“Precisamos levar a urbanização a sério”: entrevista com Felipe Calderón sobre as cidades e a Nova Economia Climática

Na medida em que se tornam mais urbanizadas, as cidades precisam focar no desenvolvimento compacto, conectado e coordenado para impulsionar suas economias e combater as mudanças climáticas. (Foto: Scutter/Flickr)

Este post foi escrito por  e  e publicado originalmente no TheCityFix.

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2015 é um ano de extrema importância para a agenda do desenvolvimento sustentável em escala global, e as cidades terão um papel-chave nesse processo. As decisões tomadas ao longo dos próximos doze meses vão gerar oportunidades de alavancar o potencial das cidades e a qualidade de vida de bilhões de pessoas em todo o mundo.

Nós conversamos com Felipe Calderón, presidente da Comissão Global de Economia e Clima e um dos principais palestrantes da edição de 2015 do Transforming Transportation, para aprender mais sobre como as cidades podem impulsionar o crescimento econômico sustentável e de baixo carbono.

Felipe Calderón, presidente da Comissão Global de Economia e Clima, será um dos principais palestrantes no Transforming Transportation 2015 (Foto: World Economic Forum)

1. Você é presidente de um grupo chamado Comissão Global de Economia e Clima. Onde as cidades e seus líderes se encaixam dentro da nova dinâmica emergente entre a economia e as mudanças climáticas?

A Comissão Global publicou em setembro de 2014 o Better Growth, Better Climate, relatório que argumenta que é possível manter o crescimento econômico e combater as mudanças climáticas ao mesmo tempo. Para fazer isso, nós precisamos transformar três sistemas econômicos: cidades, energia e uso do solo.

Quanto às cidades, mais de metade da população mundial já vive em áreas urbanas e estima-se que até 2030 um bilhão a mais de pessoas sejam acrescentadas ao total atual. É o equivalente a adicionar a uma cidade toda a população de Washington, Berlim ou Singapura todos os meses pelos próximos 15 anos. Nós precisamos construir nova infraestrutura urbana e precisamos fazer isso de forma a criar cidades mais compactas e bem conectadas. A maneira com que construímos nossas cidades e sistemas de transporte vai determinar seu desempenho econômico, a qualidade de vida de quem vive nelas e a quantidade de emissões de gases de efeito estufa ao longo das próximas décadas.

As autoridades municipais precisarão tomar muitas das decisões que irão moldar nossas economias e o sucesso que teremos ou não no combate às mudanças climáticas. Nós precisamos levar a urbanização a sério.

2. Como as cidades podem se tornar condutoras de um clima melhor e de um crescimento econômico mais sustentável?

Todas as cidades podem melhorar no quesito sustentabilidade por meio de investimentos em eficiência energética, em gestão de resíduos e na melhora dos sistemas de transporte. Em nosso relatório, nós mostramos que as cidades podem economizar muito ao colocar em prática medidas inteligentes e ambientalmente amigáveis. Nossa análise sugere que, seguindo o modelo de desenvolvimento certo, podemos contribuir para reduzir os custos de infraestrutura urbana em mais de 3 trilhões de dólares ao longo dos próximos 15 anos. Essa economia pode, então, ser usada para outras prioridades.

3. Quais desafios as cidades têm de enfrentar no combate às mudanças climáticas e para manter a prosperidade e o crescimento econômico?

Frequentemente as cidades crescem sem planejamento. Isso gera custos econômicos, sociais e ambientais. Nós estimamos, por exemplo, que a expansão urbana fora de controle custa aos Estados Unidos em torno de 400 bilhões de dólares por ano, além de aumentar substancialmente as emissões de poluentes. Atlanta e Barcelona, por exemplo, têm aproximadamente a mesma população, mas a expansão urbana na primeira resulta em um índice de emissões originadas no setor de transporte dez vezes mais alto que na capital catalunha.

Mantido o ritmo atual, os meios urbanos devem aumentar em uma área equivalente a Manhattan todos os dias nos próximos 15 anos. O número de carros privados deve dobrar, de um bilhão hoje para dois bilhões em 2030. Se quisermos combater as mudanças climáticas, isso não pode acontecer. Nós precisamos fazer as coisas de um jeito diferente.

4. A temática do Transforming Transportation esse ano é Cidades Inteligentes e Prosperidade para Todos. Na sua concepção, o que uma cidade precisa fazer para ser considerada inteligente?

Cidades inteligentes são mais conectadas, compactas e coordenadas. Elas usam seus recursos naturais de forma mais eficiente, planejada para longo prazo. Elas investem em infraestrutura. O Better Growth, Better Climate relata algumas oportunidades que as cidades têm de melhorar seu desempenho econômico e reduzir os riscos climáticos. Para nós, uma cidade inteligente é aquela que trabalha para agarrar essas oportunidades.

Em todo o mundo, vemos exemplos de boas decisões. Mais de 180 cidades já implementaram sistemas BRT e aproximadamente 700 contam com programas de compartilhamento de bicicleta. Além disso, uma série de sistemas inteligentes de transporte, como compartilhamento de carros, começa a se espalhar pelo mundo.

5. O que os participantes do Transforming Transportation 2015 podem fazer para ajudar as cidades a entender seu potencial na New Climate Economy (Nova Economia Climática)?

Eles precisam pensar em como tornar suas cidades mais compactas, conectadas e coordenadas. Precisam colocar as áreas urbanas no coração de todas as estratégias econômicas do país. Precisam ajudar a transformar os sistemas de transporte nas grandes cidades do mundo. Precisam encontrar formas de implementar a ampla rede de ações propostas pelo Better Growth, Better Climate. Agora é a hora para construirmos cidades melhores e mais produtivas que possam impulsionar a prosperidade econômica e ajudar a mitigar as mudanças climáticas ao mesmo tempo.

 

Saiba mais sobre Felipe Calderín e o papel-chave das cidades na New Climate Economy no Transforming Transportation 2015: Smart Cities for Shared Prosperity (#TTDC15).