O uso crescente das motos: um desafio global para a segurança viária

Na medida em que as frotas de motos crescem em cidades do mundo todo, é preciso priorizar a melhora do desenho das ruas e alternativas não motorizadas de transporte para diminuir o número de fatalidades. (Foto: Frank/Flickr)

Este post foi escrito por Ben Welle and Claudia Adriazola-Steil e publicado originalmente no TheCityFix.com.

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Cidades de todo o mundo enfrentam o desafio imposto pelo crescimento das frotas de motocicletas e o considerável aumento das fatalidades no trânsito relacionadas a esse fenômeno. Com ruas mal preparadas para comportar esses veículos, que circulam em altas velocidades em todas as direções, o cenário pode ser mais bem descrito como a anarquia do transporte urbano. O problema é particularmente grave em países de baixa e média renda e representa um grande desafio para o cumprimento dos objetivos da Década de Ação pela Segurança Viária das Nações Unidas.

As mortes de motociclistas na América Latina triplicaram nos anos 2000 – especialmente em países como Brasil e Colômbia. Na Malásia – onde as motos chegam a somar metade de toda a frota veicular do país – veículos de duas e três rodas são responsáveis por 59% das quase 7 mil mortes contabilizadas anualmente. Essa mesma tendência pode ser vista, entre outros países, na Índia, no Vietnã e na Indonésia.

O comportamento dos motociclistas ainda é um problema; mas, uma vez modificado – por meio de leis e campanhas educativas pelo uso do capacete, direção segura e licenciamento –, pode reduzir as mortes no trânsito. Motoristas mais responsáveis sem dúvida contribuem para a diminuição do número de mortes. Mas há questões mais amplas a serem consideradas, como o desenho das ruas, o papel da qualidade do transporte coletivo de massa nas cidades e o impacto da presença das motos nos ciclistas e pedestres.

O impacto dos acidentes de moto

Acidentes envolvendo motos têm custos econômicos e sociais significativos. Um estudo feito em São Paulo mostrou que 12% de todas as internações nos hospitais da cidade no período considerado foram decorrentes de acidentes com motos. Depois de seis meses de reavaliação, o estudo mostrou que 73,5% desses pacientes não puderam retornar à rotina profissional e 80,9% precisaram de renda extra. A perda de produtividade e o crescimento das despesas com tratamento criam sérias dificuldades financeiras para as famílias. Os custos econômicos e sociais do uso da moto requerem atenção urgente nos setores de saúde pública, transportes e políticas econômicas.

Melhorando o desenho das ruas

Algumas infraestruturas mostraram ser bastante efetivas na redução dos acidentes envolvendo motociclistas, como as faixas exclusivas para motos nas principais estradas na Malásia – uma prática que tem sido replicada na Indonésia e também nas Filipinas. Não se sabe se essas faixas dedicadas são apropriadas para outros lugares ou para as ruas menores dentro das cidades. Em São Paulo, por exemplo, o impacto das faixas exclusivas foi descrito como medíocre, embora o número de colisões tenha caído quando a cidade proibiu a circulação das motos nas pistas centrais de uma grande via expressa.

Mas existem outras medidas que melhoram a segurança para todos os usuários das ruas – incluindo motociclistas –, como a redução dos limites de velocidade e do próprio fluxo de veículos. Uma pesquisa da Malásia revelou que o aumento da velocidade na qual os veículos chegam a um cruzamento sinalizado está associado com o número de colisões envolvendo motos e que a maior parte dos acidentes desse tipo acontece em cruzamentos localizados em áreas comerciais. Reduzir a velocidade de todos os veículos para níveis mais seguros pode ter um grande impacto na segurança.

Melhorando as opções de mobilidade

Ainda assim, a solução a longo prazo para diminuir o número de mortes de motociclistas exige que pensemos mais amplamente sobre como melhorar as opções de mobilidade. As motos são o modal escolhido por muitas pessoas para se locomover em lugares onde o transporte coletivo é de baixa qualidade, inacessível ou até inexistente. Em Hanói, por exemplo, um estudo demonstrou que as oportunidades de emprego são muito menos acessíveis via transporte coletivo do que de carro ou moto, o que explica por que os moradores “gostam” de usar as motos em detrimento do transporte público. No Brasil, muitos usam as motos devido aos custos menores ou à baixa qualidade do transporte público: outro estudo realizado mostrou que todos os custos operacionais de ter uma moto são 25% mas baixos do que as tarifas de ônibus e 66% menores se levados em conta os custos com combustível. E na cidade de Pune, na Índia, uma pesquisa conduzida pela EMBARQ Índia descobriu que dois terços dos motociclistas utilizavam o transporte coletivo antes de ter uma moto.

De qualquer maneira, as motos têm limitações de mobilidade, especialmente em cidades maiores, onde os deslocamentos costumam ser mais longos e desconfortáveis sobre duas rodas. As cidades podem reduzir o hábito do uso da moto criando sistemas de transporte integrado e de qualidade que sejam capazes de transportar as pessoas em segurança e de forma eficiente. Dados da mesma pesquisa da EMBARQ Índia em Pune indicam que os motociclistas optariam pelo transporte coletivo se este fosse confiável, confortável e limpo.

Duas cidades onde o uso das motos é crescente ou dominante estão dando esses passos. O Rio de Janeiro construiu dois novos corredores BRT e planeja a construção de mais dois até 2016. Mesmo no Vietnã, onde os veículos de duas e três rodas representam quase 100% da frota, Ho Chi Minh City tem um novo BRT que oferece uma alternativa de qualidade.

Além disso, uma vez que muitos dos deslocamentos urbanos são curtos, oferecer infraestrutura adequada para pedestres e ciclistas – como a Cidade do México está fazendo, por exemplo – ou conectar esses modais ao transporte de massa de forma eficiente pode dar aos moradores melhores opções de mobilidade. Infelizmente, em vez disso algumas cidades insistem em priorizar veículos motorizados em detrimento das bicicletas, como Kolkata, que baniu os ciclistas em 200 ruas da cidade.

Existem, inegavelmente, muitas formas de reduzir os acidentes envolvendo motos, como repensar o desenho das ruas e promover o transporte ativo para todos. Mas permanece, ainda, a necessidade mais pesquisas e, principalmente, mais atenção ao uso das motos nas cidades.