Morar perto do trabalho está mais difícil

Estudo da Brookings Institution mostra que a distância entre a residência e os empregos está aumentando em regiões metropolitanas dos EUA, especialmente entre os bairros mais pobres. Dados podem servir para pensar também sobre a realidade de expansão urbana brasileira. (Foto: Tito Perez/Flickr)

O departamento de Políticas Metropolitanas do instituto de pesquisa Brookings, nos Estados Unidos, analisou como estão as distâncias entre as pessoas e os postos de trabalho nas regiões metropolitanas norte-americanas. Os resultados do estudo, intitulado “The growing distance between people and jobs in metropolitan America” (‘A crescente distância entre pessoas e empregos na América metropolitana’, em tradução livre) não são animadores: os empregos estão cada vez mais longes dos moradores de regiões metropolitanas, especialmente dos mais pobres.

Das 96 regiões metropolitanas (RMs), quase 70% delas tiveram um aumento de 7% na distância entre moradores e postos de trabalho, conforme mostra o mapa abaixo:

Fonte: Brookings Institution/ The growing distance between people and jobs in metropolitan America

Confira as descobertas chave do estudo:

O número de postos de emprego próximos aos subúrbios caiu. Os residentes de subúrbios tiveram uma queda de 7% nos empregos perto de suas residências, isto é, com deslocamento de tempo médio. Foi mais que o dobro do declínio experimentado pelos moradores dos centros urbanos (3%).

– À medida que as parcelas minoritárias da população e os mais pobres migraram aos subúrbios nos anos 2000, sua proximidade a empregos declinou mais do que classes altas e residentes brancos. Os postos de trabalho próximos a moradores de origem hispânica (-17%) e negra (-14%) em grandes áreas metropolitanas declinaram mais bruscamente que para os residentes brancos (-6%), um padrão também para os típicos moradores mais pobres (-17) versus não pobres (-6%).

– Moradores de bairros muito pobres e predominantemente habitados pelas minorias sociais experimentaram uma queda particularmente anunciada na proximidade aos postos de trabalho.  No geral, 61% destes bairros (com taxas de pobreza acima de 20% e com 55% de residentes minoritários) tiveram um declínio na proximidade do trabalho entre 2000 e 2012 – de 17%. Já para os demais residentes as distâncias aumentaram somente 7%.

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Embora as descobertas façam referência ao panorama norte-americano, podemos tomá-las como base para pensar sobre a realidade do Brasil, que já tem 85% da população vivendo em áreas urbanas. E habitando as regiões metropolitanas e aglomerados urbanos, são 100 milhões de brasileiros.

Existem dois grandes desafios que, se superados, poderão garantir mais qualidade de vida para a população.

Um deles é otimizar os deslocamentos para evitar altos congestionamentos e emissões de gases nessas viagens. Para isso, gerir a demanda de viagens pode ser a chave, o que chamamos de GDV – Gestão da Demanda de Viagens. As medidas GDV são adotadas pelas empresas e organizações em prol de seus funcionários e consistem em incentivar o uso de alternativas de transporte mais sustentáveis, reduzindo o número de viagens realizadas por automóvel, especialmente, as com um único ocupante por veículo. Entre os benefícios de investir em tais estratégias estão: reduzir o congestionamento e as emissões de poluentes locais e materiais particulados, melhorar a qualidade de vida das pessoas e promover o desenvolvimento econômico da cidade. Algumas das estratégias estão o incentivo às caronas, a disponibilização de sistemas car-share e o escalonamento de horários, evitando que todos os funcionários de uma cidade precisem se deslocar ao mesmo tempo. Saiba mais sobre o assunto.

O segundo desafio é planejar a expansão urbana dentro do modelo 3C – coordenado, compacto e conectado, a fim de garantir a qualidade de vida para a população. Afinal, o acesso aos postos de trabalho influencia diretamente a inclusão e ascensão social da população, bem como à melhoria na situação das famílias e acesso à melhores condições de saúde e educação. Além disso, quanto mais distantes do destino, mais as pessoas tendem a utilizar meios de transporte motorizado para as viagens, aumentando a quantidade de congestionamentos e emissões de gases de efeito estufa.

Uma ferramenta à disposição das cidades –  e de todos que têm interesse no tema – para planejar esse desenvolvimento 3C é o  DOTS Cidades – Manual de Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável, elaborado pela EMBARQ Brasil (produtora deste blog). O Manual engloba conceitos, estratégias de projeto e melhores práticas em gestão pública, planejamento e desenho urbano, projetos de transporte e circulação, acessibilidade universal e requisitos ambientais.

Conheça os sete elementos de um bairro DOTS

1) Transporte Coletivo de Qualidade: para incrementar viagens com conexões adequadas e serviços cômodos, eficientes e acessíveis;

2) Mobilidade Não Motorizada: para promover viagens de pedestres e ciclistas;

3) Gestão do Uso do Automóvel: para gerar ambientes seguros e agradáveis com a racionalização do uso do carro e utilização de estacionamentos;

4) Uso Misto e Edifícios Eficientes: para potencializar atividades e uso do solo;

5) Centros de Bairros e Pisos Térreos Ativos: para promover interação social da comunidade, com espaços públicos que as aproximem;

6) Espaços Públicos e Recursos Naturais: para fomentar a vida pública e a integração;

7) Participação e Identidade Comunitária: para promover o sentimento de “pertencimento” do bairro e incentivo ao convívio com o outro.

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