Como o desenho urbano contribui com o crescimento econômico

(Foto: Jacob/Flickr)

Pense um minuto: como são as ruas do seu bairro, da sua cidade? Em geral estamos habituados a um desenho urbano favorável à passagem dos carros e prejudicial aos pedestres e ciclistas e mesmo às crianças que já não podem aproveitar o espaço urbano em função dos riscos que as altas velocidades praticadas oferecem.

Para preencher essa lacuna, o modelo de Ruas Completas propõe a indução a um comportamento mais responsável e a acessibilidade a todos os usuários da vida através do design. É uma visão holística do ambiente urbano que atende necessidades locais e impacta positivamente em termos de segurança viária, qualidade do ar e padrões de deslocamento.

Mas como em geral agentes dos setores público e privado envolvidos em tomadas de decisão são influenciados pelo fator econômico, como provar que ruas completas e seguras também andam de mãos dadas com o crescimento econômico?

A organização Smarth Growth America, pensando nisso, analisou dados de 37 cidades norte-americanas após a implantação de ruas completas. O estudo gerou o relatório Safer Streets, Stronger Economies, que mostra que ruas completas estão relacionadas ao aumento na segurança viária e no índice de deslocamentos não motorizados, mas, além disso, descobriu que novos modelos urbanos baseados neste conceito geram mais atratividade a negócios locais, empregos e valorização das áreas onde foram implementados.

Um dos estudos de caso é sobre a rua Edgewater Drive, em Orlando. Ela foi redesenhada em 2001 para impulsionar negócios locais como cafés e comércios ao valorizar um espaço mais amigável ao transporte não motorizado. De forma prática, a cidade instalou uma faixa central de conversão e uma ciclovia numa via que era antes expressa.

Esta rua em Orlando ganhou simples alterações que beneficiaram as pessoas e os negócios. (Foto: Complete Streets/Flickr)

Com simples alterações, grandes resultados. O índice de colisões no local caiu 40%, de 146 para 87 por ano. Os ferimentos de trânsito caíram 71%, de 41 para 12 por ano. O mais impressionante, no entanto, conforme o relatório, é que o número de viagens motorizadas decaiu somente 12% – muito pouco para tantos bons impactos gerados. Contudo, as viagens de bicicleta aumentaram 30%, e a pé, 23%.

As mudanças trouxeram bons frutos para os negócios. Novos 77 estabelecimentos e 560 postos de trabalho foram gerados. Em longo prazo, os resultados mais expressivos vieram na valorização de imóveis da região, que subiu para 80% em propriedades adjacentes à rua.

Ao lado de Orlando, outras cidades que tiveram projetos de ruas completas tiveram bons reflexos econômicos. Em West Jefferson, Carolina do Norte, dez novos negócios abriram ao longo da redesenhada Jefferson Avenue, gerando 55 novos empregos e 14% a mais de movimento de pessoas pelo local. As mudanças foram relativamente simples, como placas “PARE”, faixas e ilhas para pedestres, mas que fizeram toda a diferença na percepção e bem estar das pessoas na via – os comerciantes também perceberam que isso foi bom para seus clientes.

Ao ver o relatório, lembrei também de outros dois casos de renovação urbana em prol do transporte não motorizado e coletivo que trouxeram significativos impactos para a realidade local – a construção de um parque urbano em Seul, Coréia do Sul, e a recente derrubada de uma rodovia urbana no Rio de Janeiro. Leia aqui.