Centenas de cidades estão prontas para replicar a experiência do Rio em medir e reduzir emissões

O Rio de Janeiro está usando o Global Protocol for Community-Scale Greenhouse Gas Emissions Inventories (GPC) – o primeiro padrão internacionalmente aceito para medir emissões em escala municipal (Foto: Gerben van Heijningen/Flickr)

Este post foi originalmente publicado no TheCityFix por Wee Kean Fong e Ryan Schleeter.

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O Rio de Janeiro é uma das cidades do mundo à frente no processo de integrar a sustentabilidade no planejamento urbano. Em 2011, o prefeito Eduardo Paes decretou uma lei ambiciosa relacionada às mudanças climáticas, estabelecendo a meta de evitar a emissão de 2,32 milhões de toneladas de gases do efeito estufa com origem no setor industrial até 2020, o equivalente a 20% das emissões de 2005. Havia apenas um problema: a cidade não tinha certeza de quanto estava emitindo.

As autoridades municipais tentaram fazer um inventário das emissões da cidade em 2005, mas não havia um padrão internacional para esse tipo de mensuração ao nível das cidades. O resultado foi incompleto e inconsistente em relação à maneira como outras cidades faziam o cálculo. Então, com o apoio do WRI, o Rio passou a se dedicar a uma primeira versão do Global Protocol for Community-Scale Greenhouse Gas Emissions Inventories (GPC). Usando esse padrão, a capital carioca descobriu que os setores de transporte e resíduos eram os que mais contribuíam para o total de emissões da cidade – 39% e 19%, respectivamente – e percebeu que colocar esses dois setores como alvo das ações vai contribuir significativamente para atingir a meta de redução de 20% das emissões.

Um novo padrão para medir e gerenciar as emissões nas cidades

Hoje, WRI, C40 e ICLEI estão lançando a versão final do GPC. É o primeiro padrão para medir as emissões em escala municipal aceito internacionalmente, e dá às cidades o poder de identificar de forma precisa de onde vêm as emissões, de estabelecer metas de redução razoáveis e possíveis de serem atingidas e de acompanhar o progresso de forma consistente.

Não podemos vencer a batalha contra as mudanças climáticas sem as cidades

Em se tratando da luta contra as mudanças climáticas, as cidades estão na linha de frente. Para começar, porque elas são a principal fonte do problema: aproximadamente metade da população mundial vive em áreas urbanas, e as cidades produzem 70% das emissões de dióxido de carbono relacionadas ao setor de energia. Cidades emergentes já estão alcançando cidades desenvolvidas no que diz respeito ao volume de emissões. Pequim, Xangai e Tianjin (China), por exemplo, têm emissões per capita semelhantes a grandes cidades europeias e norte-americanas. E o impacto ambiental das áreas urbanas ainda deve crescer mais – as cidades devem passar a abrigar 1,4 bilhão de pessoas a mais nos próximos 20 anos e atrair trilhões de dólares em investimentos em novas infraestruturas.

(Imagem: WRI / Fonte: World Energy Outlook)

No entanto, as cidades estão começando a agir. O Rio é uma das 35 cidades que testaram o piloto do GPC, e o número de cidades utilizando o padrão atualmente já aumentou para mais de 100. Essas cidades representam em torno de 1,1 giga tonelada das emissões de gases do efeito estufa e abrigam mais 170 milhões de pessoas, sendo comparáveis ao total de emissões e populações de todo o Brasil. Alavancando as redes do C40, ICLEI e do WRI Ross Center for Sustainable Cities, espera-se que o número de cidades usando o GPC cresça ainda mais nos próximos anos.

Esses compromissos amplificam aqueles já anunciados pela iniciativa Compact of Mayors em setembro durante a UN Climate Summit, que convoca os prefeitos e lideranças municipais a estabelecer metas de redução de emissões e a divulgar os resultados utilizando o GPC.

Voltando ao Rio…

Quanto ao rio, a administração municipal ainda não descansou desde que comprovou a fonte das emissões da cidade em 2011. Autoridades lançaram um plano de ação climática focado nas duas principais fontes de emissões. Para amenizar as emissões do setor de transportes e limitar a crescente dependência no automóvel privado, a cidade está expandindo sua rede de corredores BRT para incluir três linhas adicionais até 2016, totalizando 150 km de corredores. Combinadas a esforços para melhorar a eficiência dos combustíveis e aumentar o uso de biodiesel, essas medidas devem ajudar a atingir a meta estadual de reduzir as emissões dos transportes em 30% até 2020. A cidade também reformulou seu sistema de gerenciamento de resíduos, incluindo um dos maiores depósitos ao ar livre do mundo, o Jardim Gramacho. Só com isso, a redução de emissões de gases do efeito estufa deve ser de 1.400 toneladas por ano.

A cidade está progredindo, mas ainda tem muito trabalho a fazer. No ano passado, em conjunto com o teste piloto do GPC, o Rio completou seu inventário de emissões de 2012. O inventário indica que a cidade evitou 378 mil toneladas de emissões, número aquém da meta para 2012, que era evitar 929 mil toneladas. E apesar do alto índice de uso do transporte coletivo na cidade, a posse de carros ainda aumenta, e 47% dos brasileiros acreditam que ter um carro próprio é vital.

Ainda assim, munida de um inventário preciso, a cidade pode agora planejar ações mais ambiciosas e direcionadas, a fim de atingir suas metas climáticas e entrar no caminho certo para um futuro de baixo carbono. Enquanto debatem como enfrentar as mudanças climáticas, as lideranças nacionais reunidas em Lima podem ver em cidades como o Rio e ferramentas como o GPC formas de avançar o diálogo e concretizar ações.