Entrevista com Enrique Peñalosa: a cidade que queremos

Conteúdo publicado originalmente na Revista Velô.

(Reprodução/Velô)

Ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa ficou conhecido por transformar a capital da Colômbia em cidade modelo em transporte cicloviário na América Latina entre os anos de 1998 e 2001. Ele é um dos palestrantes convidados para o 4o Fórum Mundial da Bicicleta, que iniciou no dia 26 de fevereiro, em Medellín.

Velô: Como o sistema de transportes de uma cidade está relacionado ao nível de qualidade de vida da população?

Enrique Peñalosa: Só é possível escolher um sistema de transporte se tivermos claro o modelo de cidade que queremos. Mas um modelo de cidade é apenas um meio para um estilo de vida. Então, quando nós escolhemos esse modelo de cidade ou de transporte, o que escolhemos é um estilo de vida. Os seres humanos precisam estar em convívio com outras pessoas. Nós apreciamos a beleza da natureza, a arquitetura. Eu acho que uma cidade que permite andar a pé ou de bicicleta não é apenas segura, mas prazerosa, é uma cidade boa, com qualidade de vida.

Velô: Qual foi o papel de Bogotá no incentivo às bicicletas e ao transporte público na América Latina?

EP: Em Bogotá fizemos 300 quilômetros de ciclovias protegidas e 70 quilômetros de autopista para bicicletas, quando ainda nenhum outro país das Américas havia feito, e na Europa existiam apenas no norte, na Holanda e na Dinamarca. Com relação ao transporte público, copiamos o sistema de BRT de Curitiba, mas fizemos algumas mudanças importantes que triplicaram sua capacidade. O TransMilenio BRT de Bogotá teve um enorme impacto no mundo. Centenas de cidades fizeram sistemas de BRT depois do TransMilenio. No que diz respeito aos investimentos em mobilidade urbana, quero deixar claro que existe uma diferença entre os tradicionais, aqueles que agradam os cidadãos de maior renda, como rodovias e metrô, e os investimentos mais democráticos, que privilegiam os usuários de transporte público e de bicicletas. O desafio interessante e democrático é a melhor distribuição do espaço viário. É importante lembrar que o espaço viário, o espaço entre as construções, pertence a todos os cidadãos da mesma maneira, independentemente de ter ou não um carro.

Quem decidiu que íamos dar mais espaço para os carros estacionados do que para os pedestres ou ciclistas?

(Reprodução/Velô)

Velô: Transformar uma cidade para que ela seja bike-friendly encontra dificuldades para avançar mais na questão econômica, na política, ou na cultural?

EP: Volto a bater na mesma tecla: a grande batalha é a batalha por espaço viário. Isso não é pouca coisa. É uma das questões ideológicas e políticas mais importantes do nosso tempo. É ridículo que alguns comerciantes afirmem que, se não houver espaço para os carros estacionarem nas calçadas ou na rua, em frente a suas lojas, eles vão falir. Em cidades como Londres, Nova York ou Paris, as pessoas não estacionam em frente de lojas, e as lojas vão muito bem… e não há shoppings! É bom lembrar sempre que estamos diante de um desafio grande e difícil: construir uma maneira diferente e melhor para se viver. Não é uma questão simples. Não é fácil.

Velô: A sua frase “A cidade avançada não é aquela onde os pobres andam de carro, mas aquela onde os ricos usam o transporte público” faz cada vez mais sentido nos dias de hoje. Como fazer essa mudança?

EP: Todos os processos educativos têm um componente de bônus e de ônus: o bônus é um transporte público de melhor qualidade todos os dias, com calçadas de boa qualidade, amplas e bem desenhadas, com árvores, iluminadas e com ciclovias e bicicletários de qualidade. O ônus, neste caso, é aumentar as restrições para o uso do carro, principalmente com relação aos estacionamentos, não só nas ruas, mas em edifícios privados e escritórios. A bicicleta faz bem para a saúde, além de que uma cidade onde as pessoas andam mais de bicicleta é mais sensual e divertida. Vai ficar cada vez mais claro que as pessoas que andam de bicicleta são mais bonitas e que é mais divertido pedalar do que ir de carro, que é chato, é velho, não é sexy.