 a 2005. (Fonte: New City Life. Gehl, Gemozoe, Kirnaes&Sondergaard, The Danish Architectural Press, 2006. In: IEMA. A bicicleta e as cidades: Como inserir a bicicleta na política de mobilidade urbana. São Paulo, 2009)

Embora o modo de viver e conviver em sociedade esteja se reconfigurando, tanto pelas políticas de uso do solo, da motorização e das novas tecnologias que favorecem a interação online, as ruas e os espaços presenciais de convivência ainda são vitais. Para passar ou permanecer, para descansar ou se exercitar, para fazer a cidade renascer. Por isso, neste primeiro post sobre Espaços Públicos do projeto Nossa Cidade, vamos analisar os três papéis fundamentais dos espaços públicos nas cidades e para as pessoas.

A dimensão social: espaços públicos e vitalidade urbana

Iniciativa canadense, 21 Ballançoires estimulou a interação das pessoas entre si e com a cidade no espaço público ao instalar balanços que produziam notas musicais. (Foto: Divulgação)

A vitalidade urbana depende fundamentalmente de espaços públicos de qualidade que fomentem a ocupação e utilização das áreas comuns da cidade. O espaço público tem a função de promover o encontro, de trocas e de circulação de uma comunidade. Por isso, as ruas, praças, parques, calçadas e ciclovias devem ser abertos aos indivíduos sem diferenciação.  Um conceito importante para isso são as Ruas Completas, implantadas em diversos municípios no Brasil e fora dele, cuja proposta é tornar o ambiente acessível e seguro através do design. Mas, além do desenho, algumas cidades acrescentam ainda uma pitada de criatividade para resgatar a conexão entre as pessoas e o espaços públicos. Montreal, Canadá, realizou a iniciativa 21 Balançoires, com balanços que reproduziam notas musicais, fazendo música à medida que as pessoas brincavam! De forma coletiva ou individual, a rua é para todos e pode ser aproveitada de diversas maneiras, desde intervenções urbanas até um piquenique no parque, ou simplesmente uma caminhada pelo bairro: toda apropriação positiva do espaço é válida.

Atratividade local para a valorização econômica

O parque construído sobre a antiga rodovia fez a rua e a região renascerem. (Foto: Kimmo Räisänen/Flickr)

Espaços públicos de qualidade beneficiam não somente as pessoas e a cidade com áreas de lazer e convivência, mas têm potencial para fomentar a economia local e valorizar toda a comunidade em que estão inseridos. Em Seul, Coreia do Sul, o parque Cheonggye Stream exemplifica isso. Construído em 2005 onde antes havia uma rodovia urbana que afastou 40 mil residentes e 80 mil empregos, fez toda a região renascer. Após sua implantação, o setor imobiliário aumentou significativamente suas transações, com um incremento de 25% no preço médio do metro quadrado, 15% a mais que nas outras regiões da cidade. Já os alugueis subiram 13%. Os dados são da publicação “Vida e Morte das Rodovias Urbanas“. O empreendimento que chamou atenção da mídia internacional é hoje ponto turístico obrigatório na cidade. Mas, acima de tudo, devolveu este espaço à população, recuperando a fauna e a flora, melhorando a qualidade do ar e criando um ambiente saudável e atraente para cidadãos e visitantes de Seul. Esse é só um exemplo de como o espaço público impacta a economia, mas há vários outros. Feirinhas de rua, festivais, comércio no piso térreo de prédios. Características que potencializam a economia local e diversificam as atividades realizadas no espaço público.

Criando o verde: espaços públicos preservam o meio ambiente

Parque Cantinho do Céu, São Paulo, foi projetado para preservar mananciais, tirou famílias de situação de risco e realiza atividades abertas à comunidade, beneficiando quase 10 mil famílias por mês. (Foto: divulgação)

Quando englobam áreas verdes, os espaços públicos tornam-se verdadeiros redutos da vida natural em meio à cidade. Praças, parques e áreas de preservação são estratégicos na mitigação de riscos ambientais para a cidade e oferecem atividades para o lazer da população. Por exemplo, no distrito Grajaú, mais populoso da cidade de São Paulo, o Parque Cantinho do Céu foi projetado para a preservação de mananciais. Ele é parte de uma série de intervenções do programa Mananciais, da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) em parceria com o Governo do Estado. Os objetivos são implantar redes de água e de coleta de esgoto, eliminar áreas de riscos, drenar as águas pluviais e estender a coleta de lixo até as comunidades. Ou seja, melhorar a infraestrutura, serviços e a qualidade de vida das comunidades. Anteriormente, a área do projeto era ocupada por moradias precárias, que despejavam esgoto doméstico no reservatório que abastece parte da capital e do ABC. Saiba mais.