Nossa Cidade: cinco exemplos de caminhabilidade

O projeto Nossa Cidade, do TheCityFix Brasil, explora questões importantes para a construção de cidades sustentáveis.

A cada mês um tema diferente.

Com a colaboração e a expertise dos especialistas da EMBARQ Brasil, as séries trazem artigos especiais sobre planejamento urbano, mobilidade sustentável, gênero, resiliência, entre outros temas essenciais para um desenvolvimento mais sustentável de nossas cidades.

 

 

 

Cinco exemplos de caminhabilidade

Este post foi escrito com a colaboração de Lara Caccia, Especialista em Desenvolvimento Urbano da EMBARQ Brasil.

***

Caminhar não é apenas caminhar. Deslocar-se a pé na cidade é, essencialmente, apropriar-se cotidianamente do espaço. É estar no ambiente urbano de forma ativa, percebendo a cidade e os detalhes que dela fazem parte. A escolha por este que é o modo mais democrático de se locomover, no entanto, muitas vezes está atrelada a fatores externos como as condições físicas e sociais dos indivíduos e a existência, ou não, de infraestruturas que facilitem e estimulem essa opção.

Estamos falando de caminhabilidade. A caminhabilidade é um conceito que leva em conta, principalmente, a acessibilidade no ambiente urbano e mensura a facilidade que as pessoas têm de se deslocar na cidade. Os índices de caminhabilidade vão influenciar diretamente a predisposição que as pessoas têm ou teriam para caminhar em determinados locais.

O primeiro ponto a ser observado são as possibilidades de acessar, caminhando, áreas de lazer, comércio e entretenimento, como parques, lojas, restaurantes, museus, entre outras formas de atividades sociais e culturais. Em um segundo momento, analisam-se as condições do caminho que precisa ser percorrido até o destino. Nesse aspecto, a percepção que temos do ato de caminhar – nossa predisposição para optar por essa forma de deslocamento em detrimento de outras – também está intimamente ligada à qualidade das calçadas. Passeios públicos que atendam os princípios pelos quais deve ser norteada a construção de uma calçada estimulam os deslocamentos a pé e, como consequência, elevam a qualidade de vida nas cidades.

Repensar a forma como nos deslocamos, mais do que uma tendência, tem se tornado uma diretriz de planejamento urbano em grandes cidades do mundo. Amsterdã, Copenhague, Helsinque, Zurique, Hamburgo – todas caminham em direção a um futuro onde as ruas terão cada vez mais pessoas e menos carros. Veja abaixo como essas cinco cidades vêm trabalhando para incentivar os deslocamentos a pé e melhorar o dia a dia das pessoas nas áreas urbanas.

 

Helsinque, Finlândia

O plano de Helsinque para 2050 prevê que os moradores realizem todos os principais deslocamentos cotidianos a pé ou de bicicleta. (Foto: City Clock Magazine/Flickr)

Quanto mais pessoas na cidade, menos carros serão permitidos nas ruas. Essa é a lógica da capital finlandesa que, em um novo plano, pretende conformar uma rede de bairros mais densos, caminháveis e conectados entre si, com prioridade para o transporte ativo e coletivo. A ideia é que trabalho, casa, lazer, comércio e escola sejam elementos próximos o suficiente para tornar os deslocamentos cotidianos viáveis a pé ou de bicicleta, e a posse de um veículo motorizado, algo desnecessário na cidade.

 

Copenhague, Dinamarca

Zona exclusiva para pedestres em Copenhague (Foto: City Clock Magazine/Flickr)

Uma das cidades mais famosas no mundo pelo uso da bicicleta como meio de transporte implementou suas primeiras zonas exclusivas para pedestres já na década de 1960, antevendo o futuro da mobilidade. Hoje, as áreas de pedestres estão espalhadas pela cidade e os diferentes modais convivem no espaço urbano. A transformação na cidade dinamarquesa, pautada pelo trabalho de Jan Gehl, começou exatamente pelo entendimento de que a valorização do pedestre, dos trajetos a pé e do transporte ativo em geral é um dos primeiros passos para melhorar a mobilidade e construir uma cidade melhor para as pessoas.

 

Zurique, Suíça

Limmatquai, uma das principais vias de Zurique, antes e depois da remoção dos 20 mil carros que circulavam na região todos os dias (Fotos: Daniel Sauter)

Em Zurique, 42% dos deslocamentos feitos a pé ou de bicicleta. Essa é uma das marcas da cidade, que conseguiu o que cidades no mundo inteiro lutam para alcançar: mobilidade eficiente, integrada e multimodal que permite que as pessoas consigam chegar a praticamente qualquer lugar sem precisar de um carro. O caminho até se atingir esses índices começou em 1996, com o chamado Compromisso Histórico. O documento estabeleceu que nenhum novo estacionamento poderia ser construído na cidade, a menos que em substituição a outro já existente. Desde então, grande parte dos estacionamentos construídos foi colocada abaixo do nível do solo, e o espaço que deixaram de ocupar na superfície foi destinado à criação de praças, espaços públicos e zonas exclusivas para os pedestres.

 

Hamburgo, Alemanha

Em Hamburgo, a Rede Verde planeja conectar as diversas áreas da cidade para incentivar o transporte ativo (Foto: flierfy/Flickr)

Hamburgo foi eleita a Capital Verde Europeia de 2011 por suas estratégias de planejamento integrado e metas ambiciosas. A principal delas, tornar o espaço urbano totalmente acessível a pé ou de bicicleta, conectando as principais áreas verdes e de lazer da cidade em 40% do território. A Rede Verde, como foi chamado o projeto, pretende eliminar não só a circulação dos carros na região central, mas também a necessidade de usá-los, mostrando que grandes cidades podem ser ambientes caminháveis e planejados para as pessoas.

 

Amsterdã, Holanda

Oosterdokbrug: ponte para pedestres e cilistas em Amsterdã (Foto: Mariano Mantel/Flickr)

Em Amsterdã, são as bicicletas que ditam o ritmo – na maior parte da cidade, os limites de velocidade não passam dos 20 km/h, priorizando a capacidade das pessoas de se locomoverem por si mesmas. Embora os deslocamentos a pé estejam caindo na cidade, por conta do alto índice de uso da bicicleta, a preocupação com a caminhabilidade se reflete nos investimentos que a cidade vem fazendo para qualificar essa forma de deslocamento.  Amsterdã está trabalhando na criação de novos espaços compartilhados com base em dois princípios: 1) a velocidade máxima permitida nesses locais é baixa e igual para todos os modos de transporte; e 2) não há vias segregadas entre os modais, o que significa que os pedestres não ficam restritos aos limites das calçadas.